Observatório Psicanalítico OP 675/2026  

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Hamnet. Quando a criatividade se monta sobre o que está quebrado. 

Comentários sobre o filme homônimo

María del Carmen Míguez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC)

Hamnet (Cloé Zhao, 2025) conta a história de amor entre dois personagens marcados por paixões intensas e singulares. Fala do amor filial, de um luto imenso e da criação como ato de elaboração da perda: aquilo que, em termos psicanalíticos, chamamos processo de sublimação.

Entre Hamnet, a ficção contemporânea, e Hamlet, a tragédia shakespeariana, podemos entrever um interessante contraponto, um jogo sutil. O filme, baseado no romance de Maggie O’Farrell e bastante fiel a ele, apresenta uma hipótese sobre as motivações inconscientes e íntimas de Shakespeare que podem ter influenciado a escrita de Hamlet.

Como toda ficção, Hamnet se permite recriar com liberdade e certa coerência – justamente para encantar o leitor-espectador – a história pessoal de um jovem William, seu enamoramento e casamento, sua relação familiar e conflituosa com o pai e, finalmente, a morte precoce de seu filho.

A coincidência entre o nome do filho e o de sua obra foi observada por diferentes fontes. Maggie O’Farrell faz a seguinte referência nas primeiras páginas de seu livro:

“Na década de 1580, um casal que vivia na Henley Street (Stratford) teve três filhos: Susana e Hamnet e Judith, que eram gêmeos. Hamnet, o menino, morreu em 1596 aos onze anos. Quatro anos mais tarde seu pai escreveu uma peça de teatro intitulada Hamlet. Hamnet e Hamlet são, na verdade, duas formas perfeitamente intercambiáveis de um mesmo nome, conforme consta nos registros do final do século XVI e início do século XVII.” (Hamnet. Maggie O’Farrell. Libros del Asteroide. Barcelona, 2022)

Freud, em A interpretação dos sonhos (1900), falou da semelhança entre os nomes:

“Também é conhecido que o filho de Shakespeare, morto em idade precoce, levava o nome de Hamnet (idêntico ao de Hamlet).” (p. 509, Tomo I, A interpretação dos sonhos. Editorial Biblioteca Nueva).

O que chamou a atenção de Freud nesse clássico do teatro isabelino do final do século XVI foi a maneira indireta de tratar o mito grego de Édipo. Em um momento inicial de sua elaboração teórica, Freud estabelece como uma trama psíquica universal e estruturante aquilo que denomina Complexo de Édipo. Em Hamlet, ele encontra ainda um tratamento particular desse complexo:

“Sobre uma base idêntica à de Édipo Rei está construída outra das grandes criações trágicas: o Hamlet shakespeariano. Mas a forma diferente de tratar uma mesma matéria mostra a diferença espiritual entre ambos os períodos de civilização, tão distantes um do outro, e o progresso que, através dos séculos, a repressão vai realizando na vida espiritual da humanidade. Em Édipo Rei, a fantasia infantil de desejo — base da tragédia — aparece exteriorizada e realizada, como no sonho. Em Hamlet, ao contrário, essa fantasia permanece reprimida, e somente pelos efeitos criativos que dela emanam tomamos conhecimento de sua existência, situação análoga à da neurose… Vemos que a obra se baseia na hesitação de Hamlet em cumprir a vingança que lhe foi encomendada, mas o texto não revela os motivos ou razões dessa indecisão…”

“Hamlet pode realizar tudo, exceto a vingança contra o homem que usurpou, no trono e no leito conjugal, o lugar de seu pai, ou seja, contra aquele que lhe mostra a realização de seus desejos infantis. O ódio que deveria impulsionar a vingança é substituído por reproches contra si mesmo e escrúpulos de consciência.”

“A vida anímica de Hamlet não é outra senão a do próprio Shakespeare. Da obra de Jorge Brandés sobre esse autor (1896) tomo o dado de que Hamlet foi escrito após a morte do pai do poeta (1601); isto é, em meio à dor que tal perda deveria causar ao filho e, portanto, à revivescência de seus sentimentos infantis em relação ao pai.” (idem)

O conflito edípico como impossibilidade

Há um giro subjetivo na narrativa de Hamnet que a distingue do Hamlet de Shakespeare em um aspecto fundamental: Hamnet é uma história contada a partir da perspectiva do feminino. Trata-se de uma ficção narrada por mulheres.

A personagem Agnes é uma figura central, articuladora dessa narrativa. Encontramos, também, na história outros personagens femininos densos: Mary, a sogra de Agnes, por exemplo, atravessa um interessante processo de transformação: da figura típica da sogra que despreza a futura nora à mulher capaz de assistir e sustentar Agnes em um parto de gêmeos complicado e angustiante. Judith, a irmã gêmea de Hamnet, é uma menina cuja sensibilidade e riqueza afetiva se revelam no vínculo com o irmão. 

Enquanto Hamlet é uma peça teatral em que o masculino e seus desafios ocupam lugar principal, Hamnet é um filme e romance que se detém em qualidades tradicionalmente associadas ao feminino: a intuição, a entrega, a conexão com a natureza e o mundo do inconsciente.

Agnes é uma mulher conhecedora da botânica, sensível no contato com os animais, intuitiva na leitura das pessoas e dotada de certa capacidade premonitória que deriva dessa mesma conexão. Há algo de enigmático em sua feminilidade que a torna simultaneamente temida e fascinante.

A alusão ao mito de Orfeu e Eurídice não é casual; funciona no filme como uma antecipação simbólica. Eurídice no mundo subterrâneo torna-se metáfora de Agnes encerrada em seu mundo feminino, selvagem e inconsciente, sem possibilidade de transformação e de ligação emocional com o parceiro.

William – cujo nome só conhecemos no final do filme (no livro também se utiliza esse recurso narrativo) — é um jovem com interesses radicalmente distintos do ofício de luveiro. É preceptor de latim e paga as dívidas do pai dando aulas às crianças da família do pai de Agnes. Sente sua vida em Stratford como um confinamento. Quer escrever, interessa-se pelo teatro, mas sabe que só conseguirá isso se se afastar do pai e de sua cidade.

Poderíamos dizer que, na perspectiva da diretora, William não pôde ser pai para seu filho Hamnet porque tampouco pôde ser filho para seu próprio pai, o luveiro. Essa é a terrível paradoxa que ele precisa enfrentar.

A necessidade imperiosa de buscar sua paixão é uma forma de afastar-se do pai — que impede sua realização como escritor — mas, ao mesmo tempo, restringe seu papel paterno com o filho Hamnet. Esse é parte do sofrimento que enfrenta como sujeito, pois, para permanecer próximo do lar que construiu com Agnes, teria de submeter-se à vontade de seu progenitor.

“To be, or not to be, that is the question.”

Ser ou não ser, eis a questão, pergunta Hamlet, sem encontrar saída.

A única maneira que William encontra de viver sendo fiel a si mesmo e ao seu desejo é deixar Stratford e tentar a sorte em Londres.

Ao decidir seguir sua vocação, de certo modo abandona sua família. Atribui ao menino Hamnet a responsabilidade de cuidar e velar por sua mãe e suas irmãs — tarefa que não lhe cabia.

Nesse sentido, Hamnet aparece como um menino angustiado e desorientado. Quando sua irmã Judith adoece, ele não sabe o que fazer. Na novela, vemos o garoto percorrendo todos os cômodos da casa em busca de alguém que possa socorrê-los, sem encontrar ninguém.

Não se pode atribuir que uma criança assuma o papel de cuidara da mãe e dos irmãos sem que esse mandato deixe marcas em sua constituição subjetiva.

A mensagem do pai transforma Hamnet em um menino vulnerável, que se coloca no lugar da irmã diante da ameaça da morte. Sem o saber, foi colocado em um lugar impossível e sacrificial.

A resolução trágica de Hamlet, na perspectiva desse filme, teria sido a maneira encontrada pelo autor para lidar com seus próprios impulsos edípicos parricidas e incestuosos. Ao mesmo tempo, revela os sentimentos dolorosos que William – como pai – experimentou no luto pela perda de seu filho.

Um amor mal acolhido

Agnes e William se apaixonam rapidamente, mas precisam enfrentar a rejeição de suas famílias de origem.

Agnes não é querida por sua madrasta nem pela mãe de William, sua sogra. Ambas a veem como um ser primitivo, como uma bruxa ou feiticeira.

William, por sua vez, mantém uma relação difícil com seu pai, que o desqualifica constantemente e o trata de forma violenta.

Essas atitudes e posições de rejeição em relação ao casal – e sobretudo em relação aos seus interesses e paixões – produzem uma tensão que antecipa a tragédia que, em pouco tempo, terão de enfrentar.

Nesse sentido, não é casual que o filme faça referência ao mito de Orfeu e Eurídice. O risco de Agnes permanecer no mundo subterrâneo é o risco de cair na melancolia, incapaz de elaborar o luto pelo filho e, consequentemente, de preservar sua relação conjugal.

Ainda assim, ambos fazem o melhor que podem para construir seu próprio lar. Agnes se mostra compreensiva e apoia o marido em seu projeto de trabalho com a companhia teatral, ainda que isso implique sua partida para Londres.

Criar a partir da natureza – preparando poções medicinais para os outros – ou a partir da escrita – peças de teatro, comédias e dramas – talvez seja uma alquimia semelhante à criação de um filho e à constituição de uma família.

A tremenda paradoxa dessa obra magistral é que Agnes não poderá curar nem salvar seu próprio filho e sua própria família do mal: não poderá salvar Hamnet da peste nem os demais amores da escuridão do luto.

Como em toda tragédia, quando a rejeição familiar e a incompreensão se impõem ao amor, alguém acaba sendo sacrificado – e esse sacrifício não recai ao acaso sobre qualquer membro da família.

Pergunto-me: por que Judith se salva e Hamnet não?

Palavras-chave: Hamnet, Hamlet, Dor, Criação, Complexo de Édipo, o femenino selvagem

Imagem: Foto de divulgação do filme

Categoria: Cultura 

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Texto original producido em español

Observatorio Psicoanalítico – OP 675/2026

Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo

Hamnet. Cuando la creatividad se monta sobre lo roto

Comentarios a la película homónima

María del Carmen Míguez – Sociedad Psicoanalítica de Caracas (SPC)

Hamnet (Cloé Zhao, 2025) cuenta la historia de amor entre dos personajes marcados por pasiones intensas y particulares.  Habla del amor filial, de un duelo enorme y de la creación como acto de elaboración de la pérdida: lo que en términos psicoanalíticos llamamos proceso de sublimación. 

Entre Hamnet -la ficción contemporánea- y Hamlet -la tragedia shakespeariana- podemos entrever un interesante contrapunto, un juego sutil. La película, basada en la novela de Maggie O´Farrell y bastante fiel a la misma, presenta una hipótesis sobre las motivaciones inconscientes e íntimas de Shakespeare, que pudieron influir en la escritura de Hamlet. 

Como toda ficción, Hamnet se permite recrear con libertad y cierta coherencia -justo para encantar al lector-espectador-, la historia personal de un joven William, su enamoramiento y matrimonio, su relación familiar y conflictiva con el padre y finalmente, la muerte temprana de su hijo. 

La coincidencia entre el nombre del hijo y el de su obra se ha advertido desde diferentes fuentes. Maggie O´Farrel hace la siguiente referencia en las primeras páginas de su libro: 

“En la década de 1580, una pareja que vivía en Henley Street (Stratford) tuvo tres hijos: Susana y Hamnet y Judith, que eran gemelos. Hamnet, el niño, murió en 1596 a los once años. Cuatro años más tarde su padre escribió una obra de teatro titulada Hamlet. Hamnet y Hamlet son en realidad dos formas perfectamente intercambiables de un mismo nombre, según consta en los anales de finales del siglo XVI y principios del XVII.” (Hamnet. Maggie O¨Farrell. Libros del Asteroide. Barcelona 2022) 

Freud en la Interpretación de los sueños (1900) habló de la similitud en los nombres: “Conocido es también que el hijo de Shakespeare, muerto en edad temprana, llevaba el nombre de Hamnet (idéntico al de Hamlet)”. (página 509, Tomo I. Interpretación de los sueños. Editorial biblioteca nueva).

Lo que detuvo a Freud sobre este clásico del teatro isabelino de finales del siglo XVI, fue la manera vicaria de tratar el mito griego de Edipo. En un momento temprano de su elaboración teórica, Freud establece como un entramado psíquico universal y estructurante lo que denomina Complejo de Edipo. En Hamlet encuentra, además, un tratamiento particular del complejo:

“Sobre base idéntica a la de Edipo Rey se halla construida otra de las grandes creaciones trágicas: el Hamlet shakesperiano. Pero la distinta forma de tratar una misma materia nos muestra la diferencia espiritual de ambos períodos de civilización, tan distantes uno del otro, y el progreso que a través de los siglos va efectuando la represión en la vida espiritual de la Humanidad. En Edipo rey queda exteriorizada y realizada, como en el sueño, la infantil fantasía optativa, base de la tragedia. Por el contrario, en Hamlet permanece dicha fantasía reprimida, y sólo por los efectos creativos que de ella emanan nos enteramos de su existencia, situación análoga a la de la neurosis… Vemos, desde luego, que la obra se halla basada en la vacilación de Hamlet en cumplir la venganza que le ha sido encomendada, pero el texto no nos revela los motivos o razones de tal indecisión…” 

“Hamlet puede llevarlo todo a cabo, salvo la venganza contra el hombre que ha usurpado, en el trono y en el lecho conyugal, el puesto del padre, o sea contra aquel que le muestra la realización de sus deseos infantiles. El odio que habría de impulsar a la venganza queda en él sustituido por reproches contra sí mismo y escrúpulos de conciencia”.

“La vida anímica de Hamlet no es otra que la del propio Shakespeare. De la obra de Jorge Brandés sobre este autor (1896) tomo el dato de que Hamlet fue escrito a raíz de la muerte del padre del poeta (1601); esto es, en medio del dolor que tal pérdida había de causar al hijo y, por tanto, de la reviviscencia de los sentimientos infantiles del mismo con respecto a su padre”. (idem) 

El conflicto edípico como imposibilidad: 

Hay un giro subjetivo en la narración de Hamnet que la discrimina del Hamlet de Shakespeare, en un aspecto fundamental: Hamnet es una historia contada desde la perspectiva de lo femenino. Es una ficción narrada por mujeres. El personaje de Agnes es una figura central, articuladora de esta novela. Pero también, encontramos en la historia a otros personajes femeninos con densidad: Mary la suegra de Agnes, por ejemplo, es un personaje que muestra un interesante proceso de transformación: desde la típica imagen de la suegra que denigra de su futura nuera, hasta la mujer que puede asistir y sostener a Agnes en un parto de mellizos complicado y angustiante. Judith la hermana melliza de Hamnet es una niña con una sensibilidad y riqueza evidente en el vínculo con su hermano.

Mientras que Hamlet es una obra teatral donde lo masculino y sus desafíos ocupan un lugar principal, Hamnet es una película y novela que se regodea en cualidades femeninas como la intuición, la entrega, la conexión con la naturaleza y el mundo del inconsciente. 

Agnes es una mujer conocedora de la botánica, tiene una sensibilidad en el intercambio con los animales, una intuición sobre las personas y algunas dotes premonitorias, producto de esa misma conexión. Hay una cualidad enigmática femenina en el personaje de Agnes, que la coloca en un lugar temido y atractivo al mismo tiempo. 

La alusión al mito de Orfeo y Eurídice no es casual, funciona en el film como una anticipación. Euridice en el inframundo es una metáfora de Agnes encerrada en su mundo salvaje femenino, inconsciente y sin posibilidad de transformación y conexión emocional con su pareja. 

William, del que sólo conocemos su nombre al final de la película (en el libro también se usa ese recurso) es un joven con intereses radicalmente distintos al oficio de guantero. Es preceptor del latín y paga las deudas de su padre dándole clase a los niños de la familia del padre de Agnes. Siente su vida en Stratford como un encierro. Quiere escribir, le interesa el mundo de las tablas, pero sabe que sólo lo logrará si se aleja del padre y su ciudad.

Pudiéramos decir que, desde la perspectiva de la realizadora, William no pudo ser padre para su hijo Hamnet, porque tampoco pudo ser hijo para su padre, el guantero. Esta es la terrible paradoja que debe enfrentar. La imperiosa necesidad de ir en búsqueda de su pasión es una manera de alejarse del padre -quien impide su realización como escritor- pero a la vez, le restringe su rol paterno con su hijo Hamlet. Es parte del sufrimiento que enfrenta como sujeto, ya que para poder quedarse cerca del hogar que ha formado con Agnes tendría que someterse a la voluntad de su progenitor. “To be, or not to be, that is the question”. Ser o no ser, esa es la cuestión, se pregunta sin solución de salida Hamlet. La única manera que encuentra William, de vivir siendo fiel a sí mismo y a su deseo, es salir de Stratford para probar suerte en Londres.

Cuando decide seguir su vocación y oficio de cierta manera abandona a su familia. Le asigna al niño Hamnet la responsabilidad de cuidar y velar por su madre y sus hermanas; tarea que no le correspondía. En este sentido, Hamnet aparece como un jovencito angustiado y desorientado. Cuando su hermana Judith cae enferma, él no sabe qué hacer. Se lo ve recorriendo todas las estancias de la casa, buscando a alguien que los auxilie sin encontrar a nadie (en la novela). 

No se puede encomendar a un niño que funja de cuidador de su madre y hermanos, y que ese mandato no deje consecuencias en su identidad. El mensaje del padre hace de Hamnet un niño vulnerable, que se intercambia ante el acecho de la muerte con su hermana Judith. Sin querer, ha sido colocado en un lugar imposible y sacrificial.

La resolución trágica de Hamlet, desde la perspectiva de esta película, fue la manera del autor de lidiar con sus propios impulsos edípicos parricidas e incestuosos. A la vez, muestra todos los sentimientos penosos que William -como padre- experimentó en el duelo por la pérdida de su hijo. 

Un amor mal acogido. 

Agnes y William se enamoran rápidamente, pero tienen que enfrentar el rechazo de sus familias de origen. A Agnes, no la quiere su madrastra y tampoco la madre de William, su suegra. Ellas la ven como un ser primitivo, como una bruja o hechicera. Por su parte, Willian tiene una relación difícil con su padre, quién lo descalifica constantemente y lo trata de forma violenta.

Estas actitudes y posiciones de rechazo hacia los dos enamorados, pero sobre todo hacia sus propios intereses y pasiones, generan una tensión en la vida de esta pareja, precursora de la tragedia que, en corto tiempo, tendrán que enfrentar. En este sentido no resulta casual que para la obra cinematográfica se haya hecho referencia al mito de Eurídice y Orfeo. El riesgo de que Agnes se quede en el inframundo es el riesgo de que se melancolice y no pueda superar el duelo por el hijo y en consecuencia, de perder su relación conyugal.

Ellos, sin embargo, ponen lo mejor de sí para crear su propio hogar y Agnes se muestra comprensiva y apoya a su esposo en su proyecto de trabajo con la compañía de teatro, aunque esto suponga su partida hacia Londres.

Crear desde la naturaleza (pócimas medicinales para los demás) o las letras (piezas de teatro, comedias y dramas), supone, quizás, una alquimia parecida a la creación de un hijo y a la constitución de una familia. La tremenda paradoja de esta pieza magistral es que Agnes no podrá curar, salvar, a su propio hijo y familia del mal: a Hamnet de la peste y al resto de sus amores de la oscuridad del duelo. 

Como en toda tragedia, cuando el rechazo familiar y la incomprensión se imponen sobre el amor, alguien debe o podrá ser sacrificado, y ese sacrificio no recaerá por azar en cualquier miembro de la familia. Me pregunto ¿Por qué Judith se salva y Hamnet no?

Palabras clave:  Hamnet, Hamlet, Duelo, Creación, Complejo de Edipo, lo femenino salvaje

Imagem: fotograma de la película

Categoría: Cultura

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Tags: Complexo de Édipo | Criação | dor | Hamlet | Hamnet | o femenino selvagem
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