
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo
Sódepois 74
Junho/2026
Na madrugada de 20 de junho de 2026, um alerta apitou nos aparelhos celulares de milhões de pessoas no Brasil. Nas noturnas telas brilhantes, surgiram palavras ou expressões inusitadas, tais como “ataque alienígena” e “Misantropi4”, palavra codificada pela inserção do número 4 em substituição à letra a. Esta é uma estratégia típica de fóruns que pregam o ódio e o extremismo na internet. O propósito é burlar filtros de segurança na rede, perturbar a confiabilidade, causar confusão, tal como ocorreu no ataque hacker ao Sistema da Defesa Civil Nacional em 20 de junho.
Misantropia é uma palavra pesada. Porta o significado de desprezo e aversão pela humanidade. A ocorrência tornou-se ainda mais angustiante pelo fato de que o sistema de alarme da Defesa Civil tem como um de seus objetivos proteger vidas diante da iminência de algum desastre ambiental em curso, como incêndios, enchentes ou riscos de deslizamentos. A celeridade da chegada da informação da Defesa Civil, bem como sua credibilidade, são condições fundamentais para ajudar a salvar vidas, quando o perigo é real.
Infelizmente, a ciência ainda não consegue antever quando acontecerá um terremoto de alta magnitude. Na noite de 24 de junho, dois grandes terremotos atingiram a Venezuela. Até o momento em que fechamos este editorial, foram contabilizados cerca de 2.295 mortos, e milhares de pessoas feridas, desabrigadas e desaparecidas, segundo os principais veículos de notícias. Em La Guaira, a área mais atingida pela catástrofe, civis empreenderam desesperadas buscas por sobreviventes, retirando entulhos, abrindo espaço entre os escombros com as próprias mãos. São imagens duras. Ruínas. Prédios desabados, corpos sem vida, histórias interrompidas, sonhos desfeitos. O trauma de uma tragédia coletiva deita raízes profundas. Será necessário tempo, recursos, muito acolhimento para recepcionar o sofrimento dos que ficaram, dos que estão sem morada, dos que perderam amores.
Muitos acusaram a lentidão das ações governamentais. E nós, o que iremos fazer diante da dor dos outros? Em nosso meio psicanalítico, foi emitido um comunicado da Federação Psicanalítica da América Latina – FEPAL, em solidariedade, direcionado à Sociedade Psicanalítica de Caracas, à Associação Venezuelana de Psicanálise e ao povo venezuelano. Ações estão sendo propostas pelo comitê da IPA voltado para apoio em situações de crise, como a organização de uma rede de escuta para pessoas atingidas por este acontecimento traumático.
Junho também foi marcado pelas notícias das intensas ondas de calor na Europa, a ponto de derreter asfalto na Alemanha. Alterações climáticas atuais são acompanhadas dos anúncios do impacto, ao longo dos próximos meses, do super El Niño. O que estamos fazendo para mitigar seus efeitos? O que estamos dispostos a aprender sobre o nosso futuro comum? Qual o futuro da nossa ilusão de controle?
Em nosso grupo de e-mails do OP, no dia 09 de junho, surgiu uma tocante resposta endereçada ao ensaio “Por enquanto, ainda dói”, escrito por Maria Helena Ferreira dos Santos (publicado em novembro de 2025, OP 632/2025). Na resposta, Larissa Albertino revisitou o texto de Maria Helena e teceu um paralelo utilizando as mudanças climáticas como um elo metafórico para falar da dor do racismo. Um dia de céu cinzento, um mundo íntimo ensolarado, a manutenção de seus próprios “sonhos-pássaros”. E a consciência, explicitada nas palavras de Larissa, de que está “em condições de alimentar os sonhos-pássaros porque as pessoas que olharam os céus antes de mim foram ferrenhas em esperançar um tempo em que eu pudesse fazer isso sem ter que escolher qual deles poderia arriscar o voo sem ter as asinhas cortadas”.
No final do mês, também no grupo de e-mails do OP, a atual presidente da SBPSP, Magda Khouri, anunciou que no dia 23 de junho de 2026 o projeto de ações afirmativas, debatido há mais de 5 anos, finalmente foi aprovado em assembleia. “Foi um trabalho coletivo a partir do longo e sério trabalho realizado pela Comissão Virgínia Bicudo, coordenada por Dora Tognolli acompanhada por Tiago Porto, junto à diretoria e com a participação de diversas instâncias da sociedade”, destaca Magda. O grupo da curadoria do OP parabeniza a aprovação do projeto, com votos de que este seja uma ponte que favoreça a implementação de ações afirmativas em mais sociedades psicanalíticas.
De que cor este país imagina ser? É a pergunta que Santiago Carballo (APdeBA), faz no ensaio intitulado “Da Cor da nossa Terra” (OP 693/2026). A partir dos impactos da apresentação do jovem músico Milo J no projeto global Tiny Desk, o autor problematiza a fantasia da branquitude na Argentina. Ao resgatar episódios de embranquecimento histórico, como as alterações iconográficas nos retratos de San Martín, e ao saudar movimentos contemporâneos como o Identidad Marrón, o ensaio destaca como a arte urbana atual consegue subverter significantes racistas. O texto tensiona as formas como o racismo estrutural opera no silenciamento simbólico e de que maneira o ato de nomear e cantar a “cor da nossa terra” atua como uma intervenção contra os traumas não elaborados da cultura.
Em “Persépolis e as histórias”, Ana Valeska Maia Magalhães, da SPFOR (OP 694/2026), parte de uma cena cotidiana — o burburinho afetuoso de seus vizinhos celebrando a primeira palavra de uma bebê, para refletir sobre como somos constituídos e acolhidos pelas palavras e pela historicidade. Esse gancho introduz uma homenagem a Marjane Satrapi, autora da célebre graphic novel Persépolis, cuja morte recente evoca memórias sobre a opressão da Revolução Islâmica no Irã, sobretudo para as mulheres. Ao cruzar a infância de Marjane com suas próprias lembranças afetivas, a autora ressalta que contamos histórias para descobrir quem somos.
Em junho foi ao ar o 50º episódio do podcast Mirante, intitulado “A machosfera e a negação do feminino”. O debate contou com as participações do psicanalista Ignácio Paim (SBPdePA) e da filósofa Yara Frateschi. A fértil troca dos dois, mediada por Beth Mori, ampliou a compreensão sobre a ascensão da machosfera e do repúdio ao feminino na contemporaneidade. Com raízes na história da humanidade, explicitada no pensamento filosófico e sociológico, e problematizada no pensamento psicanalítico atual, a misoginia foi observada por vários vértices. A conversa lançada em junho está instigante e disponível nas plataformas de podcast.
Mas junho também foi um mês multicor. A diversidade cromática representou os países nos jogos da Copa do Mundo, esteve nas paradas comemorativas em várias cidades pelo Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ e reverberou na resistência afetiva das tradicionais festividades juninas de bandeirinhas multicoloridas. Junho resiste e convoca a utilização de novas tintas, palavras, gestos e afetos para compor tecituras que nos vinculem perante tempos difíceis.
No ensaio “Ainda Lezama”, José Antônio S. de Castro, da SBPSP (OP 695/2026), utiliza a imagem do banco de praça para propor uma expansão do espaço analítico tradicional. Inspirado por um ensaio anterior de Eliane de Andrade (SPRJ, OP 682/2026), o texto de José Antônio tece uma crítica à hostilidade urbanística contemporânea que asfixia os espaços de permanência coletiva. Há no ensaio uma advertência política e institucional: ao denunciar que a sociedade que mais demanda divãs é a mesma que extingue seus bancos, o autor lembra que cabe aos analistas o dever ético de reconhecer a pluralidade dos dispositivos de fala e nomear as perdas urbanas e humanas antes que elas se consolidem.
Já em “Contraedições”, Hemerson Ari Mendes, da SPPEL (OP 696/2026), resgata a riqueza dos adágios populares de seu “caipirês paranaense” para propor o que chama de “contraedições”: formulações sintéticas, amorais, polissêmicas, paradoxais que, à semelhança das manifestações do inconsciente, emergem como soluções e provocações diante das confusões do cotidiano. Através de uma sequência de aforismos lúdicos e cortantes, o autor torce os sentidos das palavras para desmascarar falsas certezas, o peso das autoridades sem argumento, a infantilização e os impasses da finitude e da loucura. O texto é um tributo a essa “língua-mãe” que, mesmo sem o saber teórico, já traduzia com humor e desconforto as inquietantes contradições humanas.
Afinal, na forja das contradições cada um de nós se constrói. “Cadum é Cadum” é o que Avelino Neto, da SBPsb, nos conta no ensaio 697/2026 do OP. Cadum é Cadum, aforismo goiano, aponta para a singularidade do ser humano, essa espécie que, por mais que busquem enquadrar em categorias ou diagnósticos, se derrama, se espraia, se reinventa, não se contém em invólucros. Cadum é cadum ecoa como um limite ético à arrogância do conhecimento. Assim, o texto defende que a verdadeira compreensão do outro não nasce da tentativa de explicá-lo sob os nossos próprios moldes, mas sim da aceitação respeitosa de que cada ser humano possui uma “geografia secreta”.
Geografias diversas se encontrarão em 2027 no 31º Congresso da FEBRAPSI em Recife. A apresentação da identidade visual do evento foi o tema do ensaio de Gleda Brandão Araújo, da SPMS e atual presidente da instituição (OP 692/2026). “O Futuro da Nossa Ilusão”, em comemoração ao centenário do texto de Freud, é o tema do congresso, e confronta as transformações contemporâneas aceleradas, o excesso de estímulos, os fanatismos e a fragmentação de sentidos diante do lugar singular da psicanálise. Uma identidade visual que se integra à fartura de nossa paleta cromática, inspirada na sombrinha do frevo pernambucano, em contraste com uma multidão cinzenta e homogênea. Cada um é cada um.
O que o futuro trará? Mais do que aguardar o futuro, as angústias do presente convocam a pensar e agir no hoje, na construção da possibilidade da continuidade da história. Na Venezuela. No Brasil. No mundo. Dentro de nós. Aqui, ali, acolá. Precisamos dos “sonhos-pássaros” de Larissa, da alegria das ações afirmativas conquistadas em assembleia, da cor da terra que Santiago nomeia, das palavras que Ana Valeska recolheu de Marjane Satrapi, dos bancos de praça que José Antônio recusa perder, da conversa de Ignácio e Yara, dos aforismos de Hemerson, da geografia secreta de cada um segundo Avelino. Precisamos de rendilhados afetivos, formulados de tantas formas diferentes, na singularidade de cada pessoa quando se encontra com outra pessoa, para que não nos acostumemos com misoginias, racismos e misantropias, nem à anestesia turva dos dias cinzentos.
Cadum é cadum. Na polis do Observatório Psicanalítico os bancos são fartos, as palavras são acolhidas. Cheguem junto, sentem por aqui, vamos conversar? Há poesia nos laços, há beleza no que constrói um ser humano. Você concorda? Conta para nós?
Um abraço apertado e colorido da equipe de Curadoria
Beth Mori (SPBsb), coordenadora
Ana Carolina Alcici (SPRJ)
Ana Valeska Maia (SPFOR)
Cris Takata (SBPSP)
Gabriela Seben (SBPdePA)
Giuliana Chiapin (SBPdePA)
Lina Schlachter (SPFOR)
Palavras-chave: tragédia, congresso de psicanálise, colorido, laços, singularidades.
Imagem: Pássaros em voo. Dreamstime.
Categoria: Editorial
Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.
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