25.05.21 Observatório Psicanalítico – OP 246/2021

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.  

 

O pensamento autoritário e as instituições psicanalíticas. Reflexão.    

Mariangela Kamnitzer Bracco (SBPSP)

 

Acompanho com muito interesse os textos e mensagens do Observatório Psicanalítico. É um alento fazer parte dessa rede solidária de psicanalistas que, entre outros assuntos, reflete sobre o terrível momento que vivemos. A circulação de ideias torna essa realidade um pouco mais compreensível, suportável – e convoca à resistência!

 

Hoje espero contribuir com uma breve reflexão. Vou tocar num tema que de alguma forma já foi abordado por outros colegas – o pensamento autoritário que pode se infiltrar nas instituições psicanalíticas. Júlio Gehller expressou sua perplexidade ao constatar que há psicanalistas adeptos do atual governo e aventou algumas respostas para entender essa escolha. Gustavo Gil Alarcão, através de contundente pergunta, propôs um viés ético para o assunto que penso ser fundamental: ¨Como grupo, a comunidade psicanalítica pode encaminhar essas questões sem cair numa caça às bruxas e sem tapar o sol com a peneira?

 

Minha contribuição, contudo, tem enfoque diferente. Pretendo mostrar como o pensamento autoritário pode ganhar terreno de forma insidiosa, através da recusa em se debater assuntos da política, mesmo que seja na interface do conhecimento psicanalítico.

 

Para ilustrar meu ponto de vista, vou recorrer a um episódio da história da Psicanálise pouco conhecido: Freud quase não ganhou o Prêmio Goethe! O psicanalista alemão Tomas Plänkers, que examinou as atas das reuniões dos curadores do prêmio, revelou em interessante artigo, que acaloradas discussões precederam a escolha do nome de Freud. A polêmica se viu refletida na pequena margem de votos com que foi eleito: 7 a 5. Plänkers fez instigante consideração a respeito dessa divergência, que penso permitir paralelos com nosso contexto institucional. Apresentarei sucintamente os bastidores da premiação.

 

Era o ano de 1930, sob um cenário de instabilidade política, desemprego em massa e inflação, o partido nacional-socialista conseguira um terço das cadeiras do congresso. A ideologia nazista havia se infiltrado em muitas instituições da Alemanha, com crescente antissemitismo. Em Frankfurt, cidade natal de Goethe, os membros do Kuratorium se reuniram para escolher a personalidade que receberia o honroso prêmio. A discussão polarizada em torno de Freud se deu sob o argumento que suas ideias não se coadunavam com o pensamento de Goethe – o que na verdade era um pretexto que encobria uma idealização do poeta e uma mistura de desconhecimento e desprezo pela Psicanálise. Mas Plänkers avançou em sua análise e apontou como digno de nota o fato dos membros do Kuratorium terem ignorado os textos ¨Futuro de uma ilusão¨ (1927) e ¨Mal-estar na Cultura¨ (1929), nos quais Freud discorrera sobre a pulsão de morte e sobre a hostilidade à cultura. E Plänkers conclui: “Fica-se com a impressão de que os membros do Kuratorium frente a essa situação sociopolítica se agarraram mais intensamente à imagem idealizada de Goethe e identificaram o abismo para o qual a sociedade caminhava com a pessoa de Freud.“ (1993, p.176)

 

Em 1933, quando Hitler assumiu o poder, Goebbels, seu poderoso ministro da propaganda, passou a interferir na curadoria, e, a partir de então, somente simpatizantes do regime nazista foram agraciados com o prêmio. No mesmo ano os textos de Freud foram queimados em praça pública.

 

O Brasil dos últimos anos não é o mesmo que a Alemanha da década de 30, mas as semelhanças impressionam e assustam. É possível pensar que a “regressão humana” que estamos vivenciando, como bem nomeou Ruggero Levy, possa suscitar nos psicanalistas de nossas instituições reações semelhantes à dos membros do Kuratorium por ocasião da apreciação de Freud?

Creio que sim. Agarrar-se aos temas clássicos, consagrados e rechaçar    reflexões sócio-políticas como assuntos ideológicos não pertinentes a uma sociedade científica é uma forma de negar o regime autoritário e truculento a que estamos submetidos com o bolsonarismo.

 

Nosso colega Eduardo Martins Santiago, em oportuna mensagem, propôs que as discussões mais aprofundadas, que muitas vezes circulam pelo OP, sejam levadas para “dentro de cada federada, para dentro dos institutos, mas com a contundência que lhes cabe, marcando que tais discussões são fundamentais para nossas contínuas formações como cidadãos, como psicanalistas e como membros de nossos grupos.” E pergunta para todos nós: “Como entrar na pauta?” ”

 

Encerro o texto com as belas palavras de Eduardo, as quais subscrevo: “Atos analíticos talvez sejam ainda nosso maior trunfo e neles moram nossa maior potência, transformadora, ampliadora e amplificadora do campo simbólico da Cultura.”

 

Foto: “queima de livros” que ocorreu na Alemanha nazista, de maio a junho 1933.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

 

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