
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
“É preciso estar atento e forte.”(*)
Carlos Eduardo de Souza – Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro
Para Manoel Neto, um jovem amigo psicanalista que não conheci… (Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2026)
Ainda que saibamos que os festejos de Carnaval continuarão até domingo, posso dizer que o Carnaval acabou. E não terminou porque você queria pois, pelo pouco que conheci de você, gostava muito da festa e parece ter aproveitado muito esse Carnaval que recém terminou. Mas aproveitou “dentro de contornos possíveis” como você disse em sua entrevista para Gabriela Moura no seu canal do YouTube.
Percebo que aqui naturalmente escrevo em forma de carta pra você e para os amigos do Observatório Psicanalítico e nesse momento me vem partes de versos da letra de uma música de Milton Nascimento que o subtítulo é “Carta a um jovem ator”.
“Se um dia a gente se encontrar…
E se a gente se falar contar as coisas que viveu
o que esperamos do amanhã
será que pode acontecer…?
Queria que fosses feliz
uma água calma a inundar
a sua margem de carinho
um peito aberto a quem chegar…”
As águas não foram calmas para você como o desejo da música do Milton, pelo contrário foram muito turbulentas, mas pelo que sei do seu trabalho como psicanalista a sua margem de carinho era de peito aberto, a quem chegar. Os filmes de River Phoenix, para quem Milton Nascimento endereça sua carta canção, acabaram coomo os seus carnavais.
Acabaram?
“Stand by me”, filme estrelado por River Phoenix, está disponível para quem quer se conectar sobre o que é amizade e amadurecimento.
E você, meu amigo?
Você, só numa entrevista ao abordar o seu capítulo intitulado “Entre a cor e a palavra, articulações sobre o racismo e sua dimensão significante ” (publicado na obra “Sob Tempestade, segregação e palavra porvir”) nos disse muita coisa:
O artigo, tratado na entrevista, parte da ideia de que a cor da pele, por si só, não carrega um significado natural. Embora seja um dado visível do corpo, ela só adquire relevância social quando é nomeada e inserida em uma rede de significações. A cor, portanto, não é apenas um elemento biológico: ela se torna um operador simbólico. É nesse ponto que o racismo emerge — não simplesmente da diferença física, mas da articulação entre corpo e linguagem.
Para Lacan, o sujeito não existe fora da linguagem. Ele é constituído a partir de significantes que o precedem. Isso implica que ninguém escolhe inicialmente os nomes e categorias que o definem; ao contrário, cada um é inscrito em uma ordem simbólica já estruturada. Nesse sentido, termos como “negro” e “branco” não funcionam apenas como descrições cromáticas, mas como significantes que organizam posições sociais, expectativas, valores e hierarquias. Eles operam como marcadores que distribuem lugares no laço social.
O racismo, então, não pode ser reduzido a um conjunto de atitudes preconceituosas individuais. Ele é uma estrutura simbólica que antecede o sujeito e molda sua inserção no mundo. O corpo racializado torna-se, muitas vezes, um signo antes de ser reconhecido como singularidade. O sujeito é capturado pelo significante racial antes de poder se apresentar a partir de sua própria narrativa. Essa captura produz efeitos psíquicos específicos: alienação, identificação forçada, tensão entre imagem corporal e reconhecimento social.
O artigo também aponta que o racismo se sustenta não apenas em práticas explícitas de discriminação, mas na própria organização do laço social. Ele participa da definição de quem ocupa o lugar do ideal, de quem é considerado universal, neutro ou desejável, e de quem é situado como diferença, desvio ou ameaça. Trata-se, portanto, de uma engrenagem simbólica que estrutura relações sociais de forma profunda e muitas vezes invisível.
Um ponto central da argumentação é que o racismo possui uma dimensão inconsciente. Mesmo quando não se manifesta em atos declaradamente racistas, ele pode operar através de associações automáticas, imagens sedimentadas culturalmente e fantasias sociais que circulam na linguagem cotidiana. O racismo não está apenas no que se diz explicitamente, mas na rede de sentidos que sustenta o que parece “natural” ou “evidente”.
O título “Entre a cor e a palavra” sugere exatamente esse espaço de constituição: é no intervalo entre o corpo visível e o nome que lhe é atribuído que a diferença se transforma em hierarquia. A cor é um dado sensível; a palavra é o que lhe confere valor social. Sem a inscrição simbólica, a diferença corporal não se converteria automaticamente em desigualdade. É a palavra que organiza o campo de significações que sustenta o racismo.
Desse modo, o racismo aparece como efeito estrutural da forma como a linguagem distribui posições e produz sentidos. Combatê-lo, embora isso seja importante, não implica apenas modificar comportamentos individuais ou legislações , mas também interrogar os significantes que organizam a percepção social dos corpos. Trata-se de deslocar a estrutura simbólica que transforma diferença em inferiorização.
Muita contribuição você deixou com seu estudo extraído dos livros e também de suas vísceras. Daí a força:
“… eu entendi que não é sobre a minha qualificação profissional que se trata, né? Para cada gota de sangue uma palavra pra por no papel. É o meu compromisso! Eu não tô fazendo psicanálise porque eu quero receber a carteirinha de psicanalista. Eu tô fazendo psicanálise porque eu acho que a Psicanálise é a melhor ferramenta que eu tenho para fazer alguma coisa nesse mundo. E veja, eu não sou um santo, eu só quero sobreviver. E para fazer isso eu vou dar o que eu tenho e eu trabalho estudando. É isso que eu vou fazer.”
Mas é impossível deixar de destacar o momento dessa entrevista onde você se revela num “Bate bola” feito pela entrevistadora:
– Por que a Psicanálise?
– Porque ela me mostrou o que não era óbvio.
– Uma mulher na psicanálise?
– A Isildinha, a Isildinha. Ela me lembra a minha mãe.
– o que você pode falar sobre a Psicanálise no Nordeste?
– Resistência, Resistência, Resistência
– Um livro?
– “Becos da Memória” de Conceição Evaristo. É um soco.
– O futuro da Psicanálise no Brasil?
– Acho que a gente vai renovar a Psicanálise, acho que a gente vai fazer uma psicanálise outra… Eu acho que o Brasil vai arejar a Psicanálise.
– O que você diria para quem tá iniciando na psicanálise?
– Que eles não estão sozinhos, que a Psicanálise é uma teoria complexa, o campo é bastante árido em alguns momentos mas tem muita gente boa disposta a fazer uma boa psicanálise…Quem tá começando agora, fala junto, a gente vai junto, não tem pressa, não tem desespero, vamos juntos. É uma caminhada para longo prazo. Tem começo mas não tem fim. Quem tá começando vem chegando, entra na roda! De preferência uma roda de samba!
E talvez essa roda de samba que conecte a sua Bahia à minha Madureira. Ambas visibilizadas, muitas vezes na forma de clichês, nas suas versões festivas mas invisibilizadas e silenciadas em tantos outros aspectos de sua riqueza. No Carnaval você viu a sua Bahia mas muitos de nós não te vimos e, para você, na maior parte do tempo, foi assim, tanto que não te conhecia.
Algo não pode me escapar: no seu ambiente onde você dava entrevista havia uma placa: “É preciso estar atento e forte”
E você foi atento e forte até o seu final/começo!
E para todos: Atenção para o refrão!
Um abraço, meu amigo.
*Manoel Neto antes de ser encontrado sem vida usou suas redes sociais para denunciar o racismo que sofreu no camarote Ondina, no circuito Dodô, durante o Carnaval. No seu depoimento relata que um homem branco impediu sua passagem enquanto se deslocava no espaço próximo aos camarotes (estava com dois copos na mão) mesmo depois de ter pedido para passar algumas vezes.
Referência:
MOURA, Gabriela. Racismo e sua dimensão significante com Manoel Neto. YouTube, Disponível em:https://youtu.be/
NETO, Manoel. Racismo e sua dimensão significante. In: AZENHA, Conceição Aparecida Costa; LEITE, Nina Virgínia de Araújo; AIRES, Suely (orgs.). Sob tempestade, segregação e palavra porvir.: Mercado de Letras, 2025.
Palavras-chave: Racismo mata
Imagem: “Pierrot Triste” – Christian d’Espic. (1901-1978)
Categoria: Cultura; Vidas Negras Importam
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