Observatório Psicanalítico – OP 299/2022

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Formatação, deformação: ensaiando sobre a formação em psicanálise

Alexandre Pantoja (SPBsb), Felipe de Nichile (SBPSP) e Renata Arouca (SPBsb)

“A natureza não se importa com vossas pretensões; ela não se preocupa com os vossos desejos e, se suas leis não vos convêm, pouco se lhe dá. Sois obrigado a aceitá-la tal como é, assim como todas as consequências.” (em Dostoiévski, F., ”Memórias do subsolo”, 2009)

Iniciamos este ensaio citando Dostoiévski, pois acreditamos que ele possa nos auxiliar a criar um pensamento sobre o inconsciente, um objeto de estudo tão abrangente e ao mesmo tempo, paradoxalmente, completamente fugidio. A possibilidade de apreendê-lo alterou intensamente nosso modo de refletir e interagir sobre uma infinidade de fenômenos, de modo que podemos dizer, com segurança, que foi capaz de criar uma verdadeira revolução paradigmática.

Ainda que encontremos algum interesse por parte de filósofos e místicos sobre o tema,  os conceitos de psicanálise e inconsciente estão tão arraigados que se costuma pensar que Freud teria cunhado o termo, todavia coube ao pai da psicanálise a criação do conceito de inconsciente dinâmico e de uma metodologia que nos permitiu tecer ferramentas para reconhecê-lo e trabalhar com ele. Nossa formação, neste sentido, baseia-se na intenção de transmitir tanto um conhecimento teórico sobre o inconsciente, quanto em práticas que possam contribuir para um real crescimento e com o desenvolvimento e afinação de uma escuta do inconsciente. Assim, para além das diferenças teórico-técnicas apresentadas pelas diversas linhas em que se dividem os psicanalistas, nos perguntamos no que podemos investir quando a nossa meta é uma formação. 

A implicação de cada um de nós, portanto, sendo uns com mais experiência, outros menos, fatalmente irá confrontar nossas condições pessoais de vivenciar acontecimentos empaticamente, bem como a auxiliar o analisando a dar representatividade às dinâmicas e afetos que o habitam como sujeito de vivências prazerosas e desprazerosas. Trata-se de uma ética do cuidado, logo, em uma prática que estará as voltas com à Lei; o desejo, o (des)envolvimento emocional; a castração; o cuidado; o respeito, mas também a dominação, o saber, o conflito, a hierarquização, a opressão e o poder. Enfim, de uma experiência humana em todo o seu potencial.

Diante de um ofício (im)possível questionamos, então, quem estaria autorizado para o exercício da transmissão da psicanálise? Quais seriam os totens existentes em uma formação? Nós falaremos sobre nossas possibilidades de lidar com as diferenças, ainda que estas envolvam um discurso apaixonado quanto à classe, gênero e raça?

A seriedade, o respeito e o rigor metodológico que caracterizam a prática em nossos institutos, podem, muitas vezes, deslocar-se sem perceber para uma rigidez comportamental, autoritária, opressora, criando uma mitologia segundo a qual os arranjos e os “modelos” de uma tradição psicanalítica se manteriam, principalmente, em função de uma suposta garantia de que seguindo por trilhas já antes percorridas, chegaríamos aos resultados almejados.

Perguntamo-nos até que ponto a transmissão nesse formato não estaria pautada numa política edípica-transferencial, favorecendo a crença na existência de grandes mestres que ensinam a um grupo seleto de discípulos.

O exercício da função psicanalítica e a autorização para “falar em nome próprio” ocorrem com estas introjeções e identificações. Mas, também, com separações e transgressões nesse percurso, que produzam deslocamentos de relações infantilizadas e idealizadas substituídas por uma lógica em que todos possam ser autênticos com sua própria singularidade e a do outro, sem que nos esqueçamos de valorizar o compromisso com o social. Este último compreendido e priorizado como espaço de valorização do comum e do diferente tido como uma experiência de possibilidade de compartilhamento. Isto é, uma psicanálise exercida também para além das paredes que costumam caracterizar o consultório tradicional.

Não se trata de eliminar toda e qualquer regra, referência ou tradição na formação em psicanálise, que são necessárias e desejáveis. Falamos de uma prática que se paute na construção de um pensamento complexo e pluralista, na aposta de que esses valores se articulem, produzindo uma prática comprometida com um caminho compatível com a liberdade, criatividade, esperança, ampliação de recursos internos do analista e do analisando e formas horizontalizadas de se relacionar. O modelo de formação, qualquer que seja ele, não deveria, em nosso entendimento, distanciar-se muito disso.

A meta da formação não pode ser prioritariamente institucional, pois isso a tornaria autofágica, no pior sentido, pois ela existiria para si mesma, um narcisismo primário patológico e destrutivo. Incompatível com a função do analista, e com aquilo que tentamos vivenciar com nossos pacientes.

Sustentamos, portanto, que uma formação comprometida com a função analítica deve afastar-se dos modelos que se pautam unicamente em metas de sucesso institucional ou financeiro, um exercício da psicanálise eminentemente mercantil.

Um modelo de formação que se preocupa excessivamente com o cumprimento de requisitos impostos pelos institutos, tornando-os muitas vezes mais importantes do que as experiências que cada analista em formação vivencia, acaba dando mais ênfase à fôrma institucional em detrimento da experiência subjetiva, tão necessária em nossa prática.

Seguindo uma orientação que partiu inicialmente de Freud, é importante estimular o analista em formação a estar nas diversas áreas da sociedade para que ele desenvolva capacidades próprias de trabalhar com o inconsciente em situações diversas, o que o ajudará não somente em sua clínica, mas no desenvolvimento de sua sensibilidade e escuta às novas demandas contemporâneas.

Por fim, questionamo-nos se também não estamos, muitas vezes, praticando em nossos institutos o modelo aluno-professor – escolar, universitário -, que tanto criticamos. Ele não nos parece suficiente para dar conta das novas demandas de uma sociedade em profunda transformação estrutural, com a emergência das redes sociais, o crescente autoritarismo e os preconceitos de raça, de gênero e de classes.  

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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