Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Psicanálise e futuro: quando o político insiste na clínica
Beth Mori – SPBsb
Escutei, nesta semana, a entrevista concedida, em outubro do ano passado, pelo filósofo brasileiro e professor universitário Moysés Pinto Neto ao podcast Vira-Casacas, na qual ele fala sobre seu livro recém-lançado pela editora Cultura e Barbárie — Política especulativa: ensaio sobre as imagens de futuro em disputa no século XXI.
Acompanho o pensamento desse autor gaúcho, de Porto Alegre, desde sua participação conosco no Observatório Psicanalítico, mais especificamente em duas conversas realizadas em nosso podcast Mirante: uma delas, conduzida em parceria com a colega Marilsa Taffarel (SBPSP), em torno do tema da “cosmopolítica”, e outra com Ana Paula Terra Machado (SBPdePA), quando refletimos sobre a “desconstrução” em Jacques Derrida. Para quem ainda não ouviu, fica o convite: trata-se de uma oportunidade preciosa de escutar como nós nos constituímos na contemporaneidade. Desde então, segue minha admiração pela trajetória intelectual de Moysés.
Para Moysés, pensar a política a partir da universidade tornou-se um exercício árduo, marcado por resistências, desqualificações e tentativas constantes de neutralização do pensamento. A política, nesse contexto, aparece muitas vezes como um excesso, algo “externo” ao saber legítimo. Moysés mostra como a especulação sobre o futuro, longe de ser um luxo teórico, tornou-se uma exigência diante de disputas ontológicas reais, nas quais mundos distintos competem para se realizar.
Neste ensaio, coloco-me a pensar sobre a presença da política entre nós, psicanalistas. Curiosamente ou não, esse mesmo impasse que se dá no campo universitário reaparece no interior das instituições psicanalíticas. Ainda hoje, não são poucos os colegas que afirmam, com certo conforto dogmático, que política “não é psicanálise”, como se fosse possível sustentar uma clínica asséptica, impermeável à vida coletiva, ao sofrimento social e às violências que acontecem na polis e emergem em nossos consultórios.
Freud, no entanto, jamais autorizou essa clivagem. Em textos como O mal-estar na cultura, Psicologia das massas e análise do eu e O futuro de uma ilusão, ele demonstra, de forma contundente, que o sujeito do inconsciente é inseparável dos laços sociais que o constituem. A cultura não é um pano de fundo neutro: ela é produtora de sintomas, de angústias, de formas de sofrimento e também de soluções eróticas para o mal-estar.
Quando colegas afirmam que política não é assunto da psicanálise, talvez estejam tentando defender a clínica de algo que a ameaça: o reconhecimento de que o sofrimento psíquico não nasce apenas do drama intrapsíquico, mas também da violência estruturante – simbólica, material e imaginária – do mundo comum.
É também nesse contexto que se inscrevem as eleições que ocorrerão este ano no Brasil, momento em que os afetos coletivos se intensificam e as fantasias políticas de salvação, eliminação do outro, restauração narcísica ou colapso ganham circulação ampliada. Processos eleitorais não são apenas eventos institucionais; produzem efeitos diretos na subjetividade, no laço social e na vida cotidiana, interrogando o lugar das instituições psicanalíticas na polis. Torna-se, assim, incontornável perguntar de que modo nós, psicanalistas, e nossas instituições sustentamos – ou recusamos – uma posição ética frente ao sofrimento social que se atualiza nesses momentos.
O assassinato brutal de um cachorro em Santa Catarina é um desses acontecimentos que rompem qualquer possibilidade de desmentido. Não se trata apenas de um “caso policial” ou de uma aberração individual. O que se apresenta ali é uma cena de gozo cruel, desprovida de empatia, que interpela diretamente nossa capacidade de pensar o humano, o inumano e o futuro.
O alto número de feminicídios ocorridos no primeiro mês deste ano, conforme apontado pela colega Juliana Lang (SBPdePA) em seu ensaio “Eu não vim fazer um discurso”, publicado neste mês no Observatório Psicanalítico, insiste em um modo operante de violência contra o diferente que, além de ser um curto-circuito do laço social, evidencia que a diferença dos sexos continua sendo uma questão para a psicanálise. Neste mês, um tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo assassinou a soldado, sua esposa. Depois de mentir, dizendo que se tratava de suicídio, a investigação indicou que o oficial tinha ciúmes patológicos e mantinha um relacionamento abusivo, com mensagens que mostravam que ele a humilhava e exigia submissão.
Esse tipo de acontecimento não fica fora do consultório. Ele retorna sob a forma de angústia difusa, medo do outro, desesperança, sensação de colapso civilizatório, identificação com posições cínicas ou melancólicas. A clínica contemporânea é cada vez mais marcada por pacientes que não perguntam apenas “quem sou eu?” mas, também, “que mundo é este?” e “há futuro possível?”.
O diálogo com Moysés Pinto Neto se torna fecundo para a psicanálise porque, ao propor que vivemos uma disputa entre quatro imagens de futuro, ele não oferece uma tipologia abstrata, mas um mapa das forças que já operam na produção de subjetividades: 1. O futuro tecnocapitalista cínico, marcado pelo aceleracionismo, pela crença na tecnologia como salvação e pela indiferença ética em relação à vida humana e não humana; 2. O futuro autoritário-fascista, sustentado por masculinismos, ressentimento e violência, em que a destruição do outro funciona como restauração narcísica; 3. O futuro progressista-automatizado, que aposta na técnica e na abundância, mas corre o risco de recalcar as dimensões pulsionais, o corpo e o conflito; 4. O futuro cosmopolítico-ecológico, que reconhece agências não humanas, interdependência e limites. Este talvez seja o único que reabre um campo para Eros: cuidado, responsabilidade, elaboração do trauma e reinvenção dos laços entre humanos, animais, ambiente e demais agenciamentos.
Esses futuros não são apenas narrativas externas: atravessam fantasias, identificações, sintomas e escolhas subjetivas. Cada analisante, de algum modo, negocia com essas imagens de futuro. Muitas vezes sem saber.
Se a universidade, como aponta Moysés, tende a neutralizar o pensamento político por meio de métricas, produtivismo e despolitização, as instituições psicanalíticas não estão imunes a mecanismos semelhantes. O apelo a uma “pureza” da psicanálise pode funcionar como defesa contra o risco de implicação. No entanto, quando a psicanálise recusa pensar a política, corre o risco de alinhar-se, ainda que silenciosamente, às formas dominantes de poder e violência. Freud e Puget já advertiam: não há clínica sem cultura, nem sujeito sem vínculo social.
Sustentar a psicanálise hoje implica aceitar que a clínica é condicionada pelo Antropoceno, pela devastação ambiental, violência contra humanos e não humanos, crise da democracia e disputa radical de futuros. Ignorar isso não protege a clínica psicanalítica; empobrece-a.
O livro de Moysés Pinto Neto nos convoca a imaginar futuros porque o presente tornou-se insustentável. A psicanálise, se quiser permanecer viva, precisa aceitar esse convite para sustentar uma escuta capaz de acolher o trauma do tempo, nomear o mal-estar e abrir espaço para que Eros, ainda que frágil, continue operando.
Talvez seja esse o ponto de encontro mais potente entre psicanálise e política: a recusa do cinismo, a aposta no laço e a responsabilidade ética diante do mundo que estamos ajudando a transmitir.
Palavras-chave: começo da vida psíquica, arte e psicanálise, subjetividade
Imagem: Capa do livro de Moysés Pinto Neto Política especulativa: ensaio sobre as imagens de futuro em disputa no século XXI, editora Cultura e Barbárie
Categoria: Política e Sociedade
Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.
Os ensaios são postados no site da FEBRAPSI: Psicanálise e Cultura: Observatório Psicanalítico.
E no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:
https://www.facebook.com/
No Instagram: @observatorio_psicanalitico
Se você é membro da FEBRAPSI/FEPAL/IPA e se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, inscreva-se no grupo de e-mails do OP para receber nossas publicações. Envie uma mensagem para [email protected]
