18.06.21 Observatório Psicanalítico – OP 251/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Genocídio   

César Augusto Antunes  (SBPdePA)

Temperaturas Amenas

As temperaturas amenas, as luzes claras do outono nestes tristes trópicos, ou a chegada da primavera afastando os rigores de invernos sombrios na Europa, marcam o que deveriam ser os dias de outono e primavera para todos, momentos de convívio e fraternidade. 

Talvez influências perniciosas de um ano de isolamento por fatores naturais, a pandemia, ou por fatores sociais, comportamentos cada dia mais agressivos e genocidas, conduzem nossas reflexões para o obscuro lugar da destrutividade humana. 

Em um afável mês de primavera, há pouco mais de 60 anos, Adolf Eichmann era julgado em Jerusalém por crimes contra a humanidade. Este fato adquiriu relevância maior, sob meu ponto de vista, que os julgamentos de criminosos nazistas em Nuremberg, pois a partir das observações agudas de Hannah Arendt conhecemos o que hoje chamamos de Banalidade do Mal. 

Comportamentos que, em sua essência, não carregam expressões de ódio ou prazer com o sofrimento alheio. Poder-se-ia dizer, nestes casos, que as destrutivas expressões da pulsão de morte, encontram-se desligadas dos objetos, em sua trajetória destrutiva. O Mal Banal revela-se na indiferença, na insensibilidade com o outro, naquilo que André Green chamou de desobjetalização, apatia diante do sofrimento alheio. Um mal radical que destrói representações-coisas ou representações de objeto e transforma o indivíduo em um alienado de si mesmo.  Um “antepático”, como chamei em outro texto, um ser destituído de paixões.

O “antepático”, pode viver em sociedade, casar-se, ter filhos, uma vida aparentemente normal, mas percebe-se um distanciamento social, uma indiferença quanto ao destino seu ou das pessoas que o cercam. Centrado na tarefa de “ganhar dinheiro”, um tanto workaholic na iniciativa privada, é um burocrata regrado na empresa pública. Sua anedonia o transforma em instrumento essencial para regimes tirânicos e ditatoriais.   

As características do funcionamento banal diante da maldade, segundo Nadia Souki, apresentam três componentes essenciais: a recusa ao pensar, a constituição de uma vida baseada em necessidades e não em desejos e uma dificuldade em distinguir o real do fictício, uma incapacidade de distinguir a verdade das “fakenews”. 

Eichmann “nunca percebeu o que estava fazendo” (Arendt). A incapacidade em pensar foi o que o transformou em um grande criminoso. Ainda a este respeito, Arendt diz: “Essa distância da realidade e esse desapego podem gerar mais devastação do que todos os maus instintos juntos.”   

A recusa ao pensar, ou sua incapacidade, impedem o julgamento e, portanto, a distinção de qualidades. A ausência do juízo de atribuição compromete o juízo de existência, transforma o ser que assim se conduz em mero instrumento da paixão de outros, principalmente, paixões destrutivas. Não podemos esquecer que a essência dos regimes totalitários com cores fascistas é a exaltação de “Ein volk, ein reich, ein füher”. A glorificação da pátria, do povo e do chefe desfaz diferenças e inibe a liberdades de expressão, resultando no enfraquecimento dos outros poderes que constituem a democracia moderna. Tanto o sistema legislativo quanto o judiciário adquirem um valor secundário, existindo somente para reforçar as ordens, leis e conduta jurídica do tirano. Só tem valor o juízo que emana do Líder. 

Seriam estes, então, os fatos atuais que nos fazem assistir alegres cidadãos de meia-idade, em seus carros brilhantes e bem lavados, com sua família sentada nos bancos traseiros, ostentarem bandeiras do país, fazerem sinais de arma com os dedos e sorrirem felizes em direção ao abismo do autoritarismo, pedindo intervenção militar e simplesmente esquecendo da maior tragédia que se abateu nestes novos tempos modernos de “sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta” –  a pandemia? 

Perdemos, de vez, a capacidade de discernir o populismo retórico, a ausência da verdade, a mentira insistentemente repetida até não ter mais sentido na realidade?

A cultura e a barbárie 

Também em uma aprazível primavera, em 1915, o massacre da população armênia pelos turcos otomanos serviu para que um jurista judeu polonês, Raphael Lemkin, iniciasse seus estudos sobre comportamentos violentos e destrutivos contra povos e sociedades ao longo da história. Em 1943, ao observar o comportamento do partido nazista em relação às minorias e aos judeus, principalmente o extermínio sistemático de seres humanos enviados aos campos de concentração, cunhou o termo genocídio para descrever o holocausto. 

O percurso do homem e da civilização ao longo do tempo é repleto de violências e destrutividade. Situações que nos parecem impossíveis de descrever ou imaginar, de compreender e justificar, esquecer e perdoar. Mas que continuam acontecendo. A grande diferença é que agora temos a palavra e com ela a consciência do ato.

Precisamos falar sobre isto, temos agora a palavra e sua representação. Temos conhecimento e consciência. Nomear, e nomear, e nomear a violência todas as vezes em que ela se apresentar. Incansavelmente. Principalmente a violência da indiferença. 

No passado, no comportamento das hordas primitivas e semisselvagens ou nas culturas posteriores, faltava ao homem a consciência do ato, e essa só emerge da ignorância pelo nome que a transforma em noção de comportamento. Não se trata aqui de dizer que somos melhores que nossos antepassados; eles ignoravam ser a escravidão, o extermínio de culturas estrangeiras, a destruição de florestas, a dominação sobre o semelhante, a imposição pela força de homens em relação a mulheres, uma atitude execrável. Mas nós temos a consciência do fato, portanto temos a chance de mudar. 

A consciência é, a princípio, consciência da diferença. Não pode ser nunca a busca do pensamento único, do predomínio do discurso dos vencedores ou a lei dos mais fortes. É um ser igual na diferença. Pessoas diferentes, com reflexões diversas, mas com os mesmos direitos sociais. Sem o predomínio de uma cultura sobre a outra. 

Desta forma, talvez possamos alcançar a compreensão interna, o “insight” do que deve ser a luta entre civilização e barbárie.

Palavras, estudos e experiências universais, ou seja, a história da humanidade (o pleonasmo é necessário neste momento) forneceu acontecimentos suficientes para não repetirmos erros passados, evitarmos as compulsões e repetições que aprisionam o comportamento humano em atitudes incivilizadas e instintivas. Assim, a luta contra a barbárie não é somente a defesa da tolerância em relação às diferentes expressões culturais, ou a ausência de imposição de uma forma de pensar sobre a outra, de uma bandeira sobre outra, de um Deus sobre outro ou a abolição da ficção de raças. Sabemos, ou pelo menos a psicanálise deve saber, que o campo deste enfrentamento se constrói primeiramente na realidade interna, nos conflitos de almas aflitas, nas lutas entre estas estranhas criações da tópica freudiana, o Isso, o Eu e o Sobre-Eu ou supra-Eu. 

Hoje em dia, a consciência das ações que identificam as violências do Eu social em relação ao objeto, o semelhante, tais como: a violência do silêncio diante das injustiças sociais, a violência contra povos e culturas diferentes da nossa, o extermínio de populações por falta de assistência, alimentação ou vacinas se chama genocídio. Esta palavra desfaz o luto diante do ato e exige ação.  

Do coração das trevas do infinito inconsciente deve surgir a luz diáfana do conhecimento consciente através da palavra que diz, “isto é uma maldade”. A ação de comprometimento com o semelhante deve sustentar atitudes de não conformismo, de revolta e do grito que não se cala diante das injustiças e omissões. 

A alma liberta do medo pode então ter consciência do temor inconsciente. A consciência ao oferecer os signos de qualidade mediante a percepção de um período (tempo), cria o pensar recognitivo ou judicativo – capacidade de julgar o certo e o errado – que se colocará como antecipação ao pensar reprodutivo transformando a ação de mera descarga, em ação específica. É um fazer como consequência do pensar e não o fazer sem pensar. Bion lembra isto como três princípios de vida; primeiro, sentimentos; o segundo, pensamentos antecipatórios; o terceiro, sentimentos + pensamentos + Pensamento. Chama a isto de prudência. 

Por estas razões a primeira luta da civilização contra barbárie deve ser uma luta interna, no reconhecimento de nossos preconceitos ou indiferenças, pois ninguém está livre de preconceitos e desejos hostis.  O bárbaro que nos habita, os filhos e filhas das hordas primitivas ainda, em seus sonhos mais secretos, aguardam o retorno do chefe e senhor da horda, com suas ordens e decisões, com suas concessões e violências. Quando o chicote se afasta da pele, durante o açoite, provoca uma sensação tão grande de alívio, que durantes uns segundos podemos até amar aquele que nos chicoteia. A consciência da violência e a descoberta da ignorância revelam então o reinado do conhecimento possibilitando retorno a uma sociedade de iguais, a uma fraternidade. 

Livre dos pensamentos selvagens, ou com eles esclarecidos pela palavra e pela ascensão da consciência sobre o inconsciente, quando pudermos dizer Isso sou Eu ao invés de dizer Eu sou Isso, não negaremos o Isso mas exaltaremos o Eu consciente de seu Isso. Só então poderemos retornar aos aprazíveis dias das luzes diáfanas das meias estações de nossa existência.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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