Observatório Psicanalítico – OP 273/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Os caminhoneiros e o risco da alucinação coletiva

Ricardo Trinca (SBPSP)

Não há novidade quando se diz que há um maravilhoso gosto em alucinar. Chupar os dedos, alucinar o peito… um gosto por alucinar uma realidade, uma verdade, uma existência… um bebê alucina por prazer, e também quando não tem o que precisa. Em nossas alucinações, “consertamos” o mundo temporariamente, embora as exigências da vida permaneçam. Mas quando esse estado alucinado perdura, é importante pensar em suas razões. E  foi por isso que resolvemos investigar neste texto sobre o choro comovido, emocionado e intenso dos caminhoneiros, bravos homens, arrastados pelos braços da fantasia, que comemoraram o estado de sítio decretado pelo presidente da república durante a noite do dia 08 de setembro… mas, pouco tempo depois, esbravejaram pela frustração de ser apenas uma torpe bravata. 

Alguns vídeos que circularam pela internet mostraram homens muito emocionados, abraçados uns nos outros, dizendo – em lives – que naquele momento o presidente havia decretado estado de sítio no país. O espectador podia ouvir muitas buzinas e cornetas ao fundo, iguais aquelas usadas pelas torcidas nos estádios de futebol. A emoção tomava conta das pessoas, e um ou outro chorava de alegria… sentimos, como espectadores, que a emoção comunicada nesses vídeos era parecida com a de uma grande conquista, ou com a comemoração de uma vitória da seleção…

Os caminhoneiros nos mostraram que há no universo social algo análogo com o que ocorre em nosso universo mental: a possibilidade da alucinação (neste caso coletiva) como uma tentativa malsucedida de “melhorar” a realidade insatisfatória. Mas é claro que assim vamos para bem longe dela. Como bem apontou Freud (A perda da realidade na neurose e psicose. (1924/2011), a alucinação não consegue perdurar por muito tempo… a realidade sempre bate à nossa porta, mostrando a frustração e o clamor por satisfações mais “reais”; afinal, todos têm fome, mas daquilo que possa ou se fazer real, ou nos convencer que não será uma miragem.

Mas o presidente, com sua cruel forma de pensar, estimula ao máximo movimentos alucinados, compostos por desejos e forças que permanecem costumeiramente recalcados, como o ódio.  O outro (e a diferença) é potencialmente um inimigo, que tem diversos nomes. Temos observado que as mentiras, Fake News, informações deturpadas, parecem parte de uma estratégia de criação desta realidade anômala da qual, para se participar, é preciso abdicar das dúvidas. A realidade alucinada é constituída por verdades absolutas e destituídas de crítica e da verificação de dados de realidade. 

Um dos critérios para a participação desse verdadeiro universo paralelo é ter que se afastar de informações que possam criar oposições às novas percepções da realidade. Há uma tarefa, portanto, de obter percepções que correspondam a essa nova realidade, o que é feito, como notou Freud (1924/2011), pela via da alucinação. Os seguidores, por isso, seguem um único curso, sem interrogações, e por meio de produções de diversas mídias obtém um estoque contínuo destas falsas percepções.

Sabemos que a razão é frágil, sempre carregada pelos braços fortes e joviais de nossas emoções desconhecidas. Não há autonomia nela. E isso significa que não são as informações ou eventuais dissonâncias cognitivas que poderiam fornecer um antídoto para a alucinação bolsonarista. Esse universo paralelo é caracterizado principalmente pela sua forte adesão a um reclame violento, cujo objeto é inespecífico.

Esse engajamento bruto dos seguidores do presidente pressupõe a concordância impensada e coesa. É um golpe na democracia dentro da micro-política, pois sabemos que o autoritarismo é o avesso a qualquer dialógica, principalmente aquela que nós – psicanalistas – costumamos promover: a que mira um alvo que – embora não se alcance – é procurado; e, por meio desta procura, atravessa verdades provisórias, principalmente por meio de correntes afetivas e de atenção e cuidado com o outro.

Importante notar também que uma enorme afeição é depositada nessas realidades alucinadas e principalmente na figura do líder, o presidente. O pensar, esse poderoso aliado para a possibilidade de obtenção de verdadeiras satisfações, é suspenso e, em seu lugar, surge uma poderosa força, que aponta para uma realidade forjada coletivamente. Como nos mostra a música: “Um sonho que se sonha só,/ É só um sonho que se sonha só./Mas sonho que se sonha junto é realidade”. (Prelúdio, Raul Seixas, 1974). Nesse caso, um “sonho” constituído por alucinações coletivas.

Sabemos que a vida em sociedade pressupõe conviver com nossas inevitáveis faltas e com um contínuo mal-estar. Mas, quando se estimula a alucinação e o alucinado se percebe “chupando os dedos”, sem “leite”, sem nada, ou ele consegue recuperar alguma capacidade de pensar e de sustentar suas dores pela tolerância, ou se volta contra quem não lhe dá aquilo que foi prometido, aumentando ainda mais o potencial disruptivo desta nova frustração em relação a realidade.

Caso o presidente consiga convencer os caminhoneiros (e outros seguidores) que aquele que promete (e não dá) é algum outro que não ele mesmo, utilizando-se – como tem feito – desta força violenta cuja direção é inespecífica, então essas forças loucas estarão com ele, numa revolta tipicamente fascista. Uma revolta para se obter o que foi prometido por meio da força – mesmo que esse prometido não corresponda àquilo que de fato essas pessoas precisem… mas, caso contrário, elas irão se opor ao seu líder, o presidente, como de fato se esboçou posteriormente e foi divulgado na mídia .

Um desejo, alucinado coletivamente, convencido de que pode obter aquilo que – na verdade – não poderia, tem tudo para se transformar em uma horda assassina. Em uma alucinação coletiva com esta característica, em que os vínculos se estabelecem de modo perverso, o outro desaparece e em seu lugar restam fragmentos de gente. A humanidade não é mais reconhecida por sua diferença e sim por sua adesão ao mesmo. Vivemos em uma época difícil, pois o óbvio, nesta conjuntura, precisa ser reiterado continuamente, mas seu dizer é insuficiente.

Esperamos que as correntes afetivas e a sexualidade consigam ser fortes para nos tirar deste enorme enrosco… e que depois possamos nomear e julgar – colocando os “pingos nos is” que precisam ser colocados desde a equivocada lei da anistia e da nossa redemocratização.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Imagem: José Leonilson (artista plástico brasileiro, 1957-1993) – foto da obra publicada no blog históriadaartenonrasil http://historiadartenobrasil.blogspot.com/2010/07/leonilson-geracao-de-80.html?m=1

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