
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Entre o Samba e o Poder: Festa, Narcisismo e Prudência na Política Democrática do Carnaval
Avelino Neto – Sociedade de Psicanálise de Brasília (SPBsb)
Como todos, penso que o prazer e a alegria são bem-vindos. O Carnaval não celebra apenas a carne; alivia a alma. Contudo, temo o que aqui chamo de “política festiva”. Há algo de profundamente civilizatório no riso coletivo.
O Carnaval, essa suspensão ritual da ordem, não é mero delírio da carne; é um intervalo simbólico no qual o sujeito, esmagado pelo cotidiano, respira. A máscara não encobre apenas o rosto: ela permite que algo do indizível encontre forma. Durante alguns dias, a lei parece afrouxar, o supereu moralista cochila, e o corpo, tantas vezes disciplinado, dança. Nada contra isso. Ao contrário. Desde a Roma antiga até os blocos de rua contemporâneos, as festas populares funcionam como válvulas de escape.
Freud, em O mal-estar na civilização, já intuía que a cultura exige renúncias pulsionais dolorosas. Se assim é, toda cultura necessita também de dispositivos de compensação. O Carnaval é um deles: uma economia psíquica da descarga. Mas é justamente aí que se insinua minha inquietação.
O problema não é a festa. O problema é quando a festa se torna programa político. A “política festiva”, expressão talvez mais precisa do que provocativa, não designa a celebração legítima da alegria popular. Designa a transformação da política em performance contínua, em espetáculo catártico no qual a indignação vira coreografia e a crítica se dissolve em slogan.
O risco não é rir. O risco é substituir a elaboração pela euforia.
A política exige conflito, trabalho de luto, enfrentamento da realidade, nclusive da própria impotência. Quando tudo se resolve em palavras de ordem cantadas, quando o engajamento se mede pela vibração da multidão e não pela densidade da análise, algo escapa: o real. E o real, sabemos, retorna.
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud descreveu como o indivíduo, imerso na massa, relaxa suas inibições e se identifica com um ideal comum. A massa produz coesão, mas também regressão. O supereu individual é substituído por um ideal compartilhado que simplifica o mundo em amigos e inimigos.
A festa política pode funcionar como essa massa efusiva: aquece, une, entusiasma, mas pode também anestesiar. O gozo da pertença substitui a angústia da responsabilidade. Em termos clínicos, poderíamos dizer: quando a política se reduz à exaltação, aproxima-se da defesa maníaca. A alegria não como elaboração do sofrimento, mas como negação dele. Não como travessia do luto, mas como recusa da perda. A defesa maníaca, sabemos, protege do desamparo, mas também impede o pensamento.
A tradição filosófica já reconhecia a tensão estrutural entre Dioniso e Apolo. A embriaguez coletiva pode tanto revigorar a comunidade quanto dissolver sua capacidade deliberativa.
Cabe aqui um alerta histórico que não pode ser esquecido. Em 1964, setores da chamada família tradicional católica, organizados, entre outros, na Tradição, Família e Propriedade (TFP), foram às ruas pedir intervenção militar, legitimando o que se converteria em golpe de Estado e longa noite autoritária. A mobilização também tinha traços festivos: procissões cívico-religiosas, palavras de ordem moralizantes, uma estética de pureza ameaçada. A massa, aquecida por um ideal supostamente redentor, ofereceu respaldo simbólico à ruptura institucional.
Hoje, a esse imaginário soma-se um segmento do movimento evangélico de perfil igualmente reacionário, por vezes ainda mais radicalizado em sua retórica moral e escatológica, que transforma fé em plataforma política e antagonismo em identidade. Também aí encontramos a lógica da massa: promessa de salvação, simplificação do mundo em eleitos e inimigos, recusa da mediação institucional.
Não se trata de equiparar campos políticos distintos, mas de reconhecer uma estrutura psíquica recorrente: quando a política se confunde com redenção moral e exaltação coletiva, o pensamento crítico se enfraquece e a tentação autoritária se aproxima.
A democracia requer algo mais árduo do que entusiasmo: requer instituições, mediações, frustrações toleradas. Requer aceitar que o outro – inclusive o adversário – não desaparecerá com um grito bem ritmado.
Quando qualquer campo político aposta apenas na estética da celebração, corre o risco de abandonar a ética da responsabilidade. A festa mobiliza; a construção institucional exige persistência, paciência e, por vezes, silêncio.
Há ainda outro perigo, mais sutil: o gozo moral. A alegria coletiva pode vir acompanhada de uma sensação de superioridade ética. “Somos os que dançam do lado certo da história. Somos os que celebram a diversidade, a inclusão, a justiça.”
Nada contra isso. Mas quando a identidade política se converte em marca narcísica, a alteridade real, com suas ambiguidades, torna-se intolerável. O dissenso vira traição. A crítica interna, heresia. A “política festiva”, nesse ponto, corre o risco de repetir aquilo que combate: a lógica da exclusão.
Alegria, sim. Ilusão, não.
Não se trata de defender uma atuação política triste, sisuda ou ascética. A alegria é potência política. Mas há diferença entre alegria e euforia. A alegria que nasce da elaboração suporta o conflito. A euforia que nasce da negação precisa de inimigos constantes para se manter acesa.
Talvez o desafio contemporâneo seja integrar o Carnaval à política sem transformar a política em Carnaval permanente. Preservar a potência da festa sem perder a gravidade do real.
Nada contra o prazer e a alegria. O Carnaval alivia a alma.
Mas a construção do comum exige mais do que alívio: exige trabalho psíquico, trabalho institucional, trabalho histórico.
Toda escola de samba tem o direito de homenagear o que e quem quiser. Faz parte do espírito cívico, da liberdade estética e da tradição crítica que marca o Carnaval brasileiro. A festa popular nunca foi neutra; comenta o poder, ironiza, exalta, denuncia. Isso é legítimo.
Contudo, um presidente da República – ainda que lidere as pesquisas, mesmo que por margem apertada, em pleno ano eleitoral – dar aval a uma homenagem a si próprio é outra coisa. A assimetria institucional pesa. O gesto deixa de ser apenas cultural e passa a adquirir densidade estratégica. Politicamente, pode soar como apropriação simbólica do espaço popular; eticamente, como flerte com a autopromoção; psicologicamente, como sinal de confiança excessiva no calor da massa.
E a massa aquece, mas também inflama.
Ao aceitar tal homenagem, o governante não apenas se expõe: entrega-se, e entrega o país, aos dentes afiados da oposição. Em contextos polarizados, cada imagem vira munição. A festa transforma-se em prova; o samba, em peça de campanha involuntária. O que poderia ser celebração converte-se em narrativa acusatória. Pode, inclusive, custar caro nas urnas. Não falta quem queira atear fogo à nossa democracia.
A política democrática exige não apenas entusiasmo, mas prudência simbólica. Nem tudo o que é legítimo culturalmente é prudente institucionalmente. A fronteira entre reconhecimento popular e capitalização eleitoral é tênue e, em tempos de radicalização, facilmente atravessada.
A “política festiva”, quando confunde aclamação com consolidação, corre o risco de transformar potência em vulnerabilidade. A festa é força. Mas o poder precisa saber quando sorrir e quando recusar o espelho.
Palavras-chave: carnaval, festa popular, democracia, política, Dioniso e Apólo
Imagem: Montagem de imagens dos deuses Dionísio e Apolo
Categoria: Cultura
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