Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Um por cento e a eternidade
Avelino Neto – SPbsb
Preconizam as pesquisas, esses oráculos de planilha e margem de erro, que a próxima eleição presidencial será decidida por menos de 1%. Um por cento. Estatisticamente, quase um bocejo. Politicamente, um abismo.
Vença quem vencer, o país amanhecerá dividido ao meio, como se tivéssemos serrado a República com uma faca cega de churrasco institucional. De um lado, metade festeja. Do outro, metade suspeita. E no centro, um 1% que passa da condição de porcentagem à de personagem histórico.
A aritmética democrática é curiosa: 50,5% pode governar 100%. Eis o paradoxo que sustenta e tensiona as democracias contemporâneas. A legitimidade não nasce da unanimidade, mas da regra aceita por todos antes do jogo começar. E é aí que o humor precisa entrar, não como deboche, mas como lucidez.
Porque a disputa não é apenas entre candidatos. É entre modos de imaginar o tempo político.
Há quem veja a democracia como jovem demais, frágil demais, lenta demais. Jovem democracia, dizem alguns, precisa de pulso firme, de ordem, de decisão rápida. Outros lembram que a juventude da democracia é precisamente sua força: ela erra, aprende, discute, tropeça e se reinventa. Não é eterna, é processual.
Do outro lado do imaginário, ronda o que Umberto Eco chamou de fascismo eterno, essa tentação recorrente de simplificar o mundo em nome da unidade, de transformar divergência em traição, de substituir complexidade por palavra de ordem. Em O Fascismo Eterno, Eco não descreve apenas um regime histórico, mas uma síndrome política que reaparece sempre que a sociedade se cansa de negociar diferenças.
O fascismo, dizia Eco, não precisa voltar com as mesmas fardas; basta que retorne como nostalgia de clareza. Ele oferece respostas rápidas para perguntas difíceis. E respostas rápidas são sedutoras, sobretudo quando o país parece cansado de esperar.
Mas há algo de ironicamente democrático na previsão de uma diferença de 1%. Se metade do país deseja uma coisa e a outra metade deseja o oposto, talvez o problema não seja apenas quem vence, mas como convivemos no dia seguinte.
O humor aqui não é superficial. Ele revela o absurdo produtivo da democracia: brigamos ferozmente por 1%, como se fosse o destino da civilização, e no entanto continuamos dividindo o mesmo elevador, a mesma fila do supermercado, o mesmo congestionamento às seis da tarde. A República sobrevive menos por convicção ideológica e mais por banalidade cotidiana.
Um por cento decide o Planalto, mas não decide o almoço de domingo.
O perigo não está na disputa acirrada. Eleições apertadas são sinal de pluralidade viva. O risco começa quando o 49,5% passa a considerar ilegítimo o 50,5%, ou quando o vencedor interpreta a margem mínima como cheque em branco moral.
A jovem democracia não precisa de unanimidade, precisa de regras respeitadas. O fascismo eterno, ao contrário, desconfia das regras quando elas não lhe favorecem. A democracia diz: “ganhei porque a regra era essa”. O fascismo murmura: “a regra só vale quando eu ganho”.
Talvez o verdadeiro 1% decisivo não esteja nas urnas, mas na disposição cívica. Um pequeno percentual de compromisso com instituições, com imprensa livre, com alternância de poder, pode fazer mais diferença do que slogans inflamados.
No fundo, a eleição não será apenas entre nomes, mas entre temperamentos políticos. Entre a paciência do processo e a ansiedade da ordem. Entre a complexidade democrática e a promessa de pureza.
Se a diferença for mesmo mínima, que ela nos ensine algo grande: viver juntos é sempre uma negociação imperfeita. A democracia é esse regime estranho em que ninguém sai plenamente satisfeito, mas todos deveriam sair protegidos.
E talvez seja essa a piada mais séria de todas: a jovem democracia só envelhece quando seus cidadãos desistem dela. Já o fascismo eterno não precisa envelhecer, porque vive de reaparecer.
Se a escolha for por 1%, que seja ao menos por convicção. E que, no dia seguinte, o país descubra que a verdadeira vitória não é esmagar o adversário, mas impedir que o eterno se imponha sobre o possível.
Palavras-Chave: Democracia, Polarização,Fascismo, Legitimidade, Margem Eleitoral
Imagem: Foto divulgação TSE
Categoria: Política e Sociedade
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