15.05.20 Observatório Psicanalítico – 166/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Em clima da morte, o necessário pessimismo de força

 

Maria Luiza Gastal (SPBsB)

 

Há poucos meses, fui convidada a participar de um comitê recém formado pela IPA para discutir os impactos das mudanças climáticas sobre a psique humana e as lições que a psicanálise pode aprender e ensinar sobre o tema. O grupo congrega psicanalistas dos quatro cantos da Terra (redonda…) e tem abrigado trocas fecundas, tanto de ideias quanto de angústias. O comitê é coordenado pela psicanalista britânica Sally Weintrobe, que organizou, em 2013, o livro “Engaging with climate change”, com artigos de diversos autores – psicanalistas, sociólogos, cientistas da natureza, dentre outros. Um de seus temas é a negação: das mudanças climáticas, de nossa dependência em relação ao planeta, dos efeitos de nossas ações sobre a Terra. 

 

Quero, em tempos de pandemia e pandemônio, dialogar com o primeiro capítulo, de Clive Hamilton, professor de Ética, enfatizando que a ocorrência cada vez mais frequente de pandemias devastadoras é uma das previsões dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC. No Brasil e em outros países vemos uma atitude suicida de negação, tanto das mudanças climáticas como da crise da COVID-19, que já matou 287 mil pessoas no mundo. 

 

Hamilton aborda a “fragilidade do Iluminismo” que marca o negacionismo climático. Diante das incontáveis evidências científicas de que nosso modo de existência é incompatível com a manutenção da vida da Terra, negamos a ciência, e seguimos vivendo como se não houvesse perigo. Discute a ansiedade que o tema provoca e algumas das estratégias (desastrosas) que a humanidade usa para enfrentá-las, sobretudo de negação e denegação. Ao ler seu texto, me ocorreu o que vemos se passar agora no Brasil. No final de semana, uma carreata, na Esplanada do Ministérios, aqui perto de casa, pedia o fim da quarentena, em apoio ao Presidente da República, que qualifica a doença como uma “gripezinha”, e que trocou os planos de um churrasco por um passeio de jet-ski no Lago Paranoá no dia em chegamos à triste marca de dez mil mortes. O autor conclui com três exemplos, a seguir, mostrando que não há nada de novo.

 

O primeiro são os ataques a Einstein na Alemanha de Weimar, por conservadores e ultra-nacionalistas. A Teoria da Relatividade foi caracterizada como semita e comunista e, portanto, falsa. Um trecho de uma carta do cientista a um amigo mostra sua perplexidade: “Este mundo é um estranho hospício. Atualmente, todo motorista e todo garçom estão debatendo se a teoria da relatividade é ou não correta. A crença neste tema depende da afiliação partidária”. Soa familiar? Poderia ser sobre a cloroquina. Hamilton prossegue: “… a turbulência da Alemanha de Weimar tem algumas semelhanças como o fermento político que caracteriza os EUA hoje: profundos ressentimentos, o sentimento de que a nação está em declínio, a fragilidade das forças liberais e a ascensão de uma direita populista raivosa”. Também familiar… Os anti-relatividade usaram, além do discurso raivoso, a estratégia de criar entidades como a Sociedade dos Cientistas Naturais Alemães para a Preservação da Ciência Pura que, sob a máscara de instituição científica, defendia ideias  anti-semitas e anti-comunistas. Vemos iniciativas semelhantes hoje, com respeito às mudanças climáticas. 

 

O segundo exemplo é a recusa da sociedade britânica em reconhecer a ameaça que Hitler representava. Os alertas de Churchil foram qualificados como exagerados e ele foi acusado de gerar pânico desnecessário. Seu discurso na Câmara dos Comuns, em 1934, alertando para o que poderia resultar de bombas incendiárias sobre Londres, foi acusado de alarmista pelo The Times. A ilusão falou mais forte do que a realidade, que se abateu, em 1940, na forma destruidora das blitzen alemãs e a morte de cerca de 40 mil civis, metade em Londres.

 

No último exemplo Hamilton resgata A Peste, de Camus, para nos mostrar a potência destrutiva da negação. Enquanto os moradores de Oran viviam “na normalidade”, a peste se alastrava. Diz Camus: “Nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro(…)? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos”. Como a humanidade, que caminha para o desastre climático, enquanto insiste em “manter a vida na normalidade”. Como os apoiadores de nosso Füher, que, a exemplo dos fascistas alemães, espancam em mulheres, num ato em Porto Alegre, agridem enfermeiros que homenageiam colegas mortos na luta contra a COVID-19, atacam fisicamente repórteres que cobrem suas manifestações, debaixo do olhar do Presidente.

 

O que fazer? Como não perder a esperança, diante de coisas que nos parecem (e são) tão absurdamente mortais, como a força destrutiva do capitalismo contra o planeta, ou dos fascistas contra a vida?

 

Hamilton cita Dr. Rieux, o médico de Oran, que se mantém trabalhando contra a peste mesmo sem ser ouvido: “…era preciso lutar, desta ou daquela maneira, e não cair de joelhos. Toda a questão residia em impedir o maior número possível de homens de morrer e de conhecer a separação definitiva. Para isso, havia um único meio: combater a peste. Esta verdade não era admirável, era apenas consequente”. É preciso adotar um “fatalismo ativo”, em que nos movemos no escuro, tentando fazer algo bom. Hamilton associa esse fatalismo ativo de Camus ao que Heidegger, a partir de Nietzsche, chama de “pessimismo de força”, em oposição ao “pessimismo de fraqueza”. 

 

Longos tempos de luta nos aguardam. Aqui, a julgar pelo presidente e daqueles que o apoiam, muita dor, sofrimento e morte. No mundo, à luz da cegueira sobre as consequências de nosso afã destruidor, o cenário não é muito diferente. O que fazer?

 

Não cair de joelhos. Exercer nosso pessimismo de força. Com modéstia, aceitar que somos fracos, e retirar desta aceitação nossa força para continuar lutando.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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