
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mund
Patologização do autismo e a lógica de “prevenção do espectro”
Marta Meneghello Müller Stumpf – SBPdePA
Atuo há 23 anos na clínica com crianças com deficiência e com diferentes formas de neurodiversidade. Essa trajetória se construiu tanto na prática clínica quanto no estudo contínuo sobre os processos de inclusão de pessoas com deficiência (PCD). Soma-se a isso minha experiência como mãe gemelar, típica e atípica, que atravessa e sustenta, de maneira singular, minha escuta e meu posicionamento ético. É a partir desse lugar, clínico, teórico e vivencial, que escrevo.
No dia 02 de abril, data marcada como Dia Mundial de Conscientização do Autismo, não há o que celebrar sem antes confrontar o que ainda se repete: a patologização das diferenças
e a insistência em normalizar aquilo que escapa à norma.
Dirijo este texto a profissionais da saúde e da clínica que, mesmo sob o signo da ética, seguem reproduzindo práticas e discursos que colocam o autismo no lugar de algo a ser evitado, prevenido ou corrigido.
É inaceitável a circulação, cada vez mais frequente, de enunciados que falam em “risco de autismo”, sobretudo na primeira infância. Sob a aparência de cuidado, tais formulações sustentam uma lógica capacitista que reduz a complexidade da constituição subjetiva a um ideal normativo de desenvolvimento.
Não se trata de prevenção: trata-se da recusa da diferença.
Quando se fala em “interceptar” o autismo, o que está em jogo é a pretensão de impedir a emergência de um modo singular de existir. Trata-se, portanto, de uma questão ética fundamental: quem decide quais formas de vida são aceitáveis?
O autismo não é uma doença a ser erradicada. É uma forma de organização subjetiva e de relação com o mundo. O que exige da clínica não é correção, mas escuta; não é adequação, mas sustentação da diferença.
Confundir cuidado com normalização é produzir violência, ainda que sob o disfarce de intervenção precoce. A clínica que se orienta por ideais normativos não cuida: ela exclui, silencia e ajusta o sujeito a um padrão que não o reconhece.
É ainda mais grave que tais discursos encontrem respaldo em espaços de formação, legitimando práticas que se afastam radicalmente de uma ética comprometida com a singularidade.
Não se trata apenas de um debate técnico. Trata-se de história.
O curta-metragem “Perdoai-nos as nossas ofensas” nos lembra que o extermínio de pessoas com deficiência não é um passado distante. O programa Aktion T4 assassinou mais de 200 mil pessoas, entre elas crianças. Não começou com câmaras de gás; começou com classificações, diagnósticos e decisões sobre quem era “tratável” e quem não era.
As pesquisas de Herwig Czech (2018) mostram que Hans Asperger, frequentemente celebrado como pioneiro, esteve implicado nesse contexto, participando de encaminhamentos de crianças consideradas “irrecuperáveis” para instituições como o Spiegelgrund.
A história não se repete da mesma forma mas certas lógicas se repetem.
Quando hoje se fala em prevenir o autismo, em reduzir sua incidência ou em intervir para evitar sua constituição, é preciso perguntar: o que, exatamente, se quer eliminar?
Ainda escutamos profissionais defenderem o uso da chamada “síndrome de Asperger”, muitas vezes em resistência às reformulações diagnósticas que levaram ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mas não se trata apenas de nomenclatura: trata-se de reconhecer que toda classificação carrega efeitos éticos, sociais e políticos.
Nenhum diagnóstico é neutro.
Este texto é uma recusa: recusa à patologização das diferenças; recusa à lógica de prevenção de modos de existir;
recusa à clínica orientada pela norma.
E é também uma afirmação: não há ética possível sem o reconhecimento da singularidade.
“Perdoai-nos as nossas ofensas”. As nossas repetições.
Contra a patologização do autismo.
Czech, H. (2018). Hans Asperger, National Socialism, and “race hygiene” in Nazi-era Vienna. Molecular Autism, 9(1), 29. https://doi.org/10.1186/
Palavras-chave: Psicanálise, autismo, capacitismo, singularidade, diferença
Imagem: Holocaust Memorial Center Zekelman Family Campus. Material de divulgação do filme Forgive Us Our Trespasses.
Categoria: Política e Sociedade
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