Observatório Psicanalítico OP 673/2026 

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

 Ela existe. Isso basta.

Fauzi Palis Jr. – Sociedade Brasileira Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Em algum manuscrito que os compiladores de Alexandria não chegaram a catalogar, ou talvez numa das edições expurgadas que a história prefere esquecer, lemos que o primeiro medo humano não foi o do animal, nem o do relâmpago, mas o da presença de outro rosto que não fosse espelho. A autenticidade dessa passagem é discutível. O que não é discutível é que ela nomeia algo verdadeiro. E que esse algo verdadeiro chega, inevitavelmente, ao consultório.

Escuto mulheres que aprenderam a encolher. Que pedem desculpas pela própria competência. Que suavizam a inteligência para não provocar. Que passaram anos inteiros acreditando que ocupar espaço era já uma forma de agressão, que existir plenamente era um excesso pelo qual teriam de pagar. Do outro lado desse mesmo aprendizado está um homem que não aprendeu a encolher, mas aprendeu algo igualmente deformador: que o espaço é seu por direito, que a presença plena do outro é uma subtração, e que o que não reflete é o que ameaça. Esse aprendizado, nos dois, não veio do nada. Foi depositado, camada por camada, geração após geração, por uma fantasia muito antiga sobre o que o mundo deve ser e quem tem direito a habitá-lo inteiramente.

Proponho então uma hipótese que suspeito ser menos hipótese do que constatação: o ódio à mulher não é um fenômeno histórico. É uma constante metafísica que a história apenas veste e reveste com trajes sucessivos, sem jamais alterar a geometria interior. O que muda é o nome. O que não muda é a estrutura: o feminino existe, e essa existência é insuportável para uma organização do real que precisa, para permanecer intacta, que ela não exista completamente.

O leitor poderia objetar que falo de abstração onde deveria falar de brutalidade concreta. Responderia que a abstração e a brutalidade não se excluem. Em todo ato de violência existe uma cosmologia implícita, um modo de ordenar o universo segundo o qual certos seres têm direito à existência plena e outros não. A mão que golpeia não é apenas a mão de um homem. É a mão de uma ideia muito antiga.

Há aqui um paradoxo que merece atenção, porque os paradoxos, diferentemente das contradições, contêm sempre uma verdade comprimida: o ódio ao feminino é uma forma de reconhecimento. Só se odeia o que existe. O que não existe é simplesmente ignorado. Quando a violência se intensifica, quando os mecanismos de silenciamento se multiplicam, isso não significa que o feminino esteja recuando. Significa que avança a ponto de não poder mais ser ignorado. Na verdade nunca foi, era apena mascarado. O ódio é o tributo que o intolerável paga à existência do que não se consegue apagar.

Fala-se muito em reação, em backlash, como se a violência viesse depois do avanço, como punição corretiva. Essa cronologia é equivocada. A violência e a presença não se sucedem: são contemporâneas, pertencem ao mesmo instante, como a sombra e a luz pertencem ao mesmo corpo. O que chamamos de reação é o avesso do reconhecimento, o espelho que se recusa a refletir e, por isso, quebra.

O espelho. Volto a ele porque é a imagem que melhor captura a lógica em questão, e porque a encontro, com outras palavras, na clínica com frequência. Uma certa organização do desejo precisa do feminino como superfície especular, uma presença que devolva a imagem sem acrescentar nenhuma. Quando ela deseja, quando ela sabe, quando ela julga, o espelho ganha profundidade. E o que estava no espelho agora tem uma perspectiva própria, um ângulo irredutível. O espelho que ganhou profundidade deixou de ser espelho. Tornou-se sujeito. E o sujeito, para quem precisava do espelho, é uma ameaça sem nome preciso, que a clínica conhece bem: é a ameaça narcísica de quem descobre que o mundo não o reflete sem resto.

Nietzsche observou, em alguma das suas anotações mais desconcertantes, que se miramos demasiado o abismo, o abismo nos olha de volta. Não sei se pensava nas mulheres. Suspeito que não. Mas a frase descreve com precisão o terror em questão: o momento em que o outro, que foi tratado como ausência, como fundo sem fundo, começa a olhar de volta. Esse olhar não é hostil. É simplesmente o olhar de alguém que existe. E é exatamente por isso que é insuportável.

Existe. Essa é a palavra mais simples e mais perturbadora de toda esta reflexão. Não o que ela faz, não o que conquista ou reivindica. O simples fato de ser, de estar no mundo com a totalidade de uma presença que não pede autorização para ser total. Essa existência sem pedido de desculpas é, para uma certa organização do real, a transgressão mais radical de todas. E o que a violência tenta, sempre que irrompe, é devolvê-la à existência incompleta que se supunha ser o seu lugar natural.

O que testemunho na clínica e na vida confirma isso de outro ângulo, mais lento e mais profundo. A culpa que muitas mulheres carregam como se fosse própria não é própria, assim como a arrogância que muitos homens exibem como se fosse mérito não é mérito: ambas são formações do mesmo depósito, faces opostas de uma vergonha coletiva que nunca encontrou seu endereço verdadeiro, porque o endereço verdadeiro não é um gênero, é a fantasia que atravessa gerações e que ninguém, sozinho, fabricou, mas que todos, juntos, sustentam. Esse depósito não poupa ninguém: atravessa a tudo e a todos, institui culpas onde deveria haver perguntas, e devolve como vergonha pessoal e íntima o que pertence a uma fantasia coletiva. O trabalho de devolver o que não é seu, de distinguir o que se sentiu do que foi imposto sentir, de descobrir que existir sem culpa não é arrogância, é talvez o trabalho mais fundamental que a clínica conhece. E é também, fora dela, o trabalho mais urgente de uma sociedade que ainda não aprendeu a nomear o que fabrica em silêncio.

Não tenho uma conclusão reconfortante. A violência vai continuar enquanto o luto dessa ilusão não se fizer, e esse é um luto que, nenhuma política pública consegue fazer no lugar de cada sujeito, de cada geração que herda sem saber o que herda, de cada cultura que confunde tradição com verdade e de cada tempo que prefere o sintoma ao luto. Mas a psicanálise sabe que o luto que não se faz vira sintoma. O  sintoma que não se escuta vira ato.

Termino com uma pergunta que este ensaio não pode responder, mas que me parece a mais honesta que ele pode oferecer: como se faz o luto de uma fantasia que durou mais do que qualquer civilização viva? Não sei. Mas sei, pelo que escuto e pelo que o tempo nos mostra a contragosto, que o trabalho começa sempre no mesmo lugar: no momento em que alguém, finalmente, descobre que o espelho não precisa ser o único horizonte.

Palavras-chave: Existência, Alteridade, Ilusão, Espelho, Luto

Imagem: Not to Be Reproduced, 1937 Rene Magritte 

Categoria: Política e Sociedade; 

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Tags: alteridade | Espelho | Existência | Ilusão | luto
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