Observatório Psicanalítico OP 664/2026 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Antes da Psicanálise: O Projeto.

Antes de Bad Bunny: Compton.

Antes da conta: mais um chope!

Carlos Eduardo de Souza – Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro (SPRJ)

Em 1895, Freud escreve o Projeto para uma Psicologia Científica. Trata-se de um texto inacabado, durante muito tempo deixado de lado e considerado apenas um esboço pré-psicanalítico. No entanto, ali já se encontra algo decisivo: a tentativa de pensar o funcionamento do psiquismo a partir da noção de energia, excitação, marca e inscrição. O Projeto não é ainda a Psicanálise, mas contém sua tensão fundadora.

Freud parte de um modelo neurológico, mas o que está em jogo não é apenas o cérebro — é a pergunta sobre como a experiência deixa marcas. O que permanece dessa tentativa inicial não é a explicação biológica, mas a intuição de que há algo que insiste, que se inscreve, que retorna. O Projeto não segue adiante como modelo científico estritamente neurológico, mas triunfa como gesto inaugural: ele abre um campo.

A Psicanálise nasce, portanto, não de um saber já constituído, mas de um deslocamento. O Projeto é uma tentativa de formalização que cria as condições para algo novo emergir. Ele inaugura um espaço de pensamento onde a singularidade poderá, mais tarde, ser escutada.

Se deslocarmos essa lógica para o campo cultural contemporâneo, podemos pensar em certas manifestações culturais como “projetos” simbólicos. O espetáculo do Super Bowl que reuniu artistas ligados à cena de Compton — Dr. Dre, Snoop Dogg, Eminem, Mary J. Blige, Kendrick Lamar — marcou um momento histórico: o Hip Hop, nascido nas margens urbanas, ocupava o centro do espetáculo midiático mais assistido do mundo.

Ali não estava apenas a música. Estava uma história de exclusão racial, desigualdade estrutural, violência estatal, criminalização e resistência. O que se inscrevia naquele palco era a presença pública de uma cultura forjada em territórios sistematicamente desinvestidos pelo Estado e estigmatizados pelo discurso dominante. O que se apresentava ali era mais do que entretenimento: era memória social transformada em linguagem.

Podemos ler esse evento como uma operação política de reconhecimento. O que era frequentemente tratado como ameaça social tornava-se patrimônio cultural. O que era narrado como desviante tornava-se referência estética. Nesse gesto, há deslocamento de poder simbólico. A periferia não é apenas tolerada — ela passa a organizar e afetar o centro.

Nesse sentido, esse momento pode ser compreendido como um “Projeto” cultural. Não porque tenha sido o primeiro gesto do Hip Hop, mas porque operou como inscrição oficial em um campo de máxima visibilidade, o Super Bowl, tensionando as fronteiras do que pode ser legitimado pela indústria cultural hegemônica. Criou-se ali um novo paradigma de reconhecimento — ainda atravessado por contradições, mas irreversivelmente marcado pela presença daquilo que antes era excluído.

Quando, posteriormente, vemos artistas latinos como Bad Bunny ocupando espaços de centralidade global — cantando em espanhol explicitando os “acentos”, trazendo referências caribenhas, afirmando identidades híbridas e deslocando o eixo anglófono da indústria — podemos pensar que há uma ampliação daquele campo inaugurado. Não se trata de continuidade linear, mas de expansão simbólica em um terreno com limites já tensionados.

Assim como o Projeto freudiano não é ainda a Psicanálise, mas prepara sua emergência, certos acontecimentos culturais funcionam como operadores de campo: tornam possível que outras singularidades encontrem lugar de inscrição. Mas aqui é preciso sublinhar: esse campo não é neutro. Ele é atravessado por relações de poder, por hierarquias raciais, linguísticas e econômicas.

A Psicanálise nos ensina que a singularidade só pode emergir dentro de um campo simbólico compartilhado. Não há sujeito fora da linguagem. Do mesmo modo, não há expressão cultural que se sustente fora de um laço coletivo que a reconheça. Contudo, o reconhecimento não é apenas afetivo; ele é político. Ser reconhecido é deixar de ser reduzido ao silêncio ou à caricatura.

O Hip Hop nasce como expressão singular de comunidades negras e periféricas, mas sua potência está na capacidade de transformar experiência de exclusão em discurso público. Ele não pede inclusão passiva; ele produz linguagem, estética e pensamento. Quando ocupa o centro, ele não apaga sua origem — ele reinscreve a margem no coração da cultura e obriga o centro a se redefinir.

Talvez possamos dizer que tanto na obra de Freud quanto na cena musical contemporânea vemos algo semelhante: um gesto  preliminar que não encerra, mas inaugura. Um projeto que não é fim, mas condição. Um movimento em que o coletivo cria o campo para que a singularidade possa aparecer — e, ao aparecer, reconfigure o próprio campo.

Se o Projeto freudiano abriu caminho para a escuta do sujeito do inconsciente, certos acontecimentos culturais abrem caminho para a escuta de sujeitos historicamente silenciados pelo racismo, pelo colonialismo e pela desigualdade econômica. Em ambos os casos, trata-se de deslocar o que estava fora do discurso dominante para o interior do laço social.

Nesse sentido, a presença de Bad Bunny em um palco como o do Super Bowl, ainda que impactante  e cheia de frescor, não surge como um acontecimento isolado ou repentino. Ela é efeito de uma cadeia de inscrições anteriores. O espetáculo protagonizado pela cena de Compton operou como marco simbólico: ali, o Hip Hop — nascido da experiência negra, periférica e urbana — inscreveu-se como linguagem incontornável da cultura contemporânea.

Sem esse deslocamento prévio, a ampliação do campo talvez não fosse possível. A presença latina em posição de centralidade global se apoia na fissura já aberta na hegemonia cultural. Trata-se de uma sequência estrutural: a margem, ao ocupar o centro, amplia as condições para que outras margens também se tornem visíveis.

Há algo profundamente político — e psicanalítico — nisso: nenhum sujeito emerge fora das condições simbólicas que o antecedem. Mas essas condições não são naturais; são produzidas, disputadas, conquistadas num campo social não  estático que pode ser tensionado, ampliado, reconfigurado.

O Hip Hop, enquanto cultura, realizou uma operação histórica: transformou dor social em produção simbólica compartilhável. Converteu segregação em linguagem. Produziu coletividade onde havia fragmentação. E, ao fazê-lo, ampliou o próprio campo do que pode ser reconhecido como legítimo.

Assim, a cena de Bad Bunny não é um evento isolado na lógica do espetáculo midiático; ela é continuidade de uma disputa simbólica em curso. Trata-se da transmissão de um gesto político — o gesto de ocupar o centro sem renunciar à memória da margem.

Talvez seja essa a força ética que aproxima a Psicanálise e a cultura Hip Hop: ambas insistem que aquilo que foi recalcado retorna. Que o silenciado encontra forma. Que a singularidade precisa de um campo, mas também transforma esse campo ao se inscrever nele.

O que estava em jogo no Projeto freudiano era a formalização das condições de emergência do sujeito. O que está em jogo nesses acontecimentos culturais é a formalização pública de que vozes — negras, latinas, periféricas etc — podem não apenas participar do laço social, mas reorganizá-lo (nem que precise apenas de 13 minutos de apresentação!).

Em ambos os casos, trata-se de ampliar o campo do possível — e de reconhecer que essa ampliação é sempre, também, um ato político.

Outra saideira, por favor!

Referência musical: https://youtu.be/gdsUKphmB3Y?si=1WV3G3ZIUBLDQwKq

Palavras-Chave: Psicanálise, O Projeto, Super Bowl,  Bad Bunny, Cultura Hip Hop.

Imagem: foto do autor 

Categoria: Cultura; Política e Sociedade

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Tags: Bad Bunny | Cultura Hip Hop | O Projeto | Psicanálise | Super Bowl
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