Observatório Psicanalítico – OP 243/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Vidas negras importam X: a branquitude em cena no curta metragem “Dois Estranhos” 

Rafaela Degani (SBPdePA)

 

O belíssimo curta metragem Dois Estranhos, dirigido por Travor Free e Martin Desmond, foi o vencedor em sua categoria na última premiação do Oscar. 

 

Em uma clara homenagem a George Floyd, os diretores chamam atenção para o drama de ser negro em um país racista. Não importa o que o protagonista, Carter James (vivido pelo rapper Joey Bada$$) faça, o final é sempre o mesmo: ele acaba sendo assassinado por um policial branco. Em um looping temporal, a trama nos faz refletir sobre a crueldade do racismo estrutural que condena os negros a um final repetidamente infeliz. Compulsão à  repetição mortífera protagonizada pelos brancos contra os negros,  cotidianamente, nas cidades americanas e brasileiras.  

 

Gostaria de colocar em cena o tema da branquitude que está implícito no filme. No diálogo final (me perdoem o spoiler), Carter – que é jovem, negro e designer – conta para namorada sobre sua experiência surreal de já ter morrido mais de cem vezes pelas mãos do mesmo policial.  Reproduzirei a conversa abaixo para fins de melhor compreensão: 

 

Namorada: Caramba, Cem vezes?

Carter: Até agora.

Namorada: Tentou falar com ele?

Carter: Eu entendo agora que não importa o que eu diga ou faça ou como tente fazer, o cara só quer me matar. 

Namorada: e agora? Vai deixar que ele fique te matando para sempre?

Carter: claro que não… sou mais inteligente que ele, mais rápido que ele, devo ter mais dinheiro que ele e definitivamente sou mais bonito que ele. Vou pensar numa saída. 

 

Podemos parar o diálogo por aqui. Voltando um pouco nas cenas do filme, quando Carter, em uma de suas infinitas tentativas de sobreviver, conversa com Merk (o policial branco) e pergunta a ele por que entrou para polícia. A primeira resposta do policial esconde a verdadeira motivação, que logo ele confessa: estava cansado de sofrer bullying dos valentões. Carter em seguida responde “então resolveu virar um deles?” O policial imediatamente ataca: “não, agora eu prendo eles”.  

 

Aqui poderíamos apressadamente recorrer à teoria freudiana e afirmar que, o que Merk sofreu passivamente, agora vive ativamente. O policial estaria também preso no jogo do Fort-Da tentando compulsivamente controlar um trauma. Certamente isso está presente, mas gostaria de chamar atenção para algo mais. 

 

Sendo o racismo estrutural e implacável, para um homem branco é certamente mais fácil pular da posição de vítima para a do agressor, o curta mostra isso o tempo todo. Não importa o que Carter faça, ele não escapa do lugar de vítima. Entretanto há uma prisão, não tão óbvia, da qual o policial não se liberta. Nós, os brancos, sujeitos agentes do racismo, estamos presos ao nosso narcisismo megalomaníaco supremacista. 

 

Grada Kilomba afirma que na dinâmica racista o negro se constitui como Outridade do branco. A autora explica que todo conteúdo recalcado, ou seja, a sexualidade e a agressividade que o sujeito branco não deseja ver em si, projeta sobre o negro. Existe nesse jogo uma dupla prisão: ao negro não é permitido existir para além das projeções do branco, enquanto o branco fica alienado de si mesmo acreditando-se melhor do que de fato é.  

 

Todo processo de análise visa a desalienação do sujeito. Em uma no sociedade racista, nós brancos corremos o risco de ficar vergonhosamente presos a uma imagem falsa de nós mesmos. Como disse o protagonista do filme, o policial era mais burro, mais devagar, mais pobre e certamente mais feio do que ele, entretanto, por ser branco, encontrava motivos suficientes para sentir-se autorizado a matar um jovem negro. O agressivo, violento, bandido com sede de vingança, não era ele (o policial), e sim Carter. 

 

O título do curta metragem me fez pensar que a escolha das palavras “dois” e “estranhos” não foi por acaso, pelo menos não do ponto de vista do inconsciente. Dois estranhos. O estranho familiar, duplo alienante que se faz presente na dinâmica perversa do racismo. 

 

Outro dia me flagrei pensando sobre o motivo das pessoas brancas se engajarem na luta antirracista. Primeiramente me vieram respostas óbvias, que não deixam de ser verdadeiras, como o fato de estar de acordo com ideais de justiça e igualdade, valores louváveis, sem dúvida. Mas pensando com mais calma, um bom motivo para lutar contra o racismo é poder perceber o quão vergonhoso e patético é o narcisismo da branquitude. O racismo causa um sofrimento infinitamente maior ao sujeito negro, perdas materiais e psíquicas, um abismo social e de oportunidades, isso é inquestionável. Porém, o que fica evidente é que nesse cenário o branco também perde, perde a chance de se olhar com mais honestidade, de se encontrar com sua sexualidade e agressividade, de desafiar e ser desafiado em um patamar de igualdade com o outro, despindo-se da ideia infantil de superioridade. 

 

Como escreveu Fanon: ao lado da filogenia e da ontogenia, há a sociogenia (Pele negra máscaras brancas, p.28). Estudar o racismo, a branquitude e seus efeitos, é tarefa fundamental para o psicanalista.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

 

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