Observatório Psicanalítico – OP 274/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Aprendendo com a experiência, enfim

Maria Luiza Gastal (SPBsb)

Domingo (24/10) li na coluna de Ricardo Noblat, no site Metrópoles, o editorial do Estadão daquele dia. Confesso que fui acometida de enorme desânimo. Pode ter sido a terceira dose da vacina, que me derrubou na cama. Pode ter sido a leitura da notícia de que o líder máximo do Brasil afirmou em uma live que as pessoas que receberam duas doses da vacina contra COVID correm o risco de contrair Aids. Podem ser as cenas das pessoas atacando caminhões de lixo para conseguir comida. Pode ser o conjunto da obra, o que é mais provável.

Noblat, que (felizmente) tem sido um crítico feroz de Bolsonaro, transcreve o editorial em que o Estadão – como de hábito – ataca o PT num texto intitulado “O diabo não desiste”. No caso, o diabo é o PT, porque:

1. “o PT precipitou a maior crise econômica, política e moral da Nova República”;

2. O PT se opôs a reformas modernizantes como a da Previdência, opõe-se a outras, como a administrativa, e não oferece alternativas construtivas aos desmandos que acusa;

3. O PT (particularmente a ex-presidente Dilma Roussef) cometeu uma série de erros de gestão, que produziram perdas para o país, sem que o partido tenha feito uma autocrítica de seus erros.

Eu me pergunto o motivo desse editorial, sobre um partido que há cinco anos deixou o poder, quando vivemos tempos tão sombrios de pulsão de morte bolsonarista. E não pude me privar de tentar pensar sobre o texto e o mal-estar que me causou.

Então vamos lá. Não sei qual foi “a maior crise econômica, política e moral da Nova República” antes de Bolsonaro, mas não tenho dúvidas de que estamos, no presente momento, vivendo a maior crise moral, uma das maiores crises políticas e uma gigantesca crise econômica da história do país. A corrupção com qualquer bem público, como o petróleo, é um horror, mas a corrupção com vacinas, medicamentos e verbas para a saúde em meio a uma pandemia que ceifou centenas de milhares de vidas em pouco mais de um ano é moralmente muito pior. Isso sem mencionar as descobertas macabras feitas pela CPI a respeito do “tratamento” de idosos por uma operadora de saúde, com o aval da presidência. Ou pode ser que eu seja meio antiquada…

A oposição a “reformas modernizantes” (eufemismo para supressão de direitos sociais garantidos pela Constituição que todos os legisladores e os chefes do executivo prometeram defender) é um ponto a favor do PT (e de outros partidos progressistas) que não vou nem discutir.

O PT não fez autocrítica. Esse é um mantra que não para de ser repetido, desde, sobretudo, as eleições de 2018. O PT não fez autocrítica? Certamente, não o bastante. Algumas de suas lideranças assumem uma política de avestruz com respeito aos erros do partido, pelo menos externamente. Como não sou petista e não frequento as reuniões de diretório, não sei se o mesmo acontece internamente, mas suponho que sim.

Mas…

Isso não significa que outros membros do partido não tenham feito uma autocrítica das ações da agremiação. Prontamente, me vêm à lembrança textos contundentes, nesse sentido, dos gaúchos Olívio Dutra e Tarso Genro. Pouco, mas acontece. Devo também assinalar que não são cobradas iniciativas de autocrítica de outros partidos, o que me parece, no mínimo, curioso. A título de exemplo no campo mais progressista (prefiro não mencionar partidos do Centrão, sempre no poder, sempre fisiológicos), o PSDB tem governado o Estado de São Paulo desde 1994, período em que ocorreram inúmeros escândalos de corrupção e erros de gestão. Lembremos que Ricardo Salles foi secretário particular do governador Alckmin e, depois, secretário do Meio Ambiente do estado, tendo sido condenado pela justiça em virtude de atos ilícitos realizados em sua gestão.

Ah! Eis uma petista passando pano para o PT. Não, de forma alguma, e de muitas maneiras. Em primeiro lugar porque não sou “petista”, seja no sentido de ser filiada ao partido ou no de ser sua apoiadora contundente. Tenho votado no PT, porque considero que diante das alternativas ele era a melhor. Mas isso não me poupou de fazer fortes críticas a erros que cometeu, sobretudo nas gestões de Dilma, e principalmente no que diz respeito às políticas ambientais. Ainda que o desmatamento na Amazônia tenha sofrido uma queda constante nos anos de governo petista – o que é muito louvável e importante, não perdoo o PT por Belo Monte, como não perdoo os militares por Itaipu e Tucuruí. Assim que Dilma tomou posse, sobretudo em seu segundo mandato, assumi uma postura crítica. Devo dizer que, a favor do PT e contra os militares, que voltaram ao poder, o discurso ambiental do partido mudou, enquanto o discurso e as práticas dos militares continuam as mesmas das décadas de 70 e 80, como mostram as taxas crescentes de desmatamento, os incêndios, as tempestades de areia, a liberação indiscriminada de agrotóxicos e muito mais.

O que seria “fazer autocrítica”? Poderíamos traduzir, em termos psicanalíticos, em “aprender com a experiência”, atitude que exige uma boa dose de humildade, e uma coragem para enfrentar nosso narcisismo. Algo como dizia Darwin, herói de Freud, quando afirmava que preferia as críticas de seus detratores aos elogios de seus amigos, porque as primeiras o levavam a ir mais longe em seu pensamento.

Penso que falta autocrítica a todos os que apoiaram a candidatura de Bolsonaro, como é o caso de Noblat. A maioria o apoiou porque valia “qualquer coisa contra o PT”. Valia um deputado incompetente e virulento que usou o palanque da Câmara para elogiar um torturador. Que ameaçava mulheres, atacava indígenas, negros e LGBTs. Que tinha o passado (e o presente) manchado por esquemas de rachadinha e suspeitas de envolvimento com a milícia, no Rio de Janeiro. Que planejou um ataque terrorista a uma adutora de água que abastece o Rio de Janeiro, além de ter cometido muitos outros atos de indisciplina em sua vida militar. Não vou continuar a lista, porque ela é quase interminável.

Em se tratando de autocrítica, eu agora estou preocupada com a dos que elegeram e defenderam o atual presidente. Não por vingança ou revanchismo – de forma alguma. Espero essa autocrítica para ter a esperança de que não elegeremos outro fascista sádico e incompetente. Para ter a esperança de que em 2022 as pessoas que pedem autocrítica por parte do PT tenham feito a sua, e escolham o outro candidato. Não será, como não era em 2018, uma escolha difícil. Talvez não tenhamos uma alternativa tão melhor, como tínhamos naquela eleição, com um professor universitário que recebeu diversos prêmios de gestão internacionais, quando governava a capital paulista. Um sujeito que tinha candura e educação ao falar e escutar. Um sujeito que toca guitarra em vez de empunhar um fuzil. Um sujeito que não perseguiria emas (nem pessoas) para lhes impingir um medicamento inócuo.

Azar. O importante é aprender com a experiência, e não repetir erros que têm resultado em morte, tristeza de desalento para o Brasil. Espero isso do Estadão, de Noblat e de outros articulistas que apoiaram aberta ou veladamente Bolsonaro e seu “competente ministro da economia”. E espero de meus amigos, para que possamos voltar a pensar que este país tem solução, para que a esperança volte a ser uma palavra com sentido.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Imagem: Incêndio do Reichstag..

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