Por que não psicanálise?

Observatório Psicanalítico 31/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

Por que não psicanálise? 

A clínica psicanalítica acessível na relação com a cidade

Magda Khouri

Diretora de atendimento à comunidade da SBPSP, sobre simpósio realizado dias 6 e 7 de outubro pela Associação dos Membros Filiados em parceria com o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.

 

A proposta da equipe organizadora do simpósio, coordenada por Eduardo Martins[1], de convidar vários psicanalistas para contar o que fazem em seus projetos nos diferentes territórios, deu corpo e alma a esse campo de ação que trata da Psicanálise extramuros ou Psicanálise a céu aberto, como chamamos um projeto da FEPAL, ou ainda Clínica extensa, de Fabio Herrmann.

 

O formato mais expositivo, escolhido pela comissão, já nos coloca na posição de escutadores:  em um primeiro momento conhecer o trabalho desenvolvido para construirmos juntos uma reflexão a partir do frescor dessas experiências. Em todas as exposições se evidenciou como opera o método psicanalítico em diferentes settings, seus limites e sua potência. 

 

Christian Dunker apresentou a Clínica do cuidado, trabalho com os refugiados de Belo Monte que foram arrancados do mundo ao qual pertenciam e lançados em territórios que não reconhecem, nem se reconhecem.  Logo de início se desconstroem as formas convencionais de atendimento, o que exigiu da equipe criar novas maneiras de tratar do sofrimento causado nessas pessoas.

 

Entre a escuta individual e coletiva, uma outra dimensão desse projeto se dá quando as doenças ganham uma conotação política, à medida que o adoecimento psíquico ou do corpo eram desvinculados do impacto social ocorrido. Aí a escuta psicanalítica entra como possibilidade de considerá-los na relação com a sua própria experiência de adoecimento, ao acolhê-los em sua maneira singular de sofrer. São questões que ressurgem nas apresentações de Cleusa Pavan, O que pode um psicanalista no SUS?, e Rosana Onocko Campos, Psicanálise e saúde coletiva.

 

No complexo sistema da saúde pública, muitos desafios são colocados à psicanálise. Na fala de Cleusa, que discutiu a Política Nacional de Humanização do SUS, acentuaria a construção de uma rede de trabalho terapêutico que crie uma espécie de movimento contagiante, onde o cuidado com o sofrimento psíquico seja um disparador de refundação de mundos. Rosana coloca em pauta a nossa forte desigualdade social. Partindo da ideia de que subjetividade e política nunca estiveram separadas na sua fundação, mostra como as histórias de violência não processadas acabam por ser transmitidas transgeracionalmente, provocando silêncio e humilhação. Tal complexa passagem para uma dimensão coletiva, que colabore para estruturar modelos de saúde mental, ainda precisaria ser muito explorada pelas nossas sociedades de psicanálise.

 

Um dos dispositivos que a psicanálise pode contribuir é instituir a clínica da clínica, ou seja, cuidar dos cuidadores. Nesse sentido, a diretoria de atendimento à comunidade da SBPSP tem dirigido o seu trabalho aos agentes de educação, de saúde mental, da área jurídica e de outros setores da cidade, criando convênios e parcerias que tem se consolidado ao longo do tempo. 

 

Como mais um exemplo da psicanálise onde ela se faz necessária (Herrmann), Oswaldo Ferreira Leite e sua equipe (IPQ) mantêm a presença da escuta psicanalítica na formação dos médicos e um permanente serviço de psicoterapia, talvez um dos maiores do país.

 

O Projeto Clínica aberta, descrito por Tales Ab’Sáber, articula a dimensão íntima e política, afirmando que desejo de política é desejo de psicanálise. Um grupo de psicanalistas atendem todos os sábados em dois pontos da cidade. Essa modalidade de escuta clínica me remeteu ao projeto Converse com o psicanalista, sugerida por Leopold Nosek e realizada por Oswaldo Ferreira Leite de, 2008 a 2010, quando todas as sextas-feiras se instalavam no Centro Cultural São Paulo. Oswaldo destaca a rapidez com que as pessoas se vinculavam e se instaurava o encontro psicanalítico.

 

Por fim, o Projeto Coletivo Escutando a cidade, experiência estética, política e reflexiva que propõe uma escuta psicanalítica da cidade através da fala de seus cidadãos, de Miriam Chnaiderman e sua equipe.

 

Como suporte do fazer clínico nessas várias formas apresentadas, é valioso o conceito sobre o enquadre interno do psicanalista, proposto por André Green, que é, em última instância, o próprio analista em sua função de guardião do tratamento do paciente. 

 

A marca de uma psicanálise antropológica é outra ideia que sustenta tais experiências, como Herrmann descreve em um comentário inédito, em 2006: “A tarefa da extensão da clínica impõe consideração ao problema da escuta psicanalítica dar-se fora da cultura onde nasceu a Psicanálise. Uma antropologia do saber psicanalítico. Mostra que a escuta psicanalítica é um ouvir psicanaliticamente o que já lá está. Não é inventar a psicanálise de um certo lugar, mas aprender com o lugar sem forçar sentidos”.

 

A meu ver, são avanços que nos convocam a desenvolver uma escuta mais radical, implicados com a dor, a angústia, o sofrimento do outro, onde quer que se empregue o método psicanalítico, dentro ou fora dos consultórios. 

 

Penso que o simpósio mereceria o título do belo texto de Mia Couto:  Por um mundo escutador

 

“Me entristece o quanto deixamos de escutar. Deixamos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixamos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficamos surdos pelo excesso de palavras, ficamos autistas pelo excesso de informação”.

 

[1] Comissão organizadora: Eduardo Martins (coord), Oswaldo Ferreira Leite Netto, Paula Ramalho da Silva, Olivia Falavina, Ludmila Frateschi, Peu Robles, Paula Camarão, Renata Zamborelli.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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