Editorial – fevereiro/2021

Editorial – Observatório Psicanalítico – fevereiro/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

 

Editorial – Fevereiro de 2021

 

Chegamos ao final do mês de fevereiro, e ao contrário do que nossas expectativas indicavam, não estamos otimistas. A chegada da vacina nos trouxe uma lufada de esperança que logo foi se esvanecendo com as notícias de que o número de contaminados aumenta rapidamente, que pessoas seguem morrendo aos milhares por dia e que não temos previsão de vacinar toda população até o final do ano. Como se isso não bastasse, ao olharmos para o panorama político atual não encontramos nenhum alento.

Envoltos nesse cenário desolador, tentamos nos manter fiéis à ideia de que ao colocarmos em palavras nossas angústias conseguimos recarregar a energia e caminhar mais um tanto.

 

Iniciamos o mês no Observatório Psicanalitico com a chegada de Rafaela Degani (SBPdePA) que passou a integrar a equipe de curadoria do nosso OP. Estamos muito felizes, seja bem-vinda, Rafaela!

 

Abrindo as publicações de fevereiro, o ensaio “A Braquitude está em Pauta”, da colega Josimara Magro Fernandez de Souza (SBPRP) traz o relato do quanto a autora se viu convocada e reflexiva a partir do texto de Ignácio e Augusto Paim publicado aqui no mês passado. Josimara  faz um depoimento pessoal e corajoso de como foi se dando conta das questões racistas e dos privilégios de sua branquitude e afirma: “Se nos pretendemos anti-racistas, isso passa necessariamente pelo reconhecimento em nós da branquitude.” Ney Couto Marinho (SBPRJ) ao refletir sobe o texto da colega considera importante não perdermos de vista a luta contra a desigualdade social e o belicismo,  e por fim antecipa a novidade que foi tema da segunda publicação do mês.

 

Nela, Lúcia Palazzo (SBPRJ) ao escrever o ensaio “Em que Ponto Estão os Psicanalistas“ nos brinda com a excelente notícia de que, no dia 25 de janeiro de 2021, em Assembleia Geral Extraordinária a SBPRJ aprovou por unanimidade a criação de bolsas sociais/raciais que garantem aos negros, indígenas e refugiados bolsas integrais para a realização da formação analítica. “O caminho a trilhar não tem retorno nesse processo de descolonização” afirma Lúcia, enquanto Susana Muszkat (SBPSP) sintetizou em palavras o que talvez seja o desejo de muitos colegas:  “Muito emocionante esse movimento e oxalá seja disparador para muitos de nós em outras sociedades”.

 

Dentre tantos acontecimentos políticos e sociais relevantes chamou atenção que o BBB21 tenha se tornado umas das principais pautas de discussão na internet Brasil afora. O programa que completa 21 anos e tem uma das maiores audiências da televisão, tem causado discussões acaloradas acerca da dinâmica perversa do jogo, envolvendo caso de abuso psicológico, racismo, homofobia entre outras questões. Aproveitando o gatilho das discussões geradas a partir da desistência de Lucas – um dos participantes do BBB21 negro e bissexual- Eloá Bittencourt Nóbrega (SBPRJ) deu continuidade a série “Vidas Negras Importam” com o texto “Mortes Anunciadas e o futuro”, desenvolvendo a questão da onipotência branca, responsável pela manutenção do racismo estrutural que insiste em exterminar corpos negros no nosso país. Elizabeth Cimenti (SPPA) em comentário ao texto nos lembra que: “Somos todos africanos. A áfrica está em nossa alma.”

 

Em Brasília, o mês de fevereiro iniciou movimentado com a eleição de Arthur Lira para presidente da câmara dos deputados. Inspirado por essa notícia Leonardo Francischelli (SBPdePA) escreve o ensaio de nome provocativo “Erundina 16”, nos desafiando a pensar com suas palavras sábias e afiadas :“O futuro desta ação é a definição do sufrágio de 2022. Os senhores da cena política do dia primeiro , desenharam, com letras garrafais, o vencedor das próximas eleições, trazendo em seu bojo fome por ideias totalitárias.” Ane Marlise Port Rodrigues (SBPdePA) em sintonia com o colega demonstra preocupação ao refletir sobre a falta de articulação convincente das lideranças alternativas ao líder totalitário. Sylvain Levy (SPBsB) nos lembra que “Quando 16 valem mais que 302 alcançamos a subversão da razão mas alcançamos a lógica da ética”.

 

Seguindo na trilha dos acontecimentos políticos, Maria Teresa Naylor Rocha (SBPRJ) e Sônia Verjovsky de Almeida (SBPRJ) alertam para a nova Política Nacional de Educação Especial (PNEE) que pretende promover a separação de alunos em escolas e salas especiais, ferindo a Constituição Federal. As autoras discorrem sobre os perigos e consequências que uma sociedade corre ao excluir os considerados “diferentes” promovendo-os a “inimigos” em última escala. Nesse cenário, afirmam as colegas: “o narciso acha feio o que não é igual e a única solução é o extermínio deliberado engendrado à sombra ou às vistas quando se tornam políticas públicas”. Elas ainda chamam atenção para o fato de que a mentira estrutural tornou-se uma narrativa de opressão na atual política brasileira. Rossana Nicoliello (SBPMG) concordando com as autoras comenta que, “O sombrio dos tempos tem dado à mentira o status de verdade e hoje a mente Pré-Operatória, tão bem definida por Piaget, passou a ser modalidade funcional em boa parte da população. E o mais grave é a forma de “hipnose” exercida pelos líderes, estrategistas hábeis, incentivando o pensamento binário como definição de inteligência.”

 

Finalizamos o mês de fevereiro com uma sensível e tocante homenagem de Cláudio EIzeric (SPPA) para a colega Marlene Araújo, que infelizmente foi vítima fatal do corona vírus. Com palavras emocionadas Cláudio escreve “(…) tua presença tão forte nos deixa um legado profundo, através de tua postura analítica, de tua dedicação, de teu senso de justiça e de teu amor aos pacientes, colegas, supervisionandos, amigos e naturalmente tua família”. Fazendo eco à homenagem, muitos colegas responderam, compartilhando a dor imensa da perda e principalmente o grande afeto que sentiam por Marlene. 

 

Tempos de dor e tragédia, o “combo“ pandemia e pandemônio político tem exigido de todos nós um fôlego extra. O ano de 2021 prometia, quem sabe em nossas fantasias mais ideais, esperança de dias melhores já logo nos primeiros meses, como se a virada do ano fosse uma virada de página. O fim da pandemia estava ali ao nosso alcance, a vacina chegou e com ela a ideia de uma possível volta à normalidade… Sem quase nenhuma restrição ou medida preventiva das autoridades governamentais, não é difícil entender que com a chegada do verão e das férias, a população exausta após um ano difícil desmentiria a realidade e aproveitaria para aglomerar nas praias do litoral, nos bares, nas festas. Hoje estamos colhendo os frutos desse negacionismo perverso do governo, lotando hospitais e cemitérios.

 

Vamos completar um ano da epidemia do Covid-19 no Brasil no próximo mês, e apesar de mais resignados, estamos diante de uma perspectiva assustadora, a nova cepa do vírus já circula entre nós, os casos de contaminados crescem exponencialmente, falta previsão de um número suficiente de vacinas, não há políticas publicas efetivas para proteger a população, e como consequência acabamos alcançando a mórbida marca de 250 mil mortos. A exaustão psíquica toma conta de todos nós, e então nos perguntamos: como fazer para não esmorecer? São tantas as batalhas que nos exigem fôlego e já não sabemos ao certo onde vamos conseguir ar puro para seguir em frente. Como dissemos anteriormente, nossa aposta é na palavra e também na troca de afetos mesmo que virtualmente.  Avante, colegas!  E que os ventos ou as águas de março nos devolvam a esperança!

 

Equipe Curadoria

Beth Mori, Daniela Boianovsky, Ludmila Frateschi e Rafaela Degani. 

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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Os ensaios do OP são postados no site da Febrapsi. Clique no link abaixo:

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