Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Eu não vim fazer um discurso*
Juliana Lang Lima – Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA)
Eu não vim fazer um discurso, porque ninguém mais aguenta discursos. Os homens não os suportam porque acham que falamos demais; as mulheres os desprezam porque querem e precisam de ações.
Eu não vim fazer um discurso porque amanhã é dia 8 de março, e não é dia de discurso, mas de luta. Só que, dito assim, dessa forma, corro o risco de esvaziar o significado dessa palavra tão bonita da língua portuguesa, que tem em sua versão masculina o oposto. Enquanto o luto remete ao recolhimento, a luta aponta para fora, e avança. Verdade seja dita, ambas as formas conversam com as mulheres.
Mas de que tipo de combate poderíamos falar daqui, detrás da tela de um computador? Lutar não seria, antes, um exercício de cidadania a ser feito nas ruas, com o corpo? Eu aposto que sim, e por isso convido a todos e a todas para se unirem às manifestações que acontecerão amanhã, em todo o país. Mas, enquanto psicanalistas, nossa arma é a palavra, e é dela que vou fazer uso para falar sobre um movimento importante que emergiu no meio psicanalítico.
Nos últimos dias, diversas denúncias de assédio, comportamentos violentos e misóginos vieram a público. As acusações partiam de psicanalistas mulheres, em direção a homens que as teriam importunado na condição de orientandas, supervisionandas, pacientes e companheiras. Talvez possamos nos acalmar quando pensarmos que “…Ufa! nenhum caso que veio à tona envolve colegas da IPA. Estamos livres desse mal!”. Mas sabemos que não é bem assim que a banda toca.
Como esse texto não se propõe a uma caça às bruxas, vamos nos deter em alguns pontos colaterais. Uma das colegas faz uma provocação importante e contundente: a quem dirigir uma denúncia, em caso de assédio ou conduta antiética? Ora, uma vez que a psicanálise não possui regulamentação, não contamos com um conselho de classe, regulador da atuação profissional. Nesses casos, poderíamos supor que a instituição seria um espaço para o recebimento e averiguação de tais denúncias, conservando a tarefa de encaminhar a um comitê de ética. Infelizmente, para muitos casos dos quais se tem conhecimento, a resposta acaba sendo semelhante: não deu em nada.
Mas os anos passam, a cultura muda, e eu gostaria de evitar um tom queixoso e desesperançoso sobre esse tema. Se na época de Freud nenhuma advertência foi feita a Jung e Ferenczi, para citar apenas dois dos casos de que se tem conhecimento, nos dias de hoje é possível que as instituições estejam mais atentas a expressões extremas de relações de poder. Passemos, então, para outro tópico.
Somos muitas mulheres no meio psicanalítico. Busquei dados oficiais da FEBRAPSI para a escrita desse texto, a fim de ilustrar numericamente essa realidade, mas não obtive. Ainda assim, observando as atividades científicas que costumo frequentar, bem como o quadro societário das instituições que compõem a federação, arrisco que somos, pelo menos, 70% – em alguns espaços, nitidamente mais do que isso.
Interessante perceber que essa proporcionalidade raramente é respeitada nos eventos científicos, com momentos de fala distribuídos dessa mesma forma. Em lugar disso, o que vemos, comumente, é uma presença maior de homens em posições de destaque, o que destoa em relação à plateia. Será que, tantos anos depois, as mulheres ainda seguem mais como ouvintes do que como enunciadoras de teoria?
Eu poderia também complexizar a discussão e perguntar para meus colegas homens se eles estudam com colegas mulheres, se as leem, se as procuram para supervisionar, se indicam pacientes para ela. E, obviamente, todos responderão que, sim, lógico, são homens abertos, progressistas, não estão interessados em uma guerra dos sexos. Pois bem, eu também não estou. Mas confesso que andei um pouco raivosa ultimamente, diante de notícias como estupro coletivo a adolescente, mais de 20 feminicídios cometidos no Rio Grande do Sul neste ano, e os 947 feminicídios que ocorreram somente no mês de janeiro, no país.
Movida por certos incômodos, resolvi fazer uma conta de padaria. Consegui identificar três colegas homens que me indicaram pacientes, em vinte anos de clínica psicanalítica. Supervisionandos homens, tive dois. Participantes homens em seminário, um. Em grupos de estudo, nenhum.
Mas, sei lá, talvez esses dados não importem tanto assim, afinal, são muito particulares. Talvez seja só comigo que isso aconteça, mas, para o caso de não ser, eu convido os/as colegas a deixarem os discursos de lado e partir para a ação.
Nota da autora: *uma alusão à coletânea, de mesmo nome, que reúne vinte e um discursos de Gabriel García Márquez
Palavras-chave: 8 de março, machismo, misoginia, assédio violência contra a mulher
Imagem: site Freepik
Categoria: Política e Sociedade; Instituição Psicanalítica
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