Observatório Psicanalítico OP 665/2026 

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Entre o susto e o brilho: o Bate-Bolas e o inconsciente coletivo no carnaval

Quem tem medo do Clóvis? Angústia, jogo e elaboração

Jeane Carvalho e Carlos Eduardo de Souza – Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ)

O Carnaval do Rio de Janeiro é conhecido no mundo inteiro — desfiles luxuosos, escolas de samba, carros alegóricos gigantescos, fantasias que custam milhares. É uma imagem oficial, cuidadosamente fotografada e transmitida que apresenta o espetáculo como uma obra-prima da cidade. Mas fora desse circuito, nas periferias e subúrbios, o Carnaval acontece de modo diferente.

Passamos nossas infâncias e adolescências nos bairros de Campo Grande e Madureira envolvidos, capturados, pelo clima do carnaval que tinha o poder de nos encantar, assustar e fazer rir coletivamente.

Ali, não há glamour televisivo, nem passarela iluminada, mas ruas estreitas, quintais, vielas e lajes que se tornam palcos improvisados. O brilho é mais intenso porque é artesanal; o volume maior porque é feito para ocupar o espaço de forma direta e visceral.

Nessas regiões, o Carnaval se constrói como experiência coletiva e local. Não se trata apenas de festa, mas de rito de pertencimento. Cada bloco, cada turma de fantasias, cada bateria improvisada é uma invenção própria, muitas vezes invisível para o público que consome a “cidade oficial”. 

Há urgência na ocupação do espaço — um desejo de ser visto, de se afirmar, de existir simbolicamente no território que historicamente nega presença.

Nos vêm à mente o que Mikhail Bakhtin chamou de “carnavalização”.

Bakhtin ressalta que o carnaval não é apenas uma festa popular, mas uma forma simbólica de organização do mundo, um modo específico de experiência coletiva que suspende provisoriamente as hierarquias sociais, podendo mesmo inverte-las, provocando risos potentes, através de um realismo grotesco, colocando abaixo o que era oficial, sério e permitindo a emergência de outras verdades, outros corpos e outras vozes.

O corpo no carnaval é aberto, inacabado, subvertendo uma dimensão padronizada. Há uma dimensão política profunda nessa concepção, onde a experiência simbólica é de liberdade. Ele não substitui o poder, mas o desnaturaliza, o ridiculariza. O corpo carnavalesco aparece num lugar de criação por isso fascina.

É nesse contexto que surge o Clóvis e a cultura dos bate-bolas: uma forma popular, intensa e inventiva de Carnaval, que conjuga lúdico, susto e pertencimento.

Recentemente visitamos uma exposição no Museu do Folclore no Rio de Janeiro onde pudemos nos identificar com cada imagem ali mostrada. Os “Clóvis”, ou “Bate-bolas”, eram um personagem alegre, familiar e assustador (estranho). Curiosamente, a fala do Bate-bolas, – assim eram chamados, pois traziam junto a eles, uma bola artesanal, denominada “bexiga” – era grossa e enunciava a expressão: “ô parente”. Ao mesmo tempo que podiam usar chupeta, podiam nos bater com a bola e machucar. Bola essa – a bexiga – simbolizava algo lúdico, mas também tinha um odor horroroso, pois era feita da bexiga do porco curtida. 

O Clóvis trazia um misto de ludicidade, pavor, brilho; tinha sua roupa muito colorida de cetim e longas capas com muitos espelhinhos colados. Uma verdadeira obra de arte.

O “barato” do Clóvis era sair à rua em grupos grandes, um coletivo que apavorava e inebriava por onde passava. A gente corria para ver e ao ver saía literalmente correndo, fugindo para não ser pego por eles.

Enquanto no carnaval oficial o espetáculo é para o outro, para o olhar global ou turístico, a periferia é espetáculo para si mesma. E é justamente nesse caráter autônomo e coletivo que o Carnaval periférico se aproxima da Psicanálise: porque ele se torna dispositivo de elaboração psíquica, transformação de angústias em festa e de medo em jogo. É nesse território que vamos encontrar o Clóvis.

Na periferia do Rio de Janeiro, o Carnaval não é espetáculo para ser assistido. É acontecimento. Não nasce na avenida oficial, mas nas garagens improvisadas, nos quintais apertados, nas conversas atravessadas pela expectativa de fevereiro. É ali que o bate-bola — o Clóvis — começa a existir, muito antes de vestir a rua.

Michel Maffesoli com a singular ideia de “sociologia da orgia”, assim como Freud, aponta para a metáfora da sexualidade para falar da intensidade, daquilo que escapa a uma racionalidade, que transborda. Na concepção do Maffesoli a “sociologia da orgia” nomeia a emergência de uma sociabilidade fundada no compartilhamento de emoções, na vibração coletiva, na experiência imediata do presente. Uma energia dionisíaca e afetiva. 

A “orgia” é figura do excesso que rompe a lógica utilitária, aqui o mote não é produzir e sim experimentar. Uma identidade mais fluida que se constrói na pertença momentânea ao grupo, à tribo e às comunidades afetivas.

Tanto o carnaval quanto a orgia são experiências de suspensão da ordem formal; ambos implicam um deslocamento do indivíduo isolado em direção ao coletivo; ambos valorizam o corpo, o riso, a emoção, o presente.

O Clóvis não pede licença. Ele irrompe.

Volume, cor, excesso. A fantasia amplia o corpo como se fosse preciso torná-lo maior para que ele caiba no mundo. A máscara fixa um rosto que não vacila. Há algo de infantil e algo de inquietante nessa figura — meio palhaço, meio ameaça. Riso e tensão no mesmo gesto.

A Psicanálise nos transmitiu que o eu nunca é transparente. Ele se constrói por camadas, por imagens, por identificações que nos permitem sustentar o olhar do outro. O Clóvis radicaliza essa condição: ele se faz personagem para garantir presença. 

Sob a máscara, o sujeito não desaparece — ele se intensifica.

Uma ideia que Michel Foucault traz nos seus últimos discursos, o “Nós Atual” nos é muito cara para pensar o deslocamento desse eu. Ele diz: “quem somos nós hoje, enquanto efeito de práticas, saberes e modos de governo?”

O “nós” não é identidade plena, nem comunhão transparente, é um campo de tensões. O entusiasmo foucaultiano é um afeto coletivo (Kant), um sinal histórico, indica que algo no presente se tornou problemático, instável, que pode impulsionar a crítica. Essa ideia aproxima-se do riso carnavalesco e da orgia maffesoliana, eles suspendem temporariamente o superego social, redistribuem identificações e produzem pertencimento.

Talvez por isso o susto seja parte essencial da cena.

O Clóvis corre. A bexiga estoura. O corpo de quem assiste se contrai por um segundo. O coração acelera antes da compreensão. Depois, quase sempre, vem o riso. Esse intervalo — mínimo, corporal — é precioso. É ali que algo do inconsciente se manifesta.

O medo que o bate-bola provoca não paralisa. É um medo enquadrado, ritualizado, compartilhado. Ainda assim, não é superficial. Ele toca uma zona primitiva: o inesperado, o estranho, o que escapa ao controle.

A periferia conhece o medo real — o da violência, da perda, da instabilidade.

No Carnaval, esse medo é deslocado, encenado, trabalhado.

Assusta para encantar.

Encanta porque assusta.

Há um saber psíquico nessa operação. O que não pode ser eliminado precisa ganhar forma. O susto vira rito. A ameaça vira performance. O que angustia encontra contorno, cor, música. O excesso da fantasia parece afirmar: “eu sei do medo — mas posso brincar com ele”.

E brincar, aqui, não é banalizar. É elaborar.

O adulto que veste o Clóvis experimenta uma liberdade rara. Pode exagerar gestos, ampliar movimentos, ocupar a rua com uma potência que o cotidiano frequentemente comprime. A fantasia autoriza. A turma sustenta. O grupo cria um corpo coletivo que protege e legitima.

Há algo profundamente grupal na cultura dos bate-bolas. Não se trata de exibição individual, mas de pertencimento. A mesma estampa, o mesmo tema, a mesma estética. Cada integrante empresta seu corpo para compor uma imagem maior. A identidade se constrói na repetição e na partilha.

Na periferia, onde o reconhecimento social é tantas vezes negado, o Carnaval dos Clóvis produz visibilidade. Não a visibilidade domesticada pela televisão, mas a da rua — direta, vibrante, incontornável. O olhar é convocado. A cena é imposta.

O Carnaval pensado na articulação de Foucault, Bakhtin e Maffesoli, nomeia uma experiência em que o corpo, o afeto e o coletivo reaparecem como forças políticas, não necessariamente revolucionárias, mas profundamente desestabilizadoras das evidências.

No cotidiano, aprendemos a esconder fragilidades. No Clóvis, ocorre um paradoxo: é justamente ao esconder o rosto que algo mais verdadeiro pode emergir. A agressividade lúdica, o desejo de ser visto, o prazer de provocar reação. A máscara organiza aquilo que, sem forma, poderia transbordar como ato bruto.

O Clóvis encarna uma ambivalência estrutural: somos feitos de amor e hostilidade, de desejo e defesa, de medo e fascínio. O Carnaval suburbano não tenta purificar essa mistura. Ele a sustenta.

Há rigor nessa festa.

Ao final do cortejo, quando o brilho pesa e o suor atravessa o cetim, algo já foi atravessado. O medo apareceu — e não devastou. A angústia encontrou moldura. O corpo experimentou intensidade sem se romper.

Talvez o Clóvis seja isso: uma tecnologia popular de elaboração psíquica. Um dispositivo coletivo que transforma angústia em forma, ameaça em jogo, invisibilidade em presença.

Quem tem medo do Clóvis?

Talvez todos nós.

E talvez seja justamente por isso que precisamos que ele desfile.

Porque, na periferia do Rio, o inconsciente não se esconde.

Ele veste máscara, corre pelas ruas e nos lembra — entre o susto e o riso — que elaborar também pode ser festa.

Referências Bibliográficas:

Bakhtin, M. (1987). A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec / Brasília: Editora da UnB.

Foucault, Michel. O que são as Luzes? (1984). Ditos e Escritos II: Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

Freud, S. (1919). “O estranho”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Maffesoli, Michel. A sombra de Dionísio: contribuição a uma sociologia da orgia. São Paulo: Zouk, 2005.

Palavras-chave: Psicanálise, Carnaval, Coletividade, Bate-Bola e Periferia

Imagem: foto dos autores na exposição no Museu do Folclore no Rio de Janeiro

Categoria: Cultura

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Categoria: Cultura
Tags: Bate-Bola e Periferia | Carnaval | Coletividade | Psicanálise
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