Observatório Psicanalítico – OP 242/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Esboço de uma metapsicologia para a vacina

Pedro Colli Badino de Souza Leite (SBPSP)

Como se tornou um triste hábito dizer, vivemos hoje no Brasil ao menos duas crises. A primeira, sanitária, provocada pela pandemia do Sars-Cov-2. A segunda, política, onde o atual governo trabalha ativa ou passivamente contra os instrumentos de combate à Covid-19 e em favor da desinformação dos brasileiros. Em diferentes camadas de nosso povo, muitas vezes ainda encontramos hesitação sobre o papel fundamental da máscara, álcool gel e distanciamento social, sobre a falta de evidência científica de tratamentos precoces e a respeito do valor da vacinação. Sem surpresa, o surto de desinformação atinge de forma mais contundente as pessoas mais pobres e à margem de nossa sociedade. Em pesquisa recente, parceria do DataFavela com o Instituto Locomotiva, números impressionantes revelam a força da irresponsabilidade pública associada às fake news. Entre homens e mulheres moradores de favelas nas cinco regiões do país, 53% teme que a vacina não faça efeito, 31% tem medo de se infectar  com o imunizante e 22% acha que a vacina pode alterar o DNA ou instalar um microchip no organismo.            

Se isso já não fosse grave o suficiente, o ato de vacinação ainda enfrenta outros obstáculos em nível metapsicológico, que ampliam e agravam os efeitos de tais crises. Digo isto na medida em que a vacina, não apenas do ponto de vista imunológico, mas também daquele dos processos inconscientes profundos, muitas vezes representa uma alteridade ao Eu. Há dois principais fatos que parecem contribuir para isto. O primeiro é a própria natureza da vacina que, de uma forma ou de outra, é sempre derivada do próprio vírus, um não-Eu por excelência. O segundo é  a possibilidade de que a perfuração seja percebida não só objetivamente na pele, mas também subjetivamente no esquema corporal egóico – quando um elemento alienígena será injetado para dentro de mim. Neste ponto não se trata apenas do desprazer provocado pelo agulhamento, mas da ideia de que a inoculação pode representar, em fantasia, um ataque à integridade do Eu. No plano consciente, o Eu corrompido em suas fronteiras é representado como aquele cujo DNA foi alterado, ou onde um microchip foi instalado. Assim, se a vacinologia está apoiada na ciência e no princípio de realidade, no plano da fantasia inconsciente muitas vezes descobrimos a ideia de um cavalo de Tróia viral. Quando nos vemos nestes lugares de maior regressão, a vacina deixa de ser uma alteridade que pode aguçar e especializar meu sistema imune. Ela agora ressurge como alteridade-persecutória que será inserida para me destruir por dentro. Se na imunologia a alteridade me transforma e me amplia, no campo do narcisimo primário ela me invade, me desfaz.           

Como se pode saber através da clínica psicanalítica e de sua teorização, a categoria de alteridade-não-persecutória só pode ser alcançada depois de uma monumental travessia do narcisismo, e sua conquista é sempre provisória. Freud e Klein se debruçaram sobre o tema a partir de pontos de vista diferentes e complementares. O primeiro, ao final do texto As pulsões e seus destinos (1915), nos mostra como o Eu, fechado sobre si mesmo em seu desamparo físico e em suas necessidades pulsionais, é avesso ao mundo externo. A primeira reação de indiferença autoerótica vai dando lugar ao ódio, na medida em que a alteridade se lhe apresenta como experiência de desprazer. Diz Freud:

“O exterior, o objeto, o odiado seriam sempre idênticos no início. Se depois o objeto se revela fonte de prazer, ele será amado, mas também incorporado ao Eu, de modo que para o Eu-prazer purificado o objeto coincide novamente com o alheio odiado. (p.76)”.

Aqui deparamos com nosso Eu primitivo. O mais civilizado dos homens convive com um hater dentro de si, que está sempre prestes a ser despertado, impelido a promover algum discurso de ódio para proteger sua vulnerabilidade. “Tudo o que é bom/verdadeiro/justo tem origem em mim, sou Eu”. Se por um lado esse maçico investimento libidinal narcísico (externo e interno) é fundamental para a “nova ação psíquica”, para a estruturação egóica, por outro, trata-se do berço da paranóia, uma vez que nesse lugar não se admite a distinção entre o Eu e a experiência de prazer, e todos são potenciais inimigos. 

Nessa direção estamos perto de Klein em seu Notas sobre alguns mecanismos esquizóides (1946), onde o princípio do prazer/desprazer vai produzir certezas a respeito da qualidade do objeto. Se há prazer, estou diante do objeto bom. Se sinto desprazer, há um objeto mau, é claro. Eis a posição esquizoparanóide, onde a presença alucinatória do objeto mau também serve ao propósito de hospedar as projeções da minha própria destrutividade. O não-Eu, se objetivamente já não for lá grande coisa, se torna amplamente piorado em seu sadismo e maldade por abrigar os representantes da minha própria agressividade inconsciente. A identificação projetiva é eficaz na medida em que agora vivencio esses elementos por fora, e não mais por dentro. Assim, em meio a tais necessidades de cisão e certeza absoluta, o princípio de realidade luta para se desenvolver. Será tão somente a possibilidade de experimentar algo como desconhecido ou incerto que permitirá surgir a curiosidade e o gesto científico.

Além disso, não é apenas no âmbito da vida inconsciente intrapsíquica e intersubjetiva que encontramos o privilégio do Eu e o enfraquecimento do outro. Alguns pensadores dos fenômenos contemporâneos vem apontando que uma das marcas da pós-modernidade é justamente a erosão da alteridade. Por exemplo, temos o filósofo Byung-Chul Han que em seu Sociedade do Cansaço (2010) diz: 

“Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas. Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia. Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, que não provoca nenhuma reação imunológica. A diferença pós-imunológica, sim, a diferença pós-moderna já não faz adoecer. Em nível imunológico ela é o mesmo. Falta à diferença, de certo modo, o aguilhão de estranheza, que provocaria uma violenta reação imune”.

Em Freud e Klein, o Eu primitivo é agulhado pela alteridade, o que provoca as reações imunológicas radicais de indiferença, ódio e projeção sobre o objeto mau. Talvez alguns episódios extremados da recente cultura do cancelamento possam ser exemplos atuais de tal descrição. No entanto, hoje não é apenas isto o que se passa. A alteridade parece degenerar em mera diferença – a qual não agulha, não arranha, não transforma. Penso que o fenômeno descrito pode ser observado em nossa relação com as mídias sociais, por exemplo, em aplicativos que nos oferecem sugestões de novos perfis. De fato, ali é difícil sentirmos essa agulhada do outro. Mais ainda, se olharmos com cuidado, muitas vezes poderemos nos encontrar ao fundo de alguns perfis, pois estamos constantemente sendo lançados na direção de quem já somos. Ao adicionar um novo perfil, é comum descobrirmos informações que já sabemos, ideias que já pensamos e sentimentos que já sentimos. Mais uma vez se sente a falta da alteridade, cujo toque produz incômodo, atrito, agulhamento e mudança. 

Como citado no início, a agulha da vacina que injeta partes do Sars-Cov-2 e que faz com que nosso sistema imune seja transformado é um modelo para o contato com a alteridade. Existe agulha e contato com o não-Eu. Somos transformados, e, muitas vezes, há alguma reação imunológica febril que indica o trabalho e o sofrimento implicados nesta transformação. Pelo contrário, os rostos dos perfis sugeridos pelo Instagram não provocam nenhum agulhamento, nenhuma reação imune, pois neles encontramos apenas a diferença ou o Eu-mesmo, disfarçados de alteridade. As faces do Facebook (livro de faces) muitas vezes não são faces de alteridade, não contém atrito, são lisas como as telas dos celulares. Elas nos oferecem uma solução de continuidade com o Eu, sem picada, sem reação imune ao não-Eu, sem reação febril. O Facebook deveria se chamar Mirrorbook, metonímia do labirinto de espelhos por onde vagamos. O sujeito narcísico pós-moderno não consegue estabelecer limites claros entre o si-mesmo e o outro, ou entre o si-mesmo e o mundo. Ele perambula de projeção em projeção, nunca encontrando nada a não ser o Eu-mesmo por todos os lados, e se perde dentro de si. Neste ponto é útil lembrar que vivemos numa época onde se morre tirando selfie, uma atualização do mito no qual Narciso se afoga no lago, apaixonado por si mesmo. Se antes o espelho era de água, agora ele é feito de cristal líquido, nas telas dos smartphones.

Como se vê, a vacina, enquanto modelo de alteridade ao Eu, encontra diversos tipos de resistência. A camada mais primitiva de nossa vida mental inconsciente conspira a todo momento contra o não-Eu. A sociedade onde vivemos faz desaparecer a alteridade e a estranheza. As crises sanitária e política contribuem de forma passiva ou ativa para aprofundar tais processos. Uma vacina não é o desaparecimento do outro, mas sim uma transformação subjetiva a partir do contato com partes de um outro. Quando a alteridade se encontra enfraquecida, o Eu se espalha como uma mancha de óleo no oceano, e com frequência temos apenas reações imunológicas radicalizadas ao outro. Será apenas na medida em que pudermos nos sensibilizar para estas questões – tomando conhecimento de nossos desejos e tendências a eliminar o não-Eu – que talvez possamos nos abrir para a alteridade, seja nas relações humanas, seja no ato de vacinação. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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