Apesar das dores que também nos abalam, como seguiremos escutando? 

Observatório Psicanalítico – OP 240/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

 

Apesar das dores que também nos abalam, como seguiremos escutando? 

Gabriela Seben (SBPdePA)

 

“Sabe do que eu sinto falta? Agora parece besteira, mas sinto falta de sair do trabalho e encontrar os meus amigos. Era constante, e me fazia muito bem. Eu me sentia menos só. Parece tão distante agora…e tu, também sente falta dessas coisas?” falou-me uma analisanda de meia-idade, a voz embargada por uma emoção que tentava, sem êxito, conter.

 

O assunto aparentemente simples, dito certamente por alguém que goza de privilégios, me mobilizou. Eu sabia que para esta analisanda, que morava sozinha e tinha uma vida bastante solitária, essa era uma privação que havia lhe impactado de uma forma bastante dolorosa. Ela estava do outro lado da linha, pois nos falamos por áudio, sem contato visual. Por isso ela não viu meu rosto ruborizar diante de sua pergunta, num grande esforço para não deixar brotar as lágrimas que somente puderam verter livremente quando encerramos a sessão. Fiquei pensando na situação. Ela não estava falando especificamente sobre a perda de alguém, mas sobre a perda de algo importante. E naquele instante, por mais simples e corriqueira que pudesse parecer a situação relatada, senti-me como ela. Me conectei à sua dor, e percebi que a partilhava. Constatei o que já é claro, mas duro de admitir. Perdemos até mesmo as coisas mais simples, tão comuns que pareciam detalhes incorporados a uma rotina atarefada. 

 

Estamos todos sob efeito de uma catástrofe, que se abateu sobre nós de maneira traumática, ressignificando ou potencializando os nossos conflitos mais subjetivos. Sabemos, entretanto, que não estamos no mesmo barco. A população mais pobre e vulnerável, como sempre, é a mais atingida, já que está mais diretamente exposta aos riscos. Diante deste cenário desigual e desolador, acompanhamos de perto o adoecimento psíquico de boa parte da população, o que se reflete também em nossos consultórios, com um aumento notável na busca por atendimentos, seja na clínica particular ou em projetos de atendimento solidário destinados a pessoas de baixa renda.

 

Escutar não é tarefa simples. Treinamos com muito esforço os nossos “ouvidos” para compreender as mazelas humanas e as mais diversas formas de sofrer, todo o tempo olhando para dentro de nós mesmos para entender as repercussões daquilo que ouvimos do outro. Porém, como escutamos quando também estamos frente a uma situação traumática? Como mantemos o enquadre interno quando também estamos abalados, perdemos pessoas, adoecemos, somos privados, nos angustiamos, sentimos medo, quando estamos no limite da exaustão? Afinal, somos humanos, unidos pelo desamparo comum a todos nós, ainda que o vivenciemos de maneira muito singular. Entre os mortos e infectados nesta pandemia, muitos nos são próximos e queridos: são nossos conhecidos, amigos, vizinhos, colegas, familiares, analisantes. E espera-se que nós possamos acolher aqueles que padecem. Mas de qual recurso interno lançamos mão para consegui-lo?

 

Recorro a Freud, lembrando que ele atravessou as duas grandes guerras. Elisabeth Roudinesco, na biografia sobre o pai da psicanálise, nos mostra um Freud envolto por medos e incertezas, obcecado pela ideia de que as pulsões mortíferas humanas pudessem ameaçar a civilização. Freud amargou a escassez de pacientes, a crise econômica e o medo de perder seus familiares e amigos. Acompanhado de seu inseparável charuto, apesar de já constatado o edema no palato, entregou-se à solidão criativa. Submeteu-se a 31 cirurgias e passou alguns períodos, ironicamente, impossibilitado de usar a voz. No entanto, jamais escrevera tantos textos para expressar os seus pensamentos. Em 1920 perdeu sua filha Sophie, acometida pela gripe espanhola que dizimou milhares pelo mundo todo. Apesar das dores, Freud seguiu produzindo incessantemente e escutando. Jamais silenciou a palavra e o pensamento crítico, e talvez tenha sido essa a razão que o manteve vivo por tanto tempo.

 

Fica claro, com a pergunta de minha analisanda, que a pandemia nos convoca a uma posição mais simétrica diante de nossos analisantes. O que não podemos, entretanto, é abrir mão de nossa condição ética e abstinente, ainda que uma suposta neutralidade tenha sido abalada.

 

Apesar das dificuldades, que não se restringem somente às questões psíquicas, penso que nós, psicanalistas, precisamos seguir analisando o que se abateu internamente sobre nós. Mas não é o suficiente. Precisamos também de uma rede de apoio e de recursos simbólicos que auxiliem na tradução do que nos impacta dentro e fora. Assim como o bebê que precisa de ajuda alheia para sobreviver, precisamos também de um outro que nos acolha, olhe e escute. Nos abastecemos desse investimento para então nos voltarmos novamente para o outro, para os nossos analisantes, mesmo diante das agruras que estamos vivendo. Neste sentido, o bom e velho tripé freudiano segue mais atual do que nunca.

 

Por fim, mas longe de cessar as interrogações, nos perguntamos se haverá possibilidade de uma recomposição psíquica após este pandemônio social, político e sanitário no qual estamos imersos, em muito graças à inoperância e ineficiência de nossos líderes. A resposta, contudo, saberemos a posteriori. O que me parece mais importante é que, assim como Freud, possamos manter viva a palavra e o pensamento crítico, talvez o único antídoto realmente eficaz contra o risco de paralisia e morte psíquica. Pensar para não adoecer. Pensar para não naturalizarmos a barbárie nem mesmo aquelas situações, mesmo cotidianas, com as quais não devemos nos conformar.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

 

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