18.03 Na preparação para o Pré-Congresso do Triângulo Mineiro, diretor científico Ignácio Paim fala sobre “Das Unheimliche – As inconfidências de um forasteiro”

Das Unheimliche – As Inconfidências de um Forasteiro   

Não consigo imaginar como algo agradável viver sem trabalhar. Fantasiar e trabalhar, para mim, estão juntos, e nada me agrada mais que isso (Freud a Pfister, 1910).

Uberaba, 22 e 23 de março de 2019. Estamos nos aproximando da data do Congresso Brasileiro de Psicanálise – “O Estranho – Inconfidências” – que ocorrerá em Belo Horizonte de 19 a 22 de junho de 2019. Uma parceria entre FEBRAPSI e os grupos de Uberaba, Uberlândia, Frutal, Ituiutaba, com apoio da SBPMG, irá promover esse evento preparatório, objetivando trabalhar a temática do congresso com os colegas do Triângulo Mineiro.   

Em maio de 1919, Freud desenterra um antigo texto e começa a trabalhar, quem sabe fantasiar, visando reescrevê-lo: Das Unheimliche. Nesse retorno vai configurar o esboço de uma intrigante estética psicanalítica. Apelo para debruçar-se sobre os inquietantes derivativos e ramificações dos inconscientes, tomando por sinalizadoras as sensibilidades, que remetem à ordem do não sublime: ao familiar que, por perturbadores caminhos, tornou-se não familiar.

Em meio a essas desconcertantes proposições, buscando validá-las, Freud se faz acompanhar das suas indagações com a clínica – a repetição e seus enigmas – e pelo pensar dos escritores criativos – Hoffmann, com seu Homem de Areia, acena para a possibilidade de dar visibilidade ao invisível dos traumas precoces. Natanael, o menino de areia, remove a areia dos nossos olhos. O duplo desliza no ritmo da melodia pulsional, que está por vir. Nesses entrelaçamentos cria-se, ou ainda, recria-se uma conhecida/desconhecida cartografia, com suas inconfidências, entre a narrativa do poeta/escritor Hoffmann e a narrativa do poeta/escritor da psicanálise Sigmund Freud: ambos descortinam as sutilezas da alma e as imortalizam através do ato simbólico da palavra falada e escrita. Legado que somos convocados a perpetuar.

Com esse breve contexto introdutório, convidamos todos a trabalhar/fantasiar sobre essa temática – transitando entre a fluidez do devaneio e a necessidade da sua apreensão e fundamentação via palavra. Buscamos ampliar sentidos desse forasteiro centenário: Freud, com sua prosa científica, dialogando com a psicanálise e os psicanalistas do século XXI. Prosa que traz consigo a insígnia do ser inconfidente – o disruptivo.

Tendo esse argumento como perspectiva, pretendemos, agora, em terras mineiras, na terra dos inconfidentes, produzir ideias que venham contribuir para se reinscrever essa estranha história, à luz do nosso tempo: a perene necessidade de se fazer eterno inconfidente.  Aguardamos as suas narrativas em busca de interlocuções, com a pretensão de que o heimliche se faça Unheimliche, mantendo o seu quantum de mistério.

Até breve, na expectativa do encontro.

Ignácio Paim          

Diretor científico da FEBRAPSI