Observatório Psicanalítico – OP 301/2022

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

A Guerra da Ucrânia e “A felicidade das pequenas coisas” 

Daniel Dimand (SBPSP)

De repente, tudo ficou pequeno e sem importância: o que o filme que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro – “A felicidade das pequenas coisas”, do Butão – evoca, parece tão remoto e distante quanto o próprio Butão. As músicas dos Beatles, produzidas pela geração que nasceu durante ou no fim da Segunda Guerra falando de amor (love, love, love…), dão a impressão de já não fazerem sentido e de não terem nenhum apelo.  

Vivíamos agarrados a uma ingênua sensação de segurança, suportada pelos ideais civilizatórios. Os memoriais de guerra na Europa (o dito mundo civilizado), que pareciam nos mostrar que as atrocidades como as que ocorreram na Segunda Guerra Mundial não ocorreriam mais, hoje parecem frágeis. Tratados e acordos internacionais, que pareciam poder sustentar saídas diplomáticas, agora soam apenas como palavras vazias. O mundo, que já tinha ficado mais cinza com a pandemia, perdeu ainda mais a cor com a invasão russa à Ucrânia. 

Se pararmos para olhar retrospectivamente, no entanto, veremos que nunca estivemos em paz: das guerras no Oriente Médio às atrocidades na África e América Latina, os horrores nunca cessaram. No entanto, nesses territórios, infelizmente, sentimos como se estivéssemos diante de um problema crônico, como se ali a dita civilização nunca houvesse se estabelecido de fato, como se – por mais absurdo que isso seja – a violência fosse algo natural. Já em território norte-americano, europeu e russo, conflitos armados são vistos como exceção, como algo que nos gera perplexidade, como se não fosse próprio do DNA dos seus cidadãos chegar a esse ponto de barbárie. Engano: é o que a atual guerra da Rússia contra a Ucrânia vem nos lembrar. Enquanto o narcisismo do homem contemporâneo ainda sofre diante da impotência no combate a uma desprezível doença infecciosa, algo que nos traz de volta à memória a Peste Negra do século XIV e a Gripe Espanhola no início do século XX, as tão superestimadas culturas do Norte sucumbem diante da violência mais crua a que poderíamos assistir. 

Mas por que nos espantamos? Já dizia Freud, em Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte, que não deveríamos superestimar o ser humano. Outro dia, um encanador, que consertava uma infiltração no meu apartamento enquanto eu ouvia os noticiários sobre a guerra da Ucrânia, comentou que seu avô já dizia que um dia viria o fim do mundo e que ele seria anunciado pela Peste e pela Guerra entre os homens. Parece que, desde os tempos bíblicos, já se sabia que a natureza e o homem não eram confiáveis. Se o avô do encanador já sabia de tudo isso, por que continuamos nos iludindo sobre as qualidades e virtudes do ser humano?

Ainda que não sejamos ingênuos, porém, o que temos acompanhado nos últimos dias não pode deixar de nos causar perplexidade e horror. Casas bombardeadas, territórios arrasados, pessoas deixando seu país. E por mais que ouçamos historiadores e analistas de relações internacionais darem explicações sobre o que ocorre, no fundo nenhuma explicação parece satisfazer a nossa necessidade de compreensão, mesmo que talvez queiramos compreender o incompreensível. 

Diante das ameaças de ataques nucleares – que tentamos dizer para nós mesmos que são remotas – ficamos frente a frente com a nossa impotência, em face da capacidade destrutiva da humanidade, em última análise, autodestrutiva. Será que o ser humano precisa mesmo de contrastes para valorizar as coisas simples da vida, como acordar de manhã, estar com os amigos, fazer sexo, comer, trabalhar, viajar…? Precisaríamos, de tempos em tempos, criar grandes conflitos para depois sentirmos o prazer por ter sobrevivido? O que se passou para que depois de algum tempo de relativa paz os cidadãos de países aparentemente democráticos dessem poder a líderes autoritários como Trumps e Bolsonaros? Toda uma tendência que os humanistas costumam considerar como uma anomalia, um desvirtuamento do curso histórico, afinal, o que essas figuras grotescas representam não pode deixar de chocar aqueles que ainda mantém algum grau de lucidez e sensibilidade em relação ao mundo. 

Porém, se acompanharmos com atenção algumas passagens da nossa história, perceberemos que figuras como essas, assim como as atrocidades nas regiões mais prósperas e “evoluídas” do mundo, não são a exceção, mas a regra: vide o nazismo e a caça às bruxas no início da era moderna. Alguns defendem, penso que acertadamente, que o caminho rumo a um ideal civilizatório seria mesmo incompatível com a natureza humana e, por paradoxal que isso possa parecer, redundaria, inevitavelmente, em agressividade, perseguição, intolerância e destruição (isso valeria não só para o nazismo e a caça às bruxas, mas também para o socialismo, a Revolução Francesa, etc.…). O ser humano não seria afeito às utopias, à perfeição, aos ideais que ele cria para si. 

As justificativas, no entanto, para as atrocidades são sempre as mais moralmente elevadas: só se mata em nome dos valores mais nobres. Por exemplo, ainda que hoje nos pareça absurdo, a morte de mulheres na época da caça às bruxas era fortemente embasada em preceitos religiosos com o devido aval da Igreja e do Papa, da mesma forma que a purificação da raça propagada pelo nazismo tinha um forte apelo moral, por mais esdrúxulo que ele fosse (como o governo brasileiro atual que se pauta em valores como Deus, a família e a pátria). Como bem diz o dito popular: de boas intenções o inferno está cheio. Não podia ser diferente na guerra atual: Putin justifica a invasão da Ucrânia como uma “desnazificação” do país, enquanto a expansão russa avança como o 3º Reich. 

Não parece equivocada a ideia de que a Rússia, ressentida com o fim da União Soviética na década de 90 procura, com a invasão da Ucrânia, impor de volta a mesma humilhação sofrida há 30 anos pelo mundo ocidental, quando teve que retirar suas forças armadas de bases no leste europeu. Com isso, tenta resgatar nostalgicamente seus antigos tempos de glória. A psicologia das massas não pode ser esquecida nesse contexto. Como, apesar da crítica de muitos russos sobre a guerra e do poder repressor da censura sobre as manifestações da população, um líder consegue mobilizar forças militares para atacar um país com o qual a Rússia tem afinidades tão profundas, linguísticas, étnicas e históricas? 

Por mais que saibamos das complexidades envolvendo as desavenças entre Rússia e Ucrânia, associadas à influência do Ocidente, ainda resta uma lacuna para compreendermos a passagem de Putin à guerra com tamanha destrutividade. De alguma forma, o discurso nacionalista e expansionista tem seu apelo e contribui para a mobilização bélica a que assistimos. Algo ou alguém que represente um inimigo externo (seja ele real ou nem tanto) também ajuda a catalisar essas forças destrutivas. 

No fim, estamos diante de uma guerra que nos expõe frente à nossa inesgotável capacidade autodestrutiva. E com o desenvolvimento tecnológico que as potências mundiais atingiram hoje, uma guerra entre esses países pode ter consequências catastróficas. Neste momento tão crítico, coloca-se a questão de se viveremos para um dia voltarmos a valorizar “A felicidade das pequenas coisas”. Talvez seja algo que, no fim, só sobreviva em algum lugar bem remoto do Butão.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Imagem: “Guerra e Paz”, pintura de Portinari 

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