24.08.20 Observatório Psicanalítico – 192/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Lugar de fala

Gustavo Gil Alarcão (SBPSP)

Como psicanalistas, gostamos de relembrar a famosa passagem na qual a corajosa Emmy von N. se vira para Freud e diz algo como “cale-se, deixe-me falar”. Astutamente, old Sig (nem tão velho à época), escuta e se cala. Calado, ele escuta. Abandona definitivamente a hipnose e começa a validar a associação-livre. Sim, escutar era imprescindível.

Das várias críticas de Foucault à psicanálise, temos que destacar um sagaz comentário, no qual, no meio da monumental obra “História da loucura”, ele destaca que Freud literalmente deu à loucura, e, portanto, a muitos de nós (nós, os loucos!) um lugar de fala. Ali, em plena aurora do século XX, a escuta ganhava valor, atrelada ao poder da fala – fala daquele que, até então, não era escutado e, sim, tinha sido transformado em objeto.

O mesmo século XX assistiu à emancipação de várias pessoas, cujas falas jamais, jamais – sublinhemos, haviam sido escutadas. É mais do que compreensível imaginar que, ao se criarem espaços de fala, estes seriam ocupados com muita força e muita potência, após séculos de repressão. Além disso, as pessoas que falam atualmente sabem que precisam ser hábeis e fortes, porque este lugar não está nada garantido. Esta emancipação está apenas em seu começo, olhemos ao redor e veremos que o mundo ainda está muito, mas muito distante de se tornar um lugar onde as pessoas se sintam representadas e, portanto, escutadas. 

 

Há poucas semanas a Folha de São Paulo publicou um um artigo de Lilia Schwarcz, antropóloga reconhecida, intitulado “Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha”, no qual a pesquisadora criticava o filme “Black is king ” recém lançado pela cantora. O texto causou grande repercussão, sendo acusado de apressado,  preconceituoso em algumas passagens e de ser escrito de forma a ignorar os lugares de Beyoncé como negra e Lilia como branca no debate sobre a identidade africana diaspórica, que ele aborda. Muito se falou sobre esse “lugar de fala”, já que muitos negros e negras (não somente) valeram-se dessa expressão para criticar o texto. Críticas que geraram réplicas e tréplicas, e que, de maneira interessante, explicitam pontos de vista e posicionamentos.

No meio desse cenário, dois textos de psicanalistas chamaram-me atenção. Diga-se antes, psicanalistas lúcidos e atentos às questões sociais: um de Maria Rita Kehl, “Lugar de Cale-se”, e outro de Contardo Calligaris, “Sou alérgico ao argumento ‘você não pode falar dos negros porque não é negro'”. Ambos parecem redigidos em defesa de Lilia, e criticando fortemente o uso do “lugar de fala” nas críticas feitas a ela, ou melhor, ao seu texto. Calligaris diz que “lugar de fala”  é um argumento que visa massacrar o autor do texto, fugindo ao debate das ideias. Argumento comumente usado por Calligaris, que também faz referência ao pensamento de que talvez não haja racismo, mas sim preconceitos sociais contra mais pobres, comum na visão sobre o racismo brasileiro. Ideia falsa, como já demonstrado em 1940 pelo trabalho da também psicanalista Virgínia Bicudo. 

Kehl, dizendo-se “incuravelmente heterossexual”, também se indigna contra às críticas à Lilia. 

Ambos irão defender Lilia, que, na verdade, não precisa de defesa: ela própria assumiu erros e incoerências em comentários posteriores. Ambos atrelarão “lugar de fala” e “políticas de identidades”, apontando para os riscos do excesso dessas “novas políticas”. Kehl argumenta com maior densidade sobre os riscos do enclausuramento ao redor de alguns determinantes como a cor ou sexualidade, quando lembra que existem negros racistas, gays homofóbicos e mulheres misóginas.

Para arejar o debate temos também o artigo de Lia Vainer Schucman, “O que o ‘medo branco’ tem a dizer sobre lugar de fala, raça, Beyoncé e cancelamento”. A autora foca principalmente as respostas de autores brancos envolvidos na questão. Lia desenvolve de forma muito clara a noção do processo de “racialização”, quando características de grupo antecedem a posição dos sujeitos. E, de forma precisa, ela diz que isso ocorre com negros e negras há séculos, e somente agora vem acontecendo com brancos. E vejam como são brancos e brancas os que primordialmente saíram em defesa de Lilia. Lia é ainda mais precisa quando diz que nenhum branco quer ser olhado de forma racializada. E, por isso, é possível ler nos textos de Kehl e Calligaris algo bastante explícito: “há brancos diferentes, que não são racistas, assim como Lilia também; estamos ao lado de vocês, que não perceberam isso: portanto, calma com as críticas, calma em apontar a branquitude de Lilia e a negritude de outros ”.

Mas é justamente na veemente defesa à colega, na estruturação dessa argumentação e na colagem feita entre lugar de fala e força dos movimentos identitários, que devemos prestar atenção. Reclamam da identidade, mas usam-se da identidade e da biografia para defender o que talvez merecesse também críticas (vejam o deslocamento feito da defesa do texto para a defesa da pessoa, sob argumento de que a pessoa é quem estava sendo cancelada). Confusão ofuscante que impede a discussão das razões das críticas à Lilia e, vale repetir, críticas que a própria Lilia assumiu. 

Leitores críticos cobram de seus autores cada vez mais responsabilidade e coerência. Cobrança que parece incomodar muito quando aponta para a raça de quem é cobrado: “por que apontar minha branquitude, quando defendemos causas comuns?” O mínimo apontamento para a questão da raça parece ferir e ofender muito, além de invalidar e desqualificar quem o profere. 

Nesse sentido, podemos pensar que se pretende apagar a noção da raça e dizer simplesmente assim “somos todos iguais”. É justamente isso que se tenta desconstruir, porque esse “somos iguais” tem sido usado e reusado para abafar justamente as diferenças violentas. Causa horror que se critique Lilia, mas não causa tanto espanto que Lilia critique Beyoncé. O lugar de fala, diferentemente do que se afirma, não replica o “preconceito” e nem pretende “cancelar” pessoas, mas evidencia questões que sempre e, é preciso frisar, sempre, contam com a  condescendência de muitos.

“Considerar que o branco pode ser alvo do desprezo é o medo branco, e aí está o motivo de muitos terem medo de se misturarem em lugares onde a branquitude não é o lugar de desejo, mas sim de deboche”. Eis uma das principais razões apontadas por Lia para as críticas ao modo como Lilia foi criticada. Eis, para mim, a mola propulsora dos textos de Kehl e Calligaris. Cada vez menos textos como o de Lilia passam silenciosos. Cada vez mais a autoridade e a biografia precisam estar concatenadas à realidade. 

Então, psicanalistas que aprimoraram seus ouvidos e sensibilidade lançam-se rapidamente na defesa da colega, recolocando quem critica em seu lugar. Veja, não apresentam razões mais convincentes para criticar as críticas à Lilia. Pelo contrário, reafirmam seu direito de falar, seu direito de discordar, seu direito de criticar… Como se algum dia, esse direito (branco) tivesse sido retirado. Como se as críticas (muitas negras, poucas brancas) à Lilia representassem de fato toda essa ameaça de cancelamento. Se continuarmos nesse exercício de “como se”, iremos entender a razão de, em alguns momentos, escutar e apenas escutar a fala do outro, reconhecendo que realmente quem esteve no pau de arara tem algo a dizer sobre o qual eu, em determinados momentos, precise e possa, apenas escutar. 

I can’t breath, é real, realíssimo. Se for para fazer ou dizer algo, que se tenha cuidado e responsabilidade. É fácil escorregar quando falamos de questões tão arraigadas e estruturais como o racismo.

Beyoncé pode ser criticada, mas, sério, é ela quem precisaria ser criticada e daquela maneira e nesse momento por Lilia? 

Lilia pode ser defendida, mas, sério, ela precisa?  E dessa maneira?

Textos citados:

“Filme de Beyonce erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha”, por Lilia Moritz Schwarcz, 2/8/2020.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/08/filme-de-beyonce-erra-ao-glamorizar-negritude-com-estampa-de-oncinha.shtml

Retratações de Lilia Schwarcz nas redes sociais: Twitter, em 04/08/2020, e Instagram (sem data).

https://mobile.twitter.com/liliaschwarcz/status/1290690849525968898?ref_url=https%3a%2f%2fd-3315230850432013124.ampproject.net%2f2007302351001%2fframe.html

https://mobile.twitter.com/LiliaSchwarcz/status/1290691974224326664?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1290691974224326664%7Ctwgr%5E&ref_url=https%3A%2F%2Fd-3315230850432013124.ampproject.net%2F2007302351001%2Fframe.html

https://www.instagram.com/p/CDeND7OnekC/?igshid=tc77zcgnzlcm

“Lugar de ‘cale-se’”, por Maria Rita Khel , 11/8/2020.

https://racismoambiental.net.br/2020/08/11/lugar-de-cale-se-por-maria-rita-kehl/

“O que o ‘medo branco’ tem a dizer sobre o lugar de fala, raça, Beyoncé e cancelamento”, por Lia Vainer Schucman, 13/8/2020.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/08/o-que-o-medo-branco-tem-a-dizer-sobre-lugar-de-fala-raca-beyonce-e-cancelamento.shtml

“Sou alérgico ao argumento ‘você não pode falar dos negros porque você não é negro’”, por Contardo Calligaris, 19/8/2020

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/08/sou-alergico-ao-argumento-voce-nao-pode-falar-dos-negros-porque-nao-e-negro.shtml?origin=folha

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

Imagem: capa do disco da Beyoncé

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https://www.febrapsi.org/observatorio-psicanalitico/