Observatório Psicanalítico OP 666/2026 

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Medeia hoje? Tragédia, intolerância à perda e a hipótese do machismo estrutural

Ana Patrícia Rosa Ribeiro – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e Núcleo de Psicanálise de Uberlândia (NPU) 

“Sei muito bem que estou prestes a cometer um crime; mas a paixão é mais forte do que minha razão” (Eurípides, Medeia)

Uma mulher traída, tomada pela dor e pela impossibilidade de aceitar a perda, prepara um gesto extremo. Abandona sua terra por amor, vê ruir a imagem de si quando o amado parte para outra união e, sem encontrar palavra para a dor, encontra o ato. Envia à nova esposa um presente que se transforma em morte. No ponto mais lancinante da tragédia, volta-se contra os próprios filhos para atingir o homem que a abandonou.

Essa história poderia ter saído nos jornais de hoje. Mas foi escrita há mais de dois mil anos. É a tragédia de Medeia. Ainda assim, entre o mito e o noticiário, a distância por vezes se encurta de forma perturbadora. Em uma manchete recente, lê-se: 

“Homem publica em rede social mensagem sobre separação conjugal, atira contra os dois filhos, mata um deles e tira a própria vida; criança de 8 anos segue em estado gravíssimo.”

Não se trata de equiparar histórias singulares, mas de reconhecer que certos estados psíquicos descritos pela tragédia continuam a aparecer na vida contemporânea. Quando a perda amorosa é vivida como aniquilação, quando a humilhação narcísica não encontra simbolização, o pensamento pode colapsar e o ato surgir como descarga. 

No mito de Medeia, a traição de Jasão não é apenas abandono amoroso: é vivida como destruição do próprio ser. Aquela que havia colocado tudo a serviço do amado vê ruir a própria identidade. Quando a perda não pode ser elaborada como luto, transforma-se em ferida narcísica devastadora. A destruição dos filhos visa atingir o outro no ponto mais vital, instaurando uma equivalência mortífera: que ele sofra a dor que ela sofre.

A psicanálise descreve esses estados como marcados por baixíssima tolerância à frustração e falhas na capacidade de simbolizar a dor. Bion destacou que o pensar nasce da tolerância à frustração; quando esta não pode ser transformada em pensamento, tende a ser evacuada. Em colapsos transitórios do funcionamento psíquico, a perda do objeto é vivida como catástrofe interna. O objeto amado pode se transformar em perseguidor e o ataque ao outro, ou a si próprio, surgir como tentativa desesperada de expulsar uma dor insuportável.

Nesses cenários, o narcisismo pode assumir tonalidade mortífera e organizar-se em lógica de tudo ou nada: se não sou amado, não existo; se fui humilhado, o mundo deve ser destruído. A violência aparece não como expressão de força, mas como sinal de falência da capacidade de pensar a dor. 

Também é necessário considerar o entrelaçamento entre funcionamento psíquico e contexto cultural. Ideais de masculinidade que associam valor à posse, ao controle e à impossibilidade de ser abandonado podem intensificar a vivência de humilhação narcísica diante da perda amorosa. Em determinados imaginários, a ruptura amorosa não é apenas separação: torna-se ferida na honra, no poder, na identidade. Quando a cultura oferece poucos recursos simbólicos para lidar com a vulnerabilidade e a perda, a dor pode ser vivida como intolerável. Trata-se de uma hipótese que pede reflexão cuidadosa.

Diante de acontecimentos tão dolorosos, a psicanálise busca preservar a possibilidade de pensar o impensável. O mito de Medeia continua a nos interpelar porque dramatiza a possibilidade de que o amor, invadido por narcisismo ferido e intolerância radical à frustração, se converta em destruição. Pensar essas tragédias é também afirmar a importância de fortalecer, na clínica e na cultura, a capacidade de elaborar perdas, tolerar a dor e reconhecer o outro como separado.

Se, na tragédia, Medeia reconhece que a paixão pode ser mais forte que a razão, a psicanálise aposta em ampliar a capacidade de pensar a dor antes que ela se transforme em ato. Entre o mito antigo e as notícias que nos inquietam, permanece a aposta de que a palavra possa surgir antes do gesto sem retorno: no mito, o fogo, na atualidade, os tiros fatais!

Nos desdobramentos posteriores à escrita deste ensaio, tomo conhecimento de que o filho que permanecia internado em UTI também faleceu. A tragédia, anunciada previamente pelo pai em postagem nas redes sociais, passa a ser acompanhada por outro movimento igualmente perturbador: a mãe das crianças vem sendo intensamente julgada e responsabilizada nas redes, acusada de ter provocado a ruptura familiar e, por extensão, o desfecho violento. A rapidez dessa imputação recoloca em cena a persistência de um ideal que atribui à mulher, sobretudo à mãe, a função de garantir a coesão dos vínculos. Quando esse ideal se rompe, não é raro que se busque nela a causa da catástrofe.

Reativa-se, assim, algo da sombra mítica de Medeia: a mãe tomada como origem da destruição dos filhos. No caso presente, porém, a mãe não é agente da tragédia, mas sobrevivente, ainda assim convocada a ocupar o lugar de culpa. Diante do intolerável, instala-se a urgência de encontrar uma causa que torne o acontecimento inteligível e recomponha minimamente o tecido de sentidos abalado; com frequência, é a mulher que é chamada a encarnar essa função de explicação e de bode expiatório.

Talvez a psicanálise possa contribuir para recolocar a responsabilidade do ato em seu autor e preservar uma escuta que não transforme a sobrevivente em culpada.

Referências

BLEICHMAR, Silvia. La subjetividad en riesgo. Buenos Aires: Topía, 2005.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. Vol. II. Petrópolis: Vozes, 1987.

CASSORLA, Roosevelt M. S. Suicídio: fatores inconscientes e aspectos psicodinâmicos. São Paulo: Blucher, 2017.

ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

Palavras-chave: Narcisismo, tragédia, filicídio; mito de Medeia, violência contemporânea, psicanálise.

Categoria: Cultura; Política e Sociedade

Obra: Medea (1907) — Evelyn De MorganLicença: domínio público (uso livre editorial/acadêmico

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Tags: filicídio; mito de Medeia | narcisismo | Psicanálise | tragédia | violência contemporânea
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