
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Bad Bunny no Super Bowl
Sodely Páez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC)
A performance de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl constitui um acontecimento cultural que excede o âmbito musical para situar-se no terreno do sintoma social. Não se tratou apenas de um espetáculo de entretenimento, mas de uma encenação na qual se expuseram tensões simbólicas relacionadas à linguagem, à identidade, ao poder cultural e à inscrição do sujeito latino no imaginário estadunidense. A partir de uma leitura psicanalítica, o show pode ser pensado como um ato performativo que desestabiliza a ordem simbólica dominante e revela, simultaneamente, os desejos e as resistências inconscientes de uma sociedade atravessada pelo fenômeno migratório, pela xenofobia — acentuada pela administração atual — e pela diferença cultural.
O Super Bowl é, por excelência, um ritual civil contemporâneo dos Estados Unidos. Funciona como um espaço de identificação coletiva no qual se representa uma ideia de nação, sucesso e pertencimento. Nesse sentido, o intervalo não é um interlúdio, mas um momento de condensação simbólica em que a cultura popular produz imagens daquilo que uma sociedade acredita ser.
A irrupção de Bad Bunny, artista porto-riquenho que decidiu sustentar o espanhol como língua principal do espetáculo, introduziu uma fratura neste dispositivo. Pela primeira vez, o centro do espetáculo não se traduziu ao idioma predominante, mas obrigou o público a deslocar-se em direção a outro. Essa inversão é fundamental: o sujeito anglófono deixa de ser o centro universal e experimenta, ainda que momentaneamente, a posição de estrangeiro.
Com Freud, poderíamos interpretar esse fato como a emergência do recalcado. O que quero dizer com isso? A presença latina nos Estados Unidos tem sido historicamente constitutiva da sociedade, mas simultaneamente marginalizada — necessária e negada ao mesmo tempo. O espanhol no Super Bowl retorna como aquilo que sempre esteve ali, mas que deveria permanecer nas margens. O êxito massivo do espetáculo e sua enorme audiência evidenciam que o reprimido não desaparece, mas retorna com maior força quando encontra uma cena onde se representar.
Na teorização lacaniana, a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas a própria estrutura do sujeito. Cantar em espanhol sem traduzir ou legendar as músicas implica rejeitar a demanda do Outro dominante, que exige adaptação para conceder reconhecimento e inclusão. Bad Bunny não pede nem espera ser compreendido; apresenta-se em sua própria língua, contando a história da cultura à qual pertencemos, de onde viemos e de onde emigramos para fazer vida neste país, fundar família e incorporar novos costumes sem renunciar àqueles que fazem parte de nossa identidade. Esse gesto produz um deslocamento simbólico: a identidade latina deixa de ocupar o lugar de objeto exótico e passa a ocupar o lugar de enunciadora. A mensagem implícita não é apenas cultural, mas subjetiva: existir sem renunciar à própria língua e cultura.
O show também operou como uma cena de memória coletiva. Diversas análises assinalaram que a encenação funcionou como uma carta de amor à memória latina e à vida cotidiana porto-riquenha, incorporando imagens comunitárias, nostalgia e referências culturais compartilhadas. Para a psicanálise, a memória não é simples recordação, mas reconstrução afetiva. A performance permitiu, assim, que milhões de espectadores latinos se vissem refletidos em um espaço historicamente alheio, produzindo um efeito de reconhecimento simbólico. O “ser visto” — tão central na constituição do eu — adquire aqui uma dimensão coletiva.
Esse ponto é especialmente significativo para comunidades migrantes. O sujeito migrante costuma habitar uma cisão psíquica entre a origem e o lugar de chegada. O idioma, o sotaque e os códigos culturais podem converter-se em marcas de alteridade que geram vergonha ou silenciamento.
Que o espetáculo mais assistido do país se desenvolva em espanhol inverte essa lógica. O que antes era sinal de marginalidade converte-se em sinal de prestígio. Todo o show, desde o início, é uma declaração de princípios e uma reafirmação identitária. “Que delícia é ser latino”, diz um jovem antes que a tela exiba o nome completo de Benito Antonio Martínez Ocasio como apresentador do “Super Tazón”. Não é casual que, após o anúncio de Bad Bunny no intervalo, tenha aumentado o interesse por aprender espanhol, sinal de como o desejo se desloca em direção àquilo que antes era percebido como exterior.
Da mesma forma, a performance foi atravessada por uma mensagem política implícita — um ato de protesto, mas desde o amor — ao mostrar uniões, família, o aceno à sua mãe com o número 64 na camiseta, a festa, a alegria, um casamento real no qual canta, em versão salsa, não qualquer música, mas uma de Lady Gaga, um dos ícones da música pop estadunidense, ídola dos “monsters”, para terminar mencionando todos os nomes dos países que conformam a grande América. A presença de bandeiras de países latino-americanas e mensagens de unidade sugeriu uma concepção ampliada dessa América, na qual os Estados Unidos não aparecem como centro único, mas como parte de um conjunto cultural mais amplo. Podemos entender esse ato como uma confrontação com o narcisismo nacional: a dificuldade de aceitar que a identidade coletiva não é homogênea, mas múltipla.
As reações polarizadas suscitadas pelo show evidenciam, precisamente, essa ferida narcísica — ferida que não conseguiu ser sanada com o paralelo, sectário e medíocre show “All American”. Bad Bunny conseguiu, com essa história que contou a todos, o intervalo mais assistido da história. Impossível não se emocionar com o que isso representa, especialmente em momentos de ódio e perseguição do ICE à comunidade latina, a dois dias do Twitter do presidente da nação que mostrava os esposos Obama como macacos e em meio à liberação da lista de Epstein, na qual seu nome aparece milhares de vezes.
O corpo em cena também merece atenção. O reggaeton, gênero historicamente desvalorizado por setores culturais dominantes, inscreve-se aqui como linguagem corporal legítima. A dança coletiva, a celebração e o gozo funcionam como afirmação do desejo diante de discursos que costumam associar o latino ao excesso ou à desordem. O gozo, em termos lacanianos, aparece como aquilo que incomoda o Outro porque escapa ao seu controle simbólico. O espetáculo, então, não foi apenas ouvido, mas sentido corporalmente, o que explica tanto a identificação quanto a rejeição que despertou.
Por fim, a importância dessa performance reside em ter evidenciado uma transformação do imaginário estadunidense. O Super Bowl, símbolo da cultura dominante, acolheu uma narrativa que já não se apresenta como minoritária, mas como constitutiva do presente cultural do país. A mensagem implícita não foi a integração por meio da assimilação, mas a coexistência. Poder-se-ia dizer que o espetáculo encenou a passagem de uma identidade baseada na exclusão para uma identidade atravessada pela falta e pela diversidade.
A performance de Bad Bunny, portanto, pode ser lida como um ato simbólico no qual o sujeito latino deixa de pedir permissão para existir no espaço público. O espanhol, longe de ser uma barreira, converte-se em significante de desejo e de poder cultural. Talvez aí resida sua dimensão mais profunda: não foi simplesmente um show musical, mas a representação de uma mudança na economia do reconhecimento, na qual milhões de espectadores puderam experimentar, ainda que por treze minutos, que a identidade também pode falar em outra língua sem deixar de ser universal.
Benito recriou uma cena na qual se reconfiguram três dimensões fundamentais: o olhar, a estrangeiridade e o lugar do sujeito no campo do Outro. Se, em uma primeira aproximação, o espetáculo pode ser entendido como gesto cultural e político, uma leitura lacaniana e kristeviana permite pensar algo mais radical: uma transformação na administração do desejo dentro do imaginário estadunidense.
O Super Bowl é, antes de tudo, uma cena de olhar. Milhões de espectadores observam simultaneamente um mesmo objeto, produzindo uma experiência coletiva que organiza identificações. Lacan distingue entre ver e ser olhado: o sujeito não apenas observa o espetáculo, mas fica preso na estrutura do olhar do Outro. O intervalo funciona, então, como um espelho cultural no qual uma sociedade tenta reconhecer-se. A irrupção de Bad Bunny em espanhol altera essa estrutura porque introduz um elemento que não está completamente disponível para a compreensão imediata do público. O espectador anglófono já não domina plenamente o sentido; deve aceitar uma falta.
Essa falta é crucial. Para Lacan, o desejo surge precisamente onde o sentido não se fecha. O fato de o espetáculo não ter sido traduzido nem completamente adaptado ao inglês produz um deslocamento: o público majoritário ocupa momentaneamente o lugar daquele que não compreende totalmente. Trata-se de uma inversão simbólica poderosa, especialmente em uma sociedade na qual o idioma inglês funcionou historicamente como garantia de pertencimento. O espanhol, nesse contexto, deixa de ser signo de marginalidade para tornar-se o significante que organiza a cena.
Aqui aparece a noção lacaniana do olhar como objeto a. O espetáculo não apenas foi visto; também devolveu o olhar. Milhões de sujeitos latinos — muitos deles migrantes ou filhos de migrantes — viram-se representados em um espaço onde tradicionalmente eram espectadores periféricos. O efeito subjetivo de “ser visto” tem potência estruturante: confirma a existência simbólica do sujeito. Em termos psíquicos, trata-se de uma reparação momentânea do sentimento de invisibilidade que atravessa frequentemente a experiência migratória.
Julia Kristeva permite aprofundar ainda mais essa leitura por meio de seu conceito de estrangeiridade. Para Kristeva, o estrangeiro não é apenas aquele que vem de outro lugar; é também uma figura que revela a estranheza interna do próprio sujeito. A presença do espanhol no centro do espetáculo confronta a cultura dominante com sua própria heterogeneidade. Os Estados Unidos descobrem a si mesmos como um espaço já atravessado por múltiplas línguas e culturas. O estrangeiro deixa de ser exterior e torna-se constitutivo.
Esse ponto é particularmente significativo se pensarmos na experiência latino-americana e, especialmente, na experiência migratória venezuelana da qual pude falar em um ensaio anterior. O migrante costuma viver uma cisão entre o idioma íntimo e o idioma social. O espanhol fica associado ao âmbito privado, familiar e afetivo, enquanto o inglês se vincula ao sucesso e à integração. A performance rompe essa divisão ao levar a língua íntima ao centro do reconhecimento público. O efeito psíquico é uma revalorização simbólica da origem.
Kristeva sustenta que o estrangeiro gera inquietação porque desestabiliza as fronteiras identitárias. As reações polarizadas ao espetáculo — já mencionadas — podem ser lidas a partir dessa lógica: a rejeição não responde apenas a questões musicais ou estéticas, mas à angústia produzida pela perda de um centro cultural estável. Quando o Outro fala em sua própria língua sem traduzir-se, o sujeito dominante experimenta uma perda de controle simbólico. Surge, então, o que Freud chamaria de o inquietante: não apenas o reprimido, mas algo familiar que retorna sob uma forma que já não pode ser completamente domesticada.
Esse deslocamento revela algo do momento histórico atual: a identidade estadunidense já não pode sustentar-se na fantasia de unidade, mas na aceitação de seu caráter fragmentado.
Benito, com seu show, revela um movimento no qual o sujeito deixa de identificar-se com a falta atribuída pelo Outro para começar a falar a partir de seu próprio desejo. Talvez aí resida a verdadeira potência psíquica do acontecimento: não na espetacularidade do show, mas em ter produzido, ainda que por alguns minutos, uma experiência coletiva na qual a diferença deixou de ser tolerada para tornar-se o próprio centro da representação cultural.
O encerramento não poderia ter sido mais contundente: a mensagem oculta de uma bola de futebol americano que ele abraçava no início do show, com a frase em inglês “Together we are America”, é revelada quando a lança, ao grito de: “Seguimos aqui! E agora sim, eu devia ter tirado mais fotos…”
Referências bibliográficas
Freud, S. (1919). O inquietante. Obras Completas, vol. XVII (1975).
Kristeva, J. (1941). Estrangeiros para nós mesmos. Plaza y Janés, Barcelona (1991).
Palavras-Chave: Migração, Cultura, Processos interculturais, Identidade, Psicanálises
Imagem: Bad Bunny no show de intervalo do Super Bowl (foto de circulação pública em toda rede social)
Categoria: Cultura; Política e Sociedade
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——Texto original em espanhol ———————————————————
Observatorio Psicoanalítico – OP 662/2026

Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo
Bad Bunny en el Super Bowl
Sodely Páez – Sociedad Psicoanalítica de Caracas (SPC)
La performance de Bad Bunny en el medio tiempo del Super Bowl constituye un acontecimiento cultural que excede el ámbito musical para situarse en el terreno del síntoma social. No se trató únicamente de un espectáculo de entretenimiento, sino de una puesta en escena donde se expusieron tensiones simbólicas relacionadas con el lenguaje, la identidad, el poder cultural y la inscripción del sujeto latino en el imaginario estadounidense. Desde una lectura psicoanalítica, el show puede pensarse como un acto performativo que desestabiliza el orden simbólico dominante y revela, simultáneamente, los deseos y resistencias inconscientes de una sociedad atravesada por el fenómeno migratorio, la xenofobia, acentuada por la administración actual, y la diferencia cultural.
El Super Bowl es, por excelencia, un ritual civil contemporáneo de los Estados Unidos. Funciona como un espacio de identificación colectiva donde se representa una idea de nación, éxito y pertenencia. En ese sentido, el medio tiempo no es un intermedio sino un momento de condensación simbólica, en el cual la cultura popular produce imágenes de lo que una sociedad cree ser. La irrupción de Bad Bunny, artista puertorriqueño que decidió sostener el español como lengua principal del espectáculo, introdujo una fractura en ese dispositivo. Por primera vez, el centro del espectáculo no se tradujo al idioma predominante, sino que obligó al público a desplazarse hacia otro. Esta inversión es fundamental: el sujeto angloparlante deja de ser el centro universal y experimenta, aunque sea momentáneamente, la posición del extranjero.
Con Freud, podríamos interpretar este hecho como la emergencia de lo reprimido.
¿Qué quiero decir con esto? La presencia latina en Estados Unidos ha sido históricamente constitutiva de la sociedad, pero simultáneamente marginalizada, necesaria y negada al mismo tiempo. El español en el Super Bowl, retorna como aquello que siempre estuvo allí pero que debía permanecer en los márgenes. El éxito masivo del espectáculo y su enorme audiencia evidencian que lo reprimido no desaparece, sino que retorna con mayor fuerza cuando encuentra una escena donde representarse.
En la teorización lacaniana, el lenguaje no es sólo un medio de comunicación sino la estructura misma del sujeto. Cantar en español sin traducir o subtitular los temas, implica rechazar la demanda del Otro dominante que exige adaptación para otorgar reconocimiento e inclusión. Bad Bunny no pide ni espera ser comprendido, se presenta en su propia lengua contando la historia de la cultura a la que pertenecemos y de dónde venimos y emigramos para hacer vida en este país; fundar familia e incorporar las nuevas costumbres, pero sin renunciar a las que forman parte de nuestra identidad. Este gesto produce un desplazamiento simbólico: la identidad latina deja de ocupar el lugar del objeto exótico y pasa a ocupar el lugar del enunciador. El mensaje implícito no es únicamente cultural, sino subjetivo: existir sin renunciar a la lengua y cultura propias.
El show también operó como una escena de memoria colectiva. Diversos análisis han señalado que la puesta en escena funcionó como una carta de amor a la memoria latina y a la vida cotidiana puertorriqueña, incorporando imágenes comunitarias, nostalgia y referencias culturales compartidas. Para el psicoanálisis, la memoria no es simple recuerdo sino reconstrucción afectiva. La performance permitió, así, que millones de espectadores latinos se vieran reflejados en un espacio históricamente ajeno, produciendo un efecto de reconocimiento simbólico. El “ser visto” – tan central en la constitución del yo- adquiere aquí una dimensión colectiva.
Este punto resulta especialmente significativo para comunidades migrantes. El sujeto migrante suele habitar una escisión psíquica entre el origen y el lugar de llegada. El idioma, el acento y los códigos culturales pueden convertirse en marcas de alteridad que generan vergüenza o silenciamiento. Que el espectáculo más visto del país se desarrolle en español invierte esa lógica. Lo que antes era signo de marginalidad se convierte en signo de prestigio. Todo el show desde el inicio es una declaración de principios y una reafirmación identitaria. “Qué rico es ser latino”, dice un joven antes de que la pantalla despliegue el nombre completo de Benito Antonio Martinez Ocasio, como presentador del “Super Tazón”. No es casual que tras elanuncio de Bad Bunny en el medio tiempo, aumentara el interés por aprender español, señal de cómo el deseo se desplaza hacia aquello que antes era percibido como exterior.
Asimismo, la performance estuvo atravesada por un mensaje político implícito, un acto de protesta pero desde el amor, al mostrar las uniones, la familia, el guiño a su mama con el número 64 en su camiseta, la fiesta, la alegría, una boda, real, en la que canta en versión salsa no cualquiera, sino Lady Gaga, uno de los iconos de la música pop estadounidense, ídola de los “monsters”, para terminar, mencionando todos los nombres de los países que conforman la gran America. La presencia de banderas latinoamericanas y mensajes de unidad, sugirieron una concepción ampliada de esta América donde Estados Unidos no aparece como centro único, sino como parte de un conjunto cultural más amplio. Podemos entender este acto como una confrontación con el narcisismo nacional: la dificultad de aceptar que la identidad colectiva no es homogénea sino múltiple.
Las reacciones polarizadas suscitadas por el show ponen en evidencia, precisamente, esa herida narcisista. Herida que no logró ser sanada con el paralelo, sectario y mediocre show “All american”. Bad Bunny consiguió con esta historia que nos contó a todos, el medio tiempo más visto de la historia. Imposible no emocionarse con lo que ello representa, especialmente en estos momentos de odio y persecución de ICE a la comunidad latina, a dos días del tuit del presidente de la nación donde mostraba a los esposos Obama como monos y en medio de la liberación de la lista de Epstein donde su nombre aparece miles de veces.
El cuerpo en escena también merece atención. El reguetón, género históricamente desvalorizado por sectores culturales dominantes, se inscribe aquí como lenguaje corporal legítimo. El baile colectivo, la celebración y el goce funcionan como afirmación del deseo frente a discursos que suelen asociar lo latino con exceso o desorden. El goce, en términos lacanianos, aparece como aquello que incomoda al Otro porque escapa a su control simbólico. El espectáculo, entonces, no sólo fue escuchado sino sentido corporalmente, lo que explica tanto la identificación como el rechazo que despertó.
Finalmente, la importancia de esta performance reside en haber evidenciado una transformación del imaginario estadounidense. El Super Bowl, símbolo de la cultura dominante, alojó una narrativa que ya no se presenta como minoritaria sino constitutiva del presente cultural del país. El mensaje implícito no fue la integración mediante la asimilación, sino la coexistencia. Podría decirse que el espectáculo puso en escena el paso de una identidad basada en la exclusión hacia una identidad atravesada por la falta y la diversidad.
La performance de Bad Bunny, por tanto, puede leerse como un acto simbólico donde el sujeto latino deja de pedir permiso para existir en el espacio público. El español, lejos de ser una barrera, se convierte así en un significante de deseo y de poder cultural. Quizás allí radique su dimensión más profunda: no fue simplemente un show musical, sino la representación de un cambio en la economía del reconocimiento, donde millones de espectadores pudieron experimentar, aunque fuera por trece minutos, que la identidad también puede hablar en otra lengua sin dejar de ser universal.
Benito recreó una escena donde se reconfiguran tres dimensiones fundamentales: a mirada, la extranjería y el lugar del sujeto en el campo del Otro. Si en una primera aproximación el espectáculo puede entenderse como un gesto cultural y político, una lectura lacaniana y kristeviana permite pensar algo más radical, una transformación en la administración del deseo dentro del imaginário estadounidense.
El Super Bowl es, ante todo, una escena de mirada. Millones de espectadores observan simultáneamente un mismo objeto, produciendo una experiencia colectiva que organiza identificaciones. Lacan distingue entre ver y ser mirado: el sujeto no sólo observa el espectáculo, sino que queda atrapado en la estructura de la mirada del Otro. El medio tiempo funciona entonces como un espejo cultural donde una sociedad intenta reconocerse. La irrupción de Bad Bunny en español altera esa estructura porque introduce un elemento que no está completamente disponible para la comprensión inmediata del público. El espectador angloparlante ya no domina plenamente el sentido, debe aceptar una falta. Esta falta es crucial. Para Lacan, el deseo surge precisamente allí donde el sentido no se cierra. El hecho de que el espectáculo no haya sido traducido ni adaptado completamente al inglés produce un desplazamiento: el público mayoritario ocupa momentáneamente el lugar del que no entiende del todo. Se trata de una inversión simbólica poderosa, especialmente en una sociedad donde el idioma inglés ha funcionado históricamente como garantía de pertenencia. El español, en este contexto, deja de ser un signo de marginalidad para convertirse em el significante que organiza la escena.
Aquí aparece la noción lacaniana de la mirada como objeto a. El espectáculo no sólo fue visto, también devolvió la mirada. Millones de sujetos latinos, muchos de ellos migrantes o hijos de migrantes, se vieron representados en un espacio donde tradicionalmente eran espectadores periféricos. El efecto subjetivo de “ser visto” tiene una potencia estructurante: confirma la existencia simbólica del sujeto. En términos psíquicos, se trata de una reparación momentánea del sentimiento de invisibilidad que atraviesa frecuentemente la experiencia migratoria.
Julia Kristeva permite profundizar aún más esta lectura a través de su concepto de extranjería. Para Kristeva, el extranjero no es sólo aquel que viene de otro lugar; es también una figura que revela la extrañeza interna del propio sujeto. La presencia del español en el centro del espectáculo confronta a la cultura dominante con su propia heterogeneidad. Estados Unidos se descubre a sí mismo como un espacio ya atravesado por múltiples lenguas y culturas. El extranjero deja de ser exterior y se vuelve constitutivo.
Este punto es particularmente significativo si se piensa en la experiencia latinoamericana y, en especial, en la experiencia migratoria venezolana de la que pude hablar en un ensayo anterior. El migrante suele vivir una escisión entre el idioma íntimo y el idioma social. El español queda asociado al ámbito privado, familiar, afectivo mientras que el inglés, al éxito y a la integración. La performance rompe esa división al llevar la lengua íntima al centro del reconocimiento público. El efecto psíquico es una revalorización simbólica del origen.
Kristeva sostiene que el extranjero genera inquietud porque desestabiliza las fronteras identitarias. Las reacciones polarizadas ante el espectáculo y que ya fueron mencionadas, pueden leerse desde esta lógica: el rechazo no responde únicamente a cuestiones musicales o estéticas, sino a la angustia que produce la pérdida de un centro cultural estable. Cuando el Otro habla en su propia lengua sin traducirse, el sujeto dominante experimenta una pérdida de control simbólico. Aparece entonces lo que Freud llamaría lo ominoso, no sólo lo reprimido, algo familiar que retorna, pero en una forma que ya no puede ser completamente domesticada.
Este desplazamiento revela algo del momento histórico actual: la identidad estadounidense ya no puede sostenerse en la fantasía de unidad, sino en la aceptación de su carácter fragmentado.
Benito con su show revela un movimiento donde el sujeto deja de identificarse con la falta asignada por el Otro para comenzar a hablar desde su propio deseo. Quizás allí resida la verdadera potencia psíquica del acontecimiento: no en la espectacularidad del show, sino en haber producido, aunque fuera por unos minutos, una experiencia colectiva donde la diferencia dejó de ser tolerada para convertirse en el centro mismo de la representación cultural.
El cierre no pudo ser más contundente: el mensaje oculto de una pelota de fútbol americano que abrazaba al comienzo del show, y que decía en inglés “Together we are America”, es revelado mientras la lanza, al grito de “Seguimos aquí! Y ahora sí, debí tirar más fotos…”
Referencias Bibliográficas
Freud, S. (1919). Lo siniestro.O.C.Vol XVII. (1975)
Kristeva, J. (1941). Extranjeros para nosotros mismos. Plaza y Janes. Barcelona (1991)
Palabras clave: Migración, Cultura, Procesos interculturales, Identidad, Psicoanálisis
Imagem: Bad Bunny en el show del medio tiempo del Super Bowl (foto de redes sociales)
Categoría: Cultura; Politica y Sociedad
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