Observatório Psicanalítico – OP 303/2022 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Memória e escrevivência, um encontro com a psicanálise 

Joice Caroline Pinheiro dos Santos (SBPRJ)

“A NOSSA ESCREVIVÊNCIA NÃO PODE SER LIDA COMO HISTÓRIA DE NINAR OS DA CASA-GRANDE, E SIM PARA INCOMODÁ-LOS EM SEUS SONOS INJUSTOS.” Conceição Evaristo 

Quero fazer  deste texto um espaço de escrevivência, transformando a minha vivência em escrita. Sou aluna, negra, bolsista da formação em Psicanálise da SBPRJ. Uma das 6 pessoas negras selecionadas pelo programa, uma das primeiras a conseguir acessar esse espaço de formação por essa via. A primeira da minha família e uma das primeiras do meu povo, preto! Às vezes ainda me pego pensando na representação disso tudo, já que vivemos em um país em que, segundo dados do IBGE, 54% da população é negra.  Isso deixa em evidência o quanto o racismo é algo real em nossa estrutura, uma estrutura ligada às relações de poder e que atravessa a nossa construção subjetiva em diversos níveis. Acessar lugares é uma forma de poder. Oportunizar esse acesso é uma forma de viabilizar o desejo, pois a estrutura racista cria uma realidade em que satisfazer alguns de nossos desejos é da ordem do impossível.  

Meu primeiro contato com a psicanálise, de modo que me despertasse o desejo, foi em 2016, ao ler Neuza Santos Sousa. Lembro que estava dentro do ônibus, indo trabalhar, e fiquei completamente tomada pela emoção. Nunca havia lido um texto que falasse com tanta profundidade e embasamento sobre os nossos processos de dor, sobre o racismo ao qual pessoas negras são expostas diariamente. Já era graduada em psicologia, já havia estudado psicanálise, mas até aquele momento, a psicanálise só era apresentada como algo muito distante do meu corpo. Com a Neuza foi diferente, ali aconteceu um encontro que me mobilizou, cada vez mais, a estudar autores negros teóricos da psicanálise. Fui me sentindo nutrida por esses autores! Fui percebendo que algumas das autoras que lia eram brasileiras, com contribuições gigantescas nos estudos da negritude e do racismo, no campo psicanalítico e social, mas com pouco ou nenhum reconhecimento. Chegar no dia da minha apresentação na SBPRJ, naquela casa linda em Humaitá de onde se vê o cristo redentor, sentar na cadeira do auditório nomeada Virginia Bicudo, em homenagem a uma das primeiras psicanalistas negras brasileiras e estar ao lado de Wania Cidade, foi uma emoção indescritível. 

As políticas de ações afirmativas nos trazem possibilidades! Sou do norte de Minas, de Pirapora. Cresci às margens do Rio São Francisco e, por questões históricas da cidade com o rio, rodeada de pessoas negras. Entretanto, corpos alienados da sua própria identidade, sem memória. Tenho descendência indígena (por parte de pai) e negra escravizada (por parte de mãe).  

Ouvir falas da Wania Cidade e do Ignacio Paim, é acessar essas memórias e me lembrar que toda a nossa história, enquanto brasileiros, é muito recente. Ao escutá- los no evento “Questões raciais e formação psicanalítica:  é tudo pra ontem”, da SBPSP, me lembrei de um samba que diz: 

A voz do homem que puxa samba 

Vai ter que segurar 

As rezas, os desaforos 

Os gritos de gol 

O choro de quem desabafar 

Vi os dois como puxadores desse movimento nas SBPRJ e SBPdePA, reconhecendo, em nossa ancestralidade negra o papel fundamental de sustentação desse processo político de mudanças institucionais. Wania Cidade traz aqueles que vieram antes dela, antes de nós. O lugar final do racismo é sempre a morte. E um dos processos de morte que ocorreu dentro da psicanálise, foi o do apagamento de psicanalistas negros que nos deixaram grandes contribuições. A ancestralidade negra é apagada desde a época da escravização. Voltar ao passado é fundamental para caminharmos no presente! É assim na clínica, com os nossos processos pessoais, é assim com o racismo.  

Sinto-me feliz e realizada em estar fazendo parte dessa história, ainda que reconheça que é um processo que chega com atraso. É uma honra estar em formação com esses griots – na cultura africana, os griots são guardiões das palavras, responsáveis pela transmissão do conhecimento. É particularmente satisfatório, também, ver as pessoas brancas da Sociedade engajadas nessa transformação que é política, que não é fácil e que implica em olharem para os seus lugares de poder dentro da estrutura racista. Que possamos seguir juntes fazendo história e abrindo caminhos, investindo na construção de uma psicanálise mais diversa, com mais memória e equidade. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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