Vidas negras importam IX: mortes anunciadas e o futuro 

Observatório Psicanalítico – OP 224/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

 

Vidas negras importam IX: mortes anunciadas e o futuro 

Eloá Bittencourt Nóbrega (SBPRJ)

 

Onde estaria Lucas, se não estivesse no Big Brother Brasil 21? Onde estaria Rebecca e Emily se não estivessem na calçada em frente às suas casas brincando, durante uma ação policial? Onde estaria Alice, vítima de bala perdida, se não estivesse no quintal de casa? Onde estaria Ana Clara, se não estivesse na porta de casa com sua boneca preferida, quando recebeu 2 tiros de policiais? Onde estariam os garotos Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique se não estivessem no campinho de futebol em Belfort Roxo? Onde estaria o gari Marcelo, se não tivesse ido trabalhar com seu uniforme dentro da mochila? A lista é enorme e somente deste início de 2021… Talvez, vivos …

 

Lucas não morreu literalmente, desistiu de participar do BBB21. Um programa em que todos os participantes estão confinados no sistema midiático da sociedade do espetáculo. O uso da violência para ter um lugar ao sol no mundo global branco surge numa aurora perniciosa em que todos querem ser amigos do rei. Estão em Pasárgada, o lugar da promessa, do bem-estar, dos privilégios, ainda que a morte surja no fim do poema, como uma possibilidade e que seja necessário retomar a estrofe principal: “E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/Vontade de me matar/ – Lá sou amigo do rei – / terei a mulher que eu quero/Na cama que escolherei/ Vou me embora para Pasárgada.” (Manuel Bandeira)

 

A morte insiste também lá, onde não deveria.

 

São muitas vozes que vêm de lá, dos súditos do rei e de outras paragens, contrárias, com razão, pois não se define um sujeito pela tela da TV e por um enredo artificial. Contudo, há vozes ferinas, que batem com palavras, “você não é único, você não é especial, há muitos bis (bissexual) e negros.” Pronto, assim se fez o silenciamento efetuado com sucesso. Assim é a paga pela carne negra e bissexual. A singularidade em pedaços, que a hostilidade estilhaça, face do narcisismo das pequenas diferenças que se condensam nas disputas promovidas pela dimensão do poder especular.

 

“O que aí falseia é o pendor à idealização.” (Freud, Psicologia das Massas Análise do Eu) Idealização do objeto branco, investido por um eu apaixonado.

 

Em Vozes d’África, Castro Alvez, grita em desalento: Como o profeta em cinza a fronte envolve, / Velo a cabeça no areal que volve/ O siroco feroz …/ Quando passo no Saara amortalhada …/ Ai! Dizem: “Lá vai a África embuçada/ No seu branco albornoz … (,,,) Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!/ É pois, teu peito eterno, inexaurível/ De vingança e rancor? …/ E que é que fiz, Senhor? Que torvo crime/ Eu cometi jamais que assim me oprime/ Teu Gládio vingador?! …”

 

A sombra do manto branco que caiu sobre a África e os afrodescendentes, é o “abutre, ave da escravidão.”

 

As vozes negras melancolizadas pelo manto branco, têm percorrido o mundo, uníssonas, têm se instruído, movimentando-se em grupos em direção a uma África livre, a um poder sem mortalha. Como disse Achille Mbembe, em entrevista à Flup 2020, não podemos imaginar o mundo sem os negros, sem a África, onde tudo começou e onde será o destino. Uma África para qual todos os negros possam voltar, uma África fortalecida, responsável pelo seu povo, que possa reclamar e proteger aquele negro que sofre violência em outros continentes. Afirma que o projeto de uma África forte será possível no futuro para o benefício de todos nós.

 

O basta de dor é presente, um desejo antigo para o futuro.

 

Se o homem é a semelhança de Deus, porque Ele seria branco? Onipotência branca que cria a “norma”, pela “superioridade racial branca”?  O homem branco não é capaz de responder às vozes negras porque desenvolveu um sistema que se estrutura no racismo, onde ele se esconde. Criou a dessemelhança, a raça negra e inferiorizou-a, invisibilizou-a como humana. As mortalhas da pandemia, e das ações policiais, estão cobrindo as favelas e os corpos negros pela racionalidade da necropolítica do poder que executa. Não adianta gritar ao infinito, nem ir para Pasárgada e nem assistir ao BBB21.

 

“Basta! A África está em cada um de nós. Nós vamos criar o futuro!

Sim, eu trago o fogo,

O outro,

Não aquele que te apraz.

Ele queima sim,

É chama voraz

Que derrete o bivo de teu pincel

Incendiando até as cinzas

O desejo-desenho que fazes de mim”

…. (“Do fogo que em mim arde”, Conceição Evaristo)

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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