11.05.20 Observatório Psicanalítico – 164/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

A Luta contra a pandemia tem rosto de mulher 

 

Gabriela Seben, Juliana Lang Lima e Rafaela Degani (SBPdePA)

 

Ser mulher no século XXI: vivência complexa e cheia de paradoxos. Desde a primeira onda do movimento feminista, surgida 110 anos atrás, é inegável que muito se avançou. Conquistas foram arduamente buscadas, ainda que jamais sedimentadas. A luta é permanente e o convite à reflexão, necessário.

 

Embora ocupem menos de 10% dos cargos políticos, algum destaque tem sido concedido às mulheres que exercem posição de liderança em países como Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia, Islândia e Taiwan. Suas atuações vêm sendo elogiadas no que tange à firmeza e ao zelo com os quais encararam a difícil realidade do mundo em tempos de pandemia. A despeito de algumas posições negacionistas, tais lideranças apostaram no controle rígido e precoce como medida para conter infecções, o que fez emergir questionamentos acerca da possibilidade de uma forma diferente de governar, algo que seria próprio do feminino.

 

Em alusão ao livro de Svetlana Aleksiévitch, “A guerra não tem rosto de mulher”, que trata de resgatar um lugar por anos negado às mulheres durante a segunda guerra mundial, afirmamos que a luta contra a pandemia de 2020 tem, sim, rosto de mulher. A bravura feminina no front de batalha que a autora resgata é a mesma das mulheres que tomam a dianteira nessa pandemia. Afinal, não é pouca a energia necessária para dar conta de uma jornada de trabalho aumentada, e muito, durante esse período de reclusão. Para que seja possível respeitar o isolamento social, as mulheres, mais uma vez elas, emprestam sua capacidade de trabalho para gerir a casa, limpar, cozinhar, ir às compras, ocupar-se dos filhos, além de seu próprio trabalho remoto. Isso quando nos referimos a uma realidade privilegiada como a nossa, de mulheres psicanalistas, que podem exercer seu ofício desde o conforto do lar. Se lançamos um olhar para os profissionais da saúde, descobrimos que 70% deles são mulheres. 

 

Não são incomuns as associações feitas entre o feminino e a capacidade de cuidar e acolher. O próprio planeta Terra, nossa morada, é a “mãe terra”, a grande extensão que abarca a vida e que hoje chora a perda de seus filhos (mas que também produz vírus, tempestades e terremotos). Nossa origem individual, tendo o útero como a primeira casa, remonta ao fruto desse continente denominado mãe. Mulher, aquela que sangra todo mês, que é penetrada, que engravida – experiências que vão marcando a capacidade feminina de tolerar e esperar. 

 

Importante salientar que, embora exista uma relação orgânica entre corpo e psiquismo, ser homem ou mulher envolve muito mais do que biologia. A bissexualidade é inerente a todos os seres humanos, nos explica Freud. Assim, cada um de nós carrega elementos femininos e masculinos em si. Ser mulher não é sinônimo de passividade ou submissão, mas é possível que o desamparo original de todo humano seja menos ameaçador às mulheres em geral. Em conjunto com a cultura, que sempre delegou a elas o papel de cuidadoras, acreditamos que as mulheres, com a marca indelével da castração no próprio corpo, têm em sua essência uma grande capacidade de conter, reagindo aos horrores do mundo externo e interno de maneira reflexiva. 

 

Idealizações à parte, seguimos propondo que a luta contra a pandemia tem rosto de mulher. Mas não leiamos isso com romantismo pois, ao mesmo tempo em que o feminino garante um certo protagonismo em meio ao caos, fica também exposto. A política, no mundo inteiro, é ainda um território masculino, com valores inspirados na agressividade como sinônimo de poder. A política como praticada na atualidade é misógina – e no Brasil esta é uma realidade assombrosa, basta lembrarmos do então deputado Jair Bolsonaro dizendo à colega Maria do Rosário que ela não merecia ser estuprada. No entanto, humilhar, desacreditar e diminuir as mulheres que alcançam uma posição de destaque não é uma exclusividade brasileira. Por toda parte é possível enxergar resistência ao destaque feminino. Ser mulher ameaça. 

 

No atual governo brasileiro essa ameaça parece óbvia. Temos apenas duas mulheres liderando ministérios, e ambas demonstram uma identificação com o líder/agressor. O atual presidente, com sua misoginia cotidiana e seus traços psicopáticos, parece estar distante de uma harmonia com a essência feminina que habita todos nós. Ao contrário de ser continente, está sempre expulsando ódio, atuando a agressividade. Ao repudiar o feminino em si mesmo, Bolsonaro luta constantemente para provar que não é passivo. Aterrorizado pela possibilidade de perder seu poder, de ser castrado, desmente a pandemia e cria, insistentemente, um pandemônio. Enquanto as governantes mulheres estão sendo apontadas como as melhores chefes de estado do planeta, Bolsonaro tem disputado o pódio de pior líder global, ao lado dos presidentes de Bielorrússia, Turcomenistão e Nicarágua. 

 

Oxalá hoje estivéssemos sendo presididos por alguém capaz de integrar o masculino e o feminino, a atividade e a passividade, encarnando um(a) líder justo(a), criativo(a) e empático(a) com o sofrimento da brava gente brasileira.  

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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