Observatório Psicanalítico OP 667/2026

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Entre risco e invenção: a editoria como gesto psicanalítico 

Lúcia Palazzo e Tiago Mussi – Sociedade  Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) 

Inicialmente, agradecemos a Beth Mori e às colegas da curadoria do Observatório Psicanalítico pela oportunidade de anunciar, aqui, o lançamento da Revista Trieb – Colapso, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). A pergunta de Beth sobre os desafios da editoria de uma revista psicanalítica nos convoca a uma reflexão que dificilmente se deixa encerrar. Editar uma revista de psicanálise é lidar com uma escrita que não se separa da ética que a sustenta: uma escrita que se faz na relação com o outro, na escuta da diferença, na convivência entre pensamentos heterogêneos e vozes oriundas de diversos campos do saber. Trata-se de sustentar um espaço onde a transmissão do legado psicanalítico se entrelaça, necessariamente, com o debate das questões contemporâneas que insistem em nos interpelar. Há um projeto, um horizonte, mas o percurso editorial permanece sempre parcialmente imprevisível: depois do tema, vêm os encontros e desencontros com autores, as leituras, as avaliações, as revisões, as escolhas de forma e de imagem, a arte, a capa, a circulação, os lançamentos. Um trabalho feito de camadas, muitas delas invisíveis, até que o número encontre sua forma. Manter uma revista psicanalítica é, nesse sentido, apostar na revista como lugar de pensamento em movimento, como marca de uma palavra que não se acomoda, que interroga, inquieta e, ao fazê-lo, resiste ao já dado.

Essa concepção do trabalho editorial como gesto ético e político não se construiu de forma isolada. Há alguns anos, participamos da equipe editorial da Revista Calibán – FEPAL, experiência que marcou profundamente nosso modo de pensar e sustentar uma publicação psicanalítica comprometida com o contemporâneo. Editar, ali, era conviver de perto com a possibilidade do colapso — financeiro, institucional, simbólico — e, ainda assim, sustentar o desejo de fazer existir um espaço comum de pensamento. Mais do que um antecedente, essa travessia nos ensinou que uma revista não se mantém pela solidez de suas estruturas, mas pela capacidade de atravessar momentos de tensionamento sem recuar da aposta na palavra e no laço. A recente atribuição do Sigourney Award 2025 à Calibán reconhece um trabalho que foi, antes de tudo, uma experiência de insistência coletiva: a de muitos analistas da América Latina que, diante de cenários adversos, escolheram não silenciar, mas reinventar modos de circulação das ideias. O grupo de Calibáns em conexão fez do risco um operador de criação, apostando numa psicanálise implicada com o mundo e consciente de que editar é sempre trabalhar à beira — quando o chão vacila, quando não há garantias. Talvez seja essa a afinidade mais profunda entre Calibán e Trieb: sustentar, no campo editorial, um espaço de criação onde o pensamento possa emergir. Trabalhar sob o signo da instabilidade e do risco não é apenas uma contingência do ofício, mas um modo de estar no mundo e de responder, pela psicanálise, aos impasses do tempo presente. Não por acaso, foi desse solo — atravessado por inquietações clínicas, sociais e políticas — que se impôs, quase como uma necessidade, o tema que orienta este número.

Sobre o tema

O tema Colapso surgiu em nossa reunião de equipe, onde ficou evidente a preocupação com as dificuldades atuais que a humanidade enfrenta, seja na vida privada ou no âmbito social, econômico e político. Para Thomas Ogden, o “Medo do colapso” (1974), ou “Fear of breakdown” em inglês, escrito no último ano de vida de Winnicott e publicado postumamente, é seu último grande trabalho. Logo nas primeiras páginas do artigo, vemos claramente que o autor de “O brincar e a realidade” acreditava ter chegado a alguma compreensão fundamentalmente nova para ele e importante para ser comunicada antes de morrer (Ogden, 2016). Assim, ele recria o sentido de palavras comuns a ponto de desestabilizar o leitor, a começar pelo nome: “Usei de propósito o termo ‘colapso’ porque é bastante vago e porque pode significar várias coisas” (1974, p. 104).

Algumas questões foram levantadas a partir desse trabalho, mas que infelizmente não tiveram tempo de ser estudadas em profundidade nem puderam ser melhor descritas, como destaca Clare Winnicott na nota que acompanha a publicação do artigo (Winnicott, 1974). Não apenas questões tais como: se o colapso é uma ruptura da psique (ou do status da unidade) ou como o colapso se instala no futuro na forma do “medo do colapso”, mas também na sua concepção como campo essencialmente transicional. Se por um lado o colapso pode significar desmoronamento, bem como seus avatares de destruição e ruína, ele pode, por outro lado, possibilitar de maneira criativa novas formas e configurações.

A partir dessas veredas entreabertas por Winnicott – que deslocou o eixo do conflito pulsional intrapsíquico para a relação entre o bebê e seu ambiente, estabelecendo assim o ambiente facilitador como condição de possibilidade do vir-a-ser –, propomos pensar o colapso em sentido mais amplo. Na nossa clínica, assistimos a um colapso generalizado dos símbolos, da capacidade de rêverie, de tecer ficções e narrativas, de criar e manter vínculos, a matéria mesmo da psicanálise (Nosek, 2025). As crises humanitárias que atravessamos, as guerras em vários territórios, bem como as crises climáticas e do meio ambiente que ameaçam a nossa existência, assuntos que certamente ocupariam a atenção de Winnicott, e que muitas vezes insistimos em negar, são sintomas de quanto o colapso precisa ser urgentemente problematizado.

Será que estamos à beira de um abismo? Como a psicanálise pode se reinventar a partir de questões traumáticas que incidem na subjetivação de cada sujeito, desvendando as raízes do ódio na cultura, no psiquismo, nas relações institucionais, como por exemplo o racismo e a colonização do pensamento e do ser? O campo da psicanálise é o campo do mal-estar, compreendido nas dimensões intrapsíquicas, intersubjetivas e no campo social, patriarcal-colonial, neoliberal e político. Portanto, não são temas periféricos, mas centrais para o desenvolvimento do pensamento psicanalítico contemporâneo.

Trieb Colapso

Este número começa com uma bela pintura do artista Walter Goldfarb, nascido no Rio de Janeiro em 1964, cidade onde vive e trabalha. Sua produção é marcada pelas telas de grandes dimensões e técnicas incomuns. A imagem da capa, “A morte dos sem-culpa” (2001), exposta atualmente no Nader Art Museum Latin America (NAMLA), em Miami, é inspirada no trabalho “The massacre of the innocents”, de Cornelis van Haarlem (1591), do acervo do Museu Frans Hals. A pintura original retrata o horrível massacre de Belém, perpetrado por ordem do tirano Rei Herodes, numa tentativa de assassinar o recém-nascido Menino Jesus. Numa composição assombrosa, os soldados do exército de Herodes agarram os bebês indefesos, enquanto suas mães tentam em vão salvar seus filhos e são brutalizadas pelos homens.

A partir dessa releitura, os textos temáticos em resposta à carta-convite nos trazem desde autores que irão se debruçar sobre os primórdios da vida psíquica e do arcaico, como o psicanalista francês e professor de psiquiatria da infância e adolescência da Université Paris Cité Bernard Golse, passando por autores que irão privilegiar a clínica, mas igualmente a literatura, o cinema e a fotografia. É o caso, por exemplo, dos psicanalistas Miguel Calmon, onde o eu se constitui como ficção precária em vez de uma essência, e Maria Inês Lamy, onde o trabalho de invenção é a resposta possível a um trauma, e também do artista multidisciplinar Aldene Rocha, que propõe a perda e o luto como gestos da criação.

Jairo Carioca reivindica uma escuta ético-política que sustente o mal-estar e o colapso como espaços de verdade e resistência, como também desenvolve uma crítica à equidade neoliberal e à coerência fantasmática do discurso. Beth Mori discute o que pode a psicanálise diante do colapso: oferecer dispositivos de elaboração e sustentar a travessia subjetiva e coletiva em tempos de ruptura. Lia Motta chama nossa atenção para a ameaça que assombra o patrimônio cultural brasileiro. Bruna Bortolozzi Maia e Gabriel Inticher Binkowski falam do colapso climático e psicanalítico. Kadichary Ivassaki comenta sobre o colapso nas instituições, como a escola, a justiça e a assistência social. Augusta Gerchmann nos fala sobre estigma, preconceito e alienação. Pedro Cattapan nos dá notícias da clínica psicanalítica da velhice, atravessada pelo sofrimento melancólico e pelo enrijecimento dos investimentos libidinais.

Michelle Gorin comenta sobre o feminino e a renúncia. Fernanda Ribeiro Palermo se debruça sobre o colapso no casal. Liana Albernaz de Melo Bastos propõe uma revitalização da psicanálise através de inovações que estejam presentes na formação psicanalítica, possibilitando a democratização da psicanálise. Julio Cezar Braga reflete sobre o colapso a partir do espaço transicional entre a psicanálise e o direito.

Os testemunhos que compõem este número deslocam a psicanálise de uma posição de observadora distante para recolocá-la no campo do laço social. Diante da violência perpetrada pela PM do Rio de Janeiro no massacre do Complexo do Alemão e da Penha, os textos – entres eles os de Joel Birman e o de Wania Maria Coelho Ferreira Cidade – interrogam os efeitos clínicos e simbólicos de uma necropolítica que atravessa o cotidiano, produzindo trauma, desamparo e silenciamento. São escritos que exigem do leitor não apenas reflexão, mas implicação.

Nas Entrevistas, trazemos as experiências criativas das analistas Cristiane Blaha (do projeto da SBPRJ Estamos Ouvindo), Patrícia Goldfeld (Ação Emergencial Enchentes 2024, prêmio IPA 2025 na Comunidade e no Mundo: Clima) e Alicia Beatriz de Lisondo (SOS Brasil) frente aos desafios e catástrofes ambientais.         

Na seção dedicada aos analistas em formação, o enfant terrible André Luiz A. Vale interroga uma norma silenciosa da formação psicanalítica – a exigência de dois casos oficiais, um homem e uma mulher – como sintoma de um colapso que não é apenas institucional, mas conceitual. Ao colocar em suspensão a evidência do binarismo de gênero, o autor convoca a psicanálise a sustentar o desconcerto: aquilo que, ao ruir, abre a possibilidade de repensar a formação, a transferência e o próprio estatuto da diferença. Mais do que responder, o texto insiste em manter viva a pergunta, fazendo do colapso não um fim, mas uma condição de pensamento.

Este número traz também as resenhas da crítica de cinema Susana Schild sobre O agente secreto, filme de Kleber Mendonça Filho, estrelado pelo ator Wagner Moura, que faturou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes deste ano e está cotado para concorrer ao Oscar por sua atuação, e a da psicanalista Samantha Nigri sobre o comovente romance Devastação de José Castello.

Terminamos com uma homenagem à nossa colega Celmy Quilelli Corrêa, que contribuiu para a formação de muitos de nós, seja como analista, colega ou supervisora. Ela saberia, ainda hoje, responder ao colapso que nos cerca com a criatividade e espontaneidade de um gesto vivo – sinal inequívoco, diria Winnicott, de que o ser continua.

Ao vencedor, a palavra: psicanálise e colapso

Se essas questões se impõem como centrais, é porque o colapso não se apresenta apenas como um acontecimento externo ou excepcional, mas como um modo de funcionamento que atravessa a cultura, as instituições e os próprios modos de subjetivação. Estar à beira do abismo não é apenas uma metáfora do tempo presente, mas uma condição que exige da psicanálise uma posição: sustentar o mal-estar sem apaziguá-lo, interrogar as formas de ódio e de segregação sem reduzi-las a explicações simplificadoras, e insistir na criação de espaços onde o pensamento possa resistir à captura, à colonização e ao silenciamento. É nesse ponto que o trabalho editorial se encontra com o trabalho analítico: ambos se fazem na tensão entre ruína e invenção, ali onde não há garantias prévias, mas ainda assim se aposta na palavra como laço.

Diante desse cenário, talvez caiba à psicanálise — e aos espaços editoriais que a sustentam — não a ilusão de restaurar uma harmonia perdida, mas a tarefa mais modesta e mais radical de não recuar diante do conflito. Machado de Assis, em “Quincas Borba”, nos lembra com cruel lucidez que, em tempos de escassez, a paz pode se confundir com a destruição, e a sobrevivência, com a violência: “A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. (…) Ao vencedor, as batatas!”. Evocar esse paradoxo não significa endossar o cinismo do Humanitismo, mas reconhecer que o colapso expõe escolhas éticas incontornáveis. Editar uma revista psicanalítica hoje talvez consista exatamente nisso: recusar soluções apaziguadoras, sustentar a tensão entre desmoronamento e criação e apostar que, mesmo quando tudo parece prestes a ruir, a palavra ainda pode abrir um espaço de resistência e de invenção do comum.

Boa leitura!

P.S.: O número Colapso já está disponível on-line no site da SBPRJ. https://www.sbprj.org.br/revista-trieb

Equipe editorial Ano 2025

Editores: Lúcia Palazzo e Tiago Mussi

Colaboradores: Cidiane Vaz Melo, Claudio Frankenthal, Daniel Senos, Evelyze Louzada, Maria Inês Tornaghi Grabowsky F. Basto e Otelo Corrêa dos Santos Filho

Referências

Machado de Assis, J. (2012). Quincas Borba. Penguin-Companhia.

(Livro publicado originalmente em 1891)

Nosek, L. (2025). O método Marlow: estudos indisciplinares em psicanálise. Perspectiva.

Ogden, T. H. (2016). Fear of breakdown and the unlived life. In T. H. Ogden, Reclaiming unlived life: experiences in psychoanalysis (pp.47-69). Routledge.

Winnicott, D. W. (1974). Fear of breakdown. International Review of Psychoanalysis, (1): 103-107.

Palavras-chave: colapso, mal-estar, laço social, equidade, ética editorial.

Imagem: A morte dos sem-culpa [inocentes] / The Death of the

Innocents (2001), Walter Goldfarb/ Coleção: Nader. Art Museum Latin America (NAMLA), Miami, EUA.

Categoria: Instituição Psicanalítica

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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Tags: Colapso | equidade | ética editorial | laço social | mal-estar
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