29.05.21 Observatório Psicanalítico – OP 247/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Um certo tipo de fraterno

Susana Muszkat (SBPSP)

Em 30 de abril, participei de um Webinar da IPA, intitulado “Lo Fraterno”. O Webinar foi em espanhol, destinado principalmente à comunidade Latino-americana hispano-hablante e Europeia (Espanha). Compúnhamos a mesa o colega espanhol Luís Martín Cabré, a argentina Silvia Resnizky, e eu, do Brasil. Gostaria de partilhar com os colegas do OP, e em sintonia com reflexões de outros colegas deste fórum, algo sobre o tema do fraterno que já vinha me convocando e que o convite para participar do Webinar me fez organizar em um texto. Quero também agradecer publicamente aqui, a três amigas, cuja disponibilidade para conversar comigo sobre este tema, foram uma autêntica vivência de laço fraterno amoroso e criativo. São elas em ordem alfabética: Marion Minerbo, Monica Vorchheimer, Raya Zonana.  

Vamos ao texto:

O fraterno é um tema que parece ter ficado na moda. Seria isso expressão do Zeitgeist, produto da inquietação a partir de grupos horizontais que se formam ocasionando transformações e despertando perplexidades nos campos da política, da cultura, do social, da violência?

Detenho-me aqui, mais especificamente, em um tipo de expressão do fraterno vigente em meu país, o Brasil, onde uma coincidência no tempo entre a eleição presidencial de 2018 e a Covid-19, resultou numa infeliz conjuntura. Nesta breve apresentação, procurarei trazer para o debate, um fenômeno que vimos se instituir no Brasil: o anti-pacto civilizatório. Uma significativa quebra dos laços sociais, culturais, educacionais e políticos de proporções dramáticas.

Os relevantes conceitos: Complexo Fraterno, – trabalhado por autores como Kaes e Kancyper -, ou uma variante, a Função Fraterna, – descrita por Maria Rita Kehl -, não estão nos dicionários de psicanálise, tendo sua importância ficado relegada a uma menor medida, por exemplo, se comparado à estatura ocupada pelo Complexo de Édipo, que vinha há muito tempo em “carreira solo”, no que diz respeito a pensar-se categóricos estruturantes dos sujeitos.

Maria Rita Kehl, atribui ao conceito de Fraterno, o resgate do termo Fratria ao debate psicanalítico. Afirma, a participação do semelhante/diferente como necessária no processo de constituição do sujeito, como sujeito social. Atribui também à função fraterna, forma de organização de composição horizontal, por meio da qual grupos asseguram a conquista de espaços de reconhecimento e existência, questionando paradigmas instituídos e abrindo frentes para novas ideias e valores como muitos que acompanhamos, tais como os movimentos LGBTQ+, ou rappers da periferia no Brasil.

As teorizações de Freud sobre a instauração do pacto civilizatório – garantido pelos laços fraternos a partir do assassinato do pai da horda -, já as conhecemos desde Totem e Tabu (1913).

Mais adiante, em Mal-Estar na Civilização (1930), reafirma o pacto como sendo a um só tempo: fonte permanente de mal-estar advindo da repressão das satisfações pulsionais, e também imprescindível para a manutenção e progresso da civilização.

De equilíbrio instável, tem paradoxalmente como seu corolário, um fenômeno que se tornou cotidianamente assustador na vida brasileira atual: O mal-estar como resultado não mais da repressão pulsional, mas sim da liberação em ato das pulsões, sem mediação simbólica, sem interdição. Estamos mergulhados no mal-estar da horda primitiva!

Pareceria mesmo, que adentramos um universo paralelo onde os valores e as regras da convivência social foram diametralmente invertidos. Tal sistema sustenta-se apoiado  por um movimento de massa alienada (conceito descrito por Aulagnier), sendo comandada por um líder despótico e paranoico,  em que predominam  a banalização da dor e do luto, e onde expressões de empatia, solidariedade, respeito pelo sofrimento alheio e pesar pela morte do semelhante, deixam de ter valor.

O outro, meu dessemelhante, não me importa. De caráter francamente anti-civilizatório e mortífero, essa massa destitui-se de sua capacidade reflexiva em favor de seu líder-mito perverso, que não obstante, não hesita em sacrificar a todos a fim de assegurar-se de seu gozo pessoal. O governo não governa para todos: governa exclusivamente para si.  

Escancaram-se e acirram-se as diferenças entre os variados grupos sociais, econômicos, ideológicos, políticos, religiosos, criando-se verdadeiros “bandos de inimigos”, onde a diversidade é combatida e a oposição, traduzida por traição e ameaça, deve ser eliminada.

Como exemplo, conto-lhes apenas duas situações recentes, mas poderia contar-lhes milhares:

1- No Brasil, o governo federal vem se colocando contrário à vacinação, e sendo assim, não comprou vacinas quando estas lhes foram oferecidas.

O governador do Estado de São Paulo, maior estado brasileiro, opondo-se francamente ao presidente e suas condutas negacionistas frente à Covid, inicia um intenso movimento de combate à pandemia, assegurando o desenvolvimento de vacinas e implementando regras sanitárias tais quais: o uso obrigatório de máscaras, isolamento social e fases de lockdown para aliviar os serviços hospitalares sobrecarregados que incidem na alta descontrolada de mortes. Pondo em prática, o cuidado preconizado pela ciência e pela OMS, passou a ser considerado pelos seguidores e apoiadores do governo federal como inimigo. Assim, justificou-se para este grupo, avalizado pelo governo federal, que o governador do estado passasse a ser ameaçado e perseguido, e hordas de bolsonaristas manifestavam-se violentamente em frente à sua casa. O governador, responsável pelo início da vacinação e produção das mesmas no Brasil, teve que se mudar de sua casa, indo morar no Palácio dos Bandeirantes, local isolado e cercado por todo tipo de segurança, a fim de garantir a sua segurança e de sua família. As diferenças ideológicas não são debatidas, e sim combatidas visando sua eliminação.

2- Um homem de 62 anos, usando máscara, no interior de uma loja de alimentos, foi brutalmente agredido e teve o fêmur quebrado após pedir para que dois homens que entraram na loja sem máscaras de proteção contra Covid-19 – item obrigatório por lei em qualquer estabelecimento – a usassem. O homem foi levado de ambulância em estado grave para o hospital. Usar máscara se transformou em símbolo de  anti-governo e de cerceamento de liberdades individuais. A invocação da lei dispara, com frequência, reações de ódio.

São histórias de terror, de uma violência praticada sem qualquer filtro civilizatório. O mal-estar é posto em ato, suscitando o seu inverso, o mal-estar do anti-civilizatório. As vivências recorrentes são as de angústia, depressão e medo, vigorando uma pandemia para muito além da Covid. Pois, se a Covid, tem uma lógica conhecida para seu enfrentamento, as inconsistências destrutivas do governo são perturbadoras e imprevisíveis.  

Vemos como decorrência disto que, ao instigar o ódio entre “os irmãos”, a população:

1- O pai perverso evita seu próprio assassinato na medida em que os irmãos se matam entre si.

2- As ações e desnorteamento dos valores proclamados pelo pai perverso resultam em filhos psicóticos suicidas ou assassinos.

Cria-se uma Nova Ordem, onde o que é Ruim é Bom e o que é Bom é Ruim:  um Pacto Perverso, valorizando o anti-civilizatório.  Incentiva-se o livre uso da expressão da pulsão, onde cada um faz o que bem entende.

Quais serão as consequências disto para a sociedade? Para os sujeitos? Instaura-se um novo civilizatório? Haverá uma transformação dos valores da civilização e da cultura? Haverá uma naturalização do pacto perverso?

Citando Nelson da Silva Jr, “a ruptura do pacto social abala o pacto civilizatório e suas bases, tanto nos sujeitos como na sociedade”.

Ainda, colocando-se como autoridade absoluta na definição de ações em todos os âmbitos da vida do país, o desmonte institucional é sentido a cada dia, afetando a todos não apenas em sua saúde física como expressivamente na saúde mental.

Tal sistema que se apresenta como novo modelo, e já identificado por autores da Escola de Frankfurt, além de Hanna Arendt e outros ao descrever o estado nazifascista, é retomada por Vladimir Safatle. Em recente artigo da Revista Calibán, aponta que: para além de uma necropolítica que já vinha sendo identificada no país, onde as mortes dos “que não importam”, se expressam através de meros números crescentes, sem identidade, está em marcha no Brasil, um franco Estado Suicidário.  

Neste verifica-se “um processe no qual a figura do Estado Protetor, dá lugar a um Estado Predador que se volta inclusive contra si mesmo”, … “e em que os indivíduos se voltam a investimentos libidinais que atuam claramente contrários a seus interesses mais imediatos de autopreservação”. (Safatle)

Estamos submetidos a um fraterno alienado com predomínio do Tanático. Oxalá nossos esforços de Vida possam resgatar a função fraterna descrita por Kehl, para que nos unamos em favor da sobrevivência de nossa humanidade.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Imagem: LETRAS, de Walter Rego (o uso da imagem foi cedido gentilmente pelo artista)

https://www.instagram.com/p/COYx8qHHPvB/?utm_medium=copy_link

 

Colega, click no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página no Facebook:  

https://www.facebook.com/252098498261587/posts/1976964335774986/?d=n

 

Os ensaios do OP são postados no site da Febrapsi. Clique no link abaixo: 

https://www.febrapsi.org/