
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
A poesia faz o sujeito
Celso Gutfreind – Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA)
Escrevi um livro inteiro sobre o começo da vida psíquica. O tema me fascina, desde o meu começo. Claro que tem ali uma pretensão minha e de todos os autores com quem conversei para escrever o livro. Trata-se de uma ciência não de todo científica, porque também é subjetiva, logo arte. Mas, falando cientificamente, há evidências de que o nosso começo vem do ritmo que se instaura entre nós, bebês, e os nossos cuidadores, a mãe em especial. Somos frutos desse ritmo, onde estão presentes uma sintonia afetiva, conforme nomeou Daniel Stern, além de muita prosódia, fonemas, sons, ou seja, poesia. Em outros palavras, pode-se dizer que somos frutos de encontros, especialmente musicais.
Nasceria deles a nossa subjetividade, logo quem somos. Mas da poesia e da psicanálise, arcabouços do livro, vem a ideia de que, através do que costumamos chamar de transferência, um passado costuma ser reeditado no presente, oferecendo-nos a grande chance de nos relançarmos, inclusive através dos ritmos para voltarmos a ser.
Este arrazoado muito observado na clínica e na vida aponta para o fato de que todo terapeuta ou psicanalista precisa transcender os seus conhecimentos cognitivos. Eles são importantes e até o embasam através do que estuda e supervisiona. Mas ele precisará também ser uma espécie de músico que, intuitivamente, conhece os ritmos do que fala e do que cala, do que continua e descontinua.
Nada há de inédito aqui. Grandes estudiosos dos começos como Bernard Golse e o próprio Stern, na hora de descrever os processos iniciais, precisaram renunciar ao que haviam estudado cognitivamente como a psicanálise ou a psicologia do desenvolvimento. As duas e o que mais houvesse de teoria para tratarem do assunto não davam conta de descrever o que se passava, carnalmente, na vida nascente que observavam. Stern e Golse tiveram, então,que utilizar a arte e suas metáforas para descrever o que acontecia ali de verdade. Um falou da dança, e o outro, da música para dar conta da qualidade construtiva daqueles encontros.
Humildemente, falei da poesia e, passado o livro, defendo a ideia de que todo analista, terapeuta, amante, professor, ou quem quer que esteja disposto a encontrar o outro, precisará dominar a arte do ritmo como a que os poetas dominam para fazer os seus versos, essas linhas erráticas que não ocupam o tamanho inteiro da página, por precisarem estender ou diminuir para dar conta de expressarem um encontro afetivo com a palavra e a pessoa.
Pois é bem assim, com o poético da fala, do olhar e do toque de um sujeito que outro sujeito se faz.
Palavras-chave: começo da vida psíquica, arte e psicanálise, subjetividade
Imagem: livro do autor
Categoria: Cultura
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