Viver a própria vida e morrer a própria morte

Observatório Psicanalítico 03/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Viver a própria vida e morrer a própria morte

Nize Nascimento

 

Morrer mais cedo ou mais tarde não é irrelevante. 
Relevante, sim, é saber se se morre com dignidade ou sem ela, pois morrer com dignidade significa escapar ao perigo de viver sem ela.
Cartas a Lucio – Seneca

Atualmente, a ênfase na qualidade de vida está presente até mesmo nos debates sobre a morte e o morrer. O prolongamento artificial da vida retira a possibilidade da experiência subjetiva de si e do mundo, atenta contra a dignidade da pessoa enquanto sujeito. O direito de viver a própria vida e o direito de morrer a própria morte, primeiro e último dos direitos, devem ser interpretados em sintonia com a vontade do paciente em fase terminal ou em situação irreversível de grande sofrimento.

Não se trata aqui de defender a eutanásia, proibida pela legislação brasileira. O que entendo por morrer com dignidade, assemelha-se ao que escreveu Winnicott na autobiografia que não chegou a desenvolver: “Oh Deus! Possa eu estar vivo quando morrer”. A lei assegura o respeito a autonomia, morrer com dignidade é um direito fundamental e isso representa um grande avanço.

Esse entendimento acerca de vida e morte constitui, a meu ver, mais um legado de Freud às gerações que o sucederam. Em suas elaborações teóricas como nas atitudes em relação às perspectivas da própria morte ele nos deixou reflexões preciosas. Comenta Schur, fiel médico que o assistiu ao longo da penosa doença, que mesmo debilitado Freud não deixou de atender alguns pacientes e frequentemente expressava sentir-se revigorado e afortunado pelo fato de ter amigos tão preciosos. Do seu leito, deliciava-se com a vista do jardim e das flores que muito amava, exalando vida.

Na teoria, morte e vida ganham destaque nas formulações acerca das pulsões apresentadas como forças inextricáveis e que atuam impulsionando ações e escolhas humanas. “A morte é a companheira do amor. Juntos, eles governam o mundo. É o que está dito no meu livro Além do princípio do Prazer”, declaração de Freud citada na última biografia escrita sobre ele por Élizabeth Roudinesco. Por conseguinte, o precário equilíbrio que regula nossa ação no mundo reside na junção entre essas duas correntes: vida-amor-eros e morte-ódio-thanatos.

Freud apropriou-se, com autonomia e dignidade, de sua finitude, recusando um inútil prolongamento da vida na morte. Recordando a Schur o pedido, que lhe havia feito para que não o abandonasse quando chegasse a hora, mergulhou num sono profundo e tranquilo depois de duas doses de morfina. Em 23 de setembro de 1939 a fronteira da existência é ultrapassada, Freud deu curso ao que sempre pensou e acreditou acerca da condição humana ao preferir optar por um término digno de vida e liberador.

Gostaria de finalizar com uma das inúmeras interrogações feitas por Freud em seu belo ensaio O Mal-estar na Civilização: “E, enfim, de que nos vale uma vida mais longa, se ela for penosa, pobre em alegrias, tão plena de dores que só poderemos saldar a morte como uma redenção?”

As citações foram retiradas da tradução de Paulo Cesar de Souza das obras completas editadas pela Companhia das Letras: Sigmund FREUD Obras Completas.

 

Os textos publicados refletem a opinião de seus autores.

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