Vidas Negras Importam VI: Violência e Racismo em Porto Alegre

Observatório Psicanalítico – 208/2020

Observatório Psicanalítico – OP 208/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

 

Vidas Negras Importam VI: Violência e Racismo em Porto Alegre

Ane Marlise Port Rodrigues (SBPdePA)

 

20 de novembro de 2020  e Porto Alegre amanhece inundada por tristeza, dor, revolta e repúdio. A data a ser festejada, o Dia da Consciência Negra, é manchada de sangue e indignação.

 

João Alberto Silveira Freitas, homem negro, é espancado até a morte por seguranças de um supermercado na noite anterior.

 

Ver a cena – a qual muitos dizem não conseguir olhar e que nos custa não desviar o olhar – atualiza antigas e repetitivas cenas traumáticas de violência que subjuga o corpo, retira a liberdade e os direitos civis básicos. Sob a alegação de que João Alberto tinha ameaçado e dado um soco numa atendente, ele poderia ser espancado até a morte. Sem direito de defesa. Posso imaginar essa cena ainda na África, no rapto e sequestro dos escravizados, dentro dos navios negreiros e em terras brasileiras desde séculos atrás e até hoje: a cada 23 minutos uma pessoa negra é morta no Brasil.

 

Marielle Franco, assassinada em 2018 no Rio de Janeiro, vereadora em ascensão política, carregava a tripla marca: ser negra, mulher e lésbica. A exposição necessária das relações entre governo, polícia, milícias e redes criminosas tranca a resolução do crime e envolve mais uma das expressões de nosso racismo estrutural. A quem interessa a elucidação do crime e a responsabilização de seus culpados? Certamente aos que ela representava em sua luta política e ideais, mas não aos que achavam que uma mulher negra nem deveria almejar esse lugar. Frustração aos que queriam seu desaparecimento, Marielle símbolo, Marielle presente, segue viva e inspirou um aumento do número de vereadoras negras nas eleições de 15 de novembro de 2020 no Brasil.

 

O mesmo ódio racista que matou João Alberto e Marielle também matou milhões de homens e mulheres negros em território nacional desde a escravização na África, e segue em políticas de extermínio através da desigualdade social e econômica vigentes.

 

Se a cada 23 minutos fôssemos colocados a ver a cena de assassinato de uma pessoa negra em nosso país, não suportaríamos o horror. Provavelmente, desviaríamos o olhar. Porém, quando vemos o crime já não podemos dizer que não o vimos. Nos tornamos testemunhas. Milhões de testemunhas. O que fazer como testemunha do crime? 

 

Nas recentes cenas de assassinato, encontramos a figura da testemunha que incita o crime ou que lhe é indiferente, como em uma naturalização e banalização do crime. O que esperar dela?

 

No entanto, milhares de testemunhas se deixam tocar pela barbárie e pelo horror e sua indignação é verdadeira, levando ao movimento de honrar seus mortos. Aqui encontramos sementes de mudanças e da maior consolidação de práticas antirracistas. Sementes de um pacto civilizatório entre os diferentes e semelhantes.

 

Termino com “A Carne” (2002), composta por Seu Jorge e cantada por Elza Soares:

 

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

 

Que vai de graça pro presídio

E para debaixo do plástico

Que vai de graça pro subemprego

E pros hospitais psiquiátricos

 

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

 

Que fez e faz história

Segurando esse país no braço

O cabra aqui não se sente revoltado

Porque o revólver já está engatilhado

E o vingador é lento

Mas muito bem intencionado

E esse país

Vai deixando todo mundo preto

E o cabelo esticado

Mas mesmo assim

Ainda guardo o direito

De algum antepassado da cor

Brigar sutilmente por respeito

Brigar bravamente por respeito

Brigar por justiça e por respeito

De algum antepassado da cor

Brigar, brigar, brigar

 

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

A carne mais barata do mercado é a carne negra

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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