27.11.20 Observatório Psicanalítico – OP 209/2020

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

 

Pílulas mágicas, cérebros fechados

Leonardo Siqueira Araújo (SBPMG)

 

As questões sobre o sofrimento psíquico atormentam-nos, literalmente, há tempos e tempos. Oferecemos diferentes respostas ao longo da história, e gostaríamos de propor aqui uma pequena análise sobre algo que nos acomete mais recentemente, nas relações em muitos momentos tão conflituosas, entre a medicina e a psicanálise.

 

Nos anos 50, surgiram os primeiros medicamentos psicotrópicos, a partir de fármacos que tinham outros objetivos, mas tinham como efeitos colaterais alguma ação psíquica. Logo seriam a ponta de lança de uma verdadeira revolução no tratamento de doenças mentais. Com o lançamento do Prozac, em 1987, dizia-se que então agora poderíamos fazer com que as pessoas ficassem “melhor do que bem”. Isso tem ligação com o que alguns autores chamam de a “medicalização” da psiquiatria, ou, em um termo particularmente interessante, de “desmentalização”. Antes dos anos 50, as teorias predominantes na psiquiatria tinham a ver com “teorias da mente”, como inclusive a psicanálise, mas após esse período houve uma predominância de “teorias sobre o cérebro”.

 

As teorias subjacentes a essa mudança postulariam que as doenças mentais seriam resultados de “desequilíbrios químicos” no cérebro, principalmente nos neurotransmissores, e que as novas drogas, capazes de restaurar esse equilíbrio, seriam o tratamento necessário, muito mais do que as “curas pela conversa” de antes. O Prozac, por exemplo, seria uma cura para a depressão, caracterizada como uma deficiência de serotonina. Argumenta-se também que os novos tratamentos reduziriam o que era, à época, um grande estigma da doença mental.

 

Várias décadas depois, chegamos a um quadro preocupante e intrigante: poderíamos imaginar que os novos tratamentos levariam a uma diminuição dos quadros de doença mental, mas o resultado parece quase o contrário. Citamos um artigo da Piauí, “A epidemia de doença mental”  (2011): “[Nos EUA] A quantidade de pessoas incapacitadas por transtornos mentais, e com direito a receber a renda de seguridade suplementar ou o seguro por incapacidade, aumentou quase duas vezes e meia entre 1987 e 2007 – de 1 em cada 184 americanos passou para 1 em 76. No que se refere às crianças, o número é ainda mais espantoso: um aumento de 35 vezes nas mesmas duas décadas. A doença mental é hoje a principal causa de incapacitação de crianças, bem à frente de deficiências físicas como a paralisia cerebral ou a síndrome de Down.”

 

O que considero como intrigante relaciona-se a várias questões, algumas das quais não poderei explorar, mas que gostaria ainda assim de colocar. O que entendemos de fato sobre o cérebro? Ou sobre a mente: O que consideramos como doença mental? E como podemos tratar as condições, certamente causa de sofrimento? Para os propósitos desse ensaio, entendo que estamos opondo duas visões diferentes: o paradigma biologicista, que já citamos, e a psicanálise.

 

Lembramos que Freud, na Interpretação dos Sonhos, era também um otimista em relação às futuras descobertas sobre o cérebro, escrevendo então: “As suspeitas dos psiquiatras colocaram a mente, por assim dizer, sob tutela, e eles agora insistem que a nenhum de seus impulsos deve-se permitir sugerir que tenha um significado próprio. Este seu comportamento apenas mostra quão pouca confiança eles realmente têm na validade da conexão causal entre o somático e o mental. Mesmo quando a investigação mostra que a causa excitante primária de um fenômeno é psíquica, uma pesquisa mais profunda irá um dia mais adiante nesse caminho e descobrirá a base orgânica do acontecimento mental” (Freud, “A Interpretação dos Sonhos”, 1900). 

 

Podemos dizer que estamos mais perto? Talvez sim, mas também estejamos ainda quase impossivelmente longe. Cientistas ainda não conseguem explicar, por exemplo, a origem da consciência, e equiparam esse mistério ao interior de um buraco negro.

 

Porém, se por um lado as questões científicas em torno das doenças mentais continuam no mínimo nebulosas, outras razões se somaram ao debate de forma decisiva, em favor dos tratamentos medicamentosos: as razões econômicas. Juntamente com o boom dos anos 80, houve um enorme aumento da publicidade associada às novas drogas e os psiquiatras passaram a ser os objetos de desejo da indústria farmacêutica. Além disso, esses tratamentos, de estrutura e duração teoricamente muito mais definidos, forneceram bases para políticas governamentais ou para a definição de planos de saúde.

 

Nesses nossos tempos de fascismo, de racismo, de machismo e de intensas, inimagináveis desigualdades, talvez o dinheiro seja a grande libido cuja presença, no inconsciente da sociedade, insistimos em esquecer de interpretar (neuroticamente?). Talvez esqueçamos por estarmos todos, de forma algo cúmplice, direta ou indiretamente partidários dessa ideia tão ocidental, tão natural, que concerne ao individualismo.

 

Proponho que talvez estejamos basicamente reprimindo nosso assombro diante do quão pouco conhecemos. As teorias sobre o cérebro, e suas consequências práticas para a sociedade, foram até agora incapazes de dar conta completamente da questão básica do sofrimento, ou da doença, e de suas causas e curas. A esse respeito, vale considerar o lugar da psicanálise. Por um lado, entendo que seja absolutamente necessário lembrarmos de que a teoria psicanalítica também não dá conta dessas explicações. Não podemos dizer onde está o conteúdo reprimido, o id ou o ego. Também, com todas nossas teorias sobre a mente do bebê e sua relação com a mãe, não podemos comprovar (tanto no sentido concreto como no clínico) o estreito vínculo entre um determinado acontecimento (como a mãe deprimida) e sua consequência, ou mesmo sobre o conteúdo da mente do infante. Entendo que nossa ciência tem valor metafórico, também relacionado, como Freud declarou em 1900, com a insuficiência de nosso conhecimento concreto.

 

Ao que tudo indica, entretanto, tal insuficiência pode provar-se eterna, ou, pelo menos, não temos no momento nenhum horizonte de seu entendimento. Se por um lado a metáfora é nosso necessário luto, entendo que também é a oportunidade do exercício de uma compreensão de nossas limitações que pode, quem sabe, nos levar a alguma ideia de cura.

 

Os tratamentos medicamentosos prometem uma resposta simples à questão do sofrimento mental, uma pílula que poderia ser como uma peça faltante do quebra-cabeça – onde antes, poderíamos imaginar uma gama complexa de fatores psíquicos, impulsos e afetos em conflito, agora temos um simples “encaixe”, uma volta à normalidade. É curioso notar que quando estudos com medicamentos introduzem o que chamam de um placebo “ativo”, ou seja, um placebo com efeitos colaterais, a diferença entre os efeitos benéficos dos medicamentos psicotrópicos e do placebo torna-se basicamente nula. Poderíamos dizer que a pessoa melhora por sentir que está sendo tratada, antes de mais nada. Não tenho em baixa estima o auxílio da psiquiatria no tratamento, por muitas vezes demonstrando-se absolutamente necessário. Mas enfatizo que pode muito bem acontecer de esse paradigma mudar, e precisarmos estar abertos, como os médicos de antigamente precisaram estar em relação a tantos outros tratamentos, sobre o engano de nossas visões de hoje. A ciência, Freud nos lembra, se representa pela constante capacidade de criticar a si mesma e estar disposta a admitir seus erros.

 

O que entendo como uma saída analítica é a que considera as questões relacionadas ao vínculo como um dos mais potentes motores de melhora, o sentimento de ser ouvido e considerado, e a construção junto ao analista de ideias sobre si mesmo e sobre o mundo – teorias, por que não? – tudo isso que poderia ser designado sobre esse mecanismo que muitos chamariam de placebo. 

 

Placebo, cuja etimologia refere a algo que promete, enganosamente, uma melhora. Em oposição à droga que promete, verdadeiramente, uma melhora. Ora, se a promessa “verdadeira” também é enganosa, não seria esse pantanoso terreno do sentido o lugar onde o psicanalista encampa sua luta? Sentido esse que nos remete novamente à metáfora.

 

Cumpre retornar a uma das ideias que impulsionou a revolução medicamentosa, a de que ela diminuiu o estigma da doença mental. Aqui também temos uma importante questão a considerar. Tanto nas formas mais profundas quanto nas menos sérias dos distúrbios, perturbações e sofrimentos psíquicos, talvez uma pergunta importante seja não só o que consideramos doença mas também que lugar designamos a isso a que chamamos doença. Aqui talvez seja melhor falarmos de singularidade, e não de individualidade, compreendendo que uma pessoa é singular mas ao mesmo tempo atravessada por uma cultura, e participante ativa de uma cultura. 

 

Seria necessário também entender, como dito acima, a análise das questões da sociedade, ela também tão exposta à doença quanto a pessoa. Entendo que uma saída analítica também tenha relação com a compreensão da posição de alguém em meio a tudo isso, absolutamente indissociável de suas condições sociais, culturais e econômicas, as quais nos acostumamos a analisar quando se trata de uma falta, mas nem tanto quanto se trata de um discurso dominante (o que é masculinidade? O que é branquitude? O que é riqueza?).

 

Penso que a grande vantagem que um psicanalista pode oferecer é justamente a compreensão da limitação de sua visão, e da visão de seu paciente, e da visão de qualquer pessoa. É a partir dessa posição, “de baixo para cima” que um sentido pode ser construído ou desconstruído, considerando a complexidade de todo o tema. Naturalmente, desejando a melhora mas, antes de mais nada, vinculado com a verdade. Verdade eternamente encoberta e desconhecida, mas que não nos impede de tentar caminhar em direção a ela.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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