25.06.17 Observatório Psicanalítico 10/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

A sedução do tráfico: os órfãos do estado e seus heróis às avessas

Lúcia Passarinho

 

A menina deitada no divã conta fragmentos da sua história. Foi obrigada pela mãe a se vender para um homem bem mais velho, que passou a sustentar as duas. Aos 11 anos fugiu e foi buscar a ajuda do pai, não encontrando o acolhimento que procurava. Passou então a viver nas ruas, até ser resgatada pela Vara da Infância e recebida numa instituição.

Um casal quis adotá-la, mas ela teve medo de que os abusos e o abandono se repetissem. E rejeitou os possíveis adotantes.

A convivência no abrigo não é nada fácil, sua história acabou caindo no conhecimento dos colegas, ela passou a sofrer bullying e ameaças. Não sabendo por quanto tempo vai aguentar, ela pensa em fugir um dia. E enxerga apenas dois caminhos para a própria subsistência: seguir se prostituindo ou entrar para o tráfico.

Ela ambiciona a independência e coisas aparentemente simples, mas ainda distantes de suas possibilidades, o que a angustia. Afinal, como todo adolescente, ela tem pressa. Ela repudia sua origem, tem horror ao passado, em especial à mãe, mas a voz materna ecoa em seu interior, predestinando-a à transgressão e a tudo que ela própria rejeita e sente vergonha.

Depois de passar alguns dias na casa de uma suposta amiga, a menina retorna com dinheiro, roupa nova e doces que distribui para os colegas. Questionada pela instituição sobre a origem do dinheiro, não consegue justificar e é proibida de sair nos finais de semana. Ela se rebela, não mais aceita as regras da casa e as fugas se tornam regulares. As faltas às sessões são mais frequentes, até que ela simplesmente desaparece.

Ela tem aspirações, desejos, sonhos. Como disse a canção: “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”. O tráfico assedia, seduz, e o lucro instantâneo convém ao adolescente imediatista.

Quem sofreu abusos, negligência física e afetiva como ela costuma padecer de baixa autoestima, pessimismo e sentimentos de impotência. No imaginário de um jovem desprovido do personagem que represente proteção e acolhimento, o traficante encarna a figura de poder que compensa a orfandade. A droga, por sua vez, é fonte de prazer , entorpecimento e alívio para quem convive com objetos internos perturbadores e uma crônica dor emocional.

Ao longo do trabalho na Vara da Infância, constatei que jovens envolvidos com o tráfico são com muita frequência criados por mães ou avós. A luta solitária pela sobrevivência faz dessas mulheres pessoas vulneráveis. A razão dessa fragilidade não é apenas a condição feminina, mas o fato de viverem à margem de qualquer proteção do Estado.

É neste contexto que o pai e o Estado ausentes acabam substituídos pelo herói às avessas. O traficante ocupa com competência este espaço vazio, dando início a um pacto com o crime e a violência.

Perdi minha paciente para o tráfico. Ainda hoje anseio por um telefonema dela. O divã continua disponível, a analista também.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).