
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Foi simples acidente
Hemerson Ari Mendes – Sociedade Psicanalítica de Pelotas (SPPel)
É a tradução mais literal de Un simple accident, que, para manter vivo o adágio traduttore, traditore, acabou vertido para o português como Foi apenas um acidente. Produção franco-iraniana, com direção e roteiro de Jafar Panahi, é um dos filmes escolhidos para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
A frase que nomeia a obra aparece logo no início e já introduz um paradoxo. Quando há uma morte — seja acidental, seja ocultamente decidida — nada é simples ou apenas. Se é acidente, não é simples. Se é simples, talvez não seja acidente. Chamar um acidente de simples é uma tentativa de domesticar o imprevisto. Na vida, como no filme, o retorno do reprimido costuma aparecer algumas quadras à frente.
Tentarei não dar spoilers, além das descrições já públicas. O filme aborda os traumas produzidos pela tortura — um infiltrado psíquico que hipersensibiliza e invade todos os sentidos. O sujeito torturado segue torturado e ameaçado onde quer que esteja. Ele não tem o trauma: ele é o trauma.
A ideia de vingança contra o eventual torturador captura os personagens que sofreram a violência; ao mesmo tempo, no plano ético, instaura-se o conflito central: como não ser capturado pelo espírito do torturador? Como diferenciar-se do algoz sem reproduzir sua lógica?
O peso do tema é tão intenso que, em determinado momento, o filme recorre a um registro quase pastelão, criando um intervalo de alívio para o espectador. O recurso ao tragicômico funciona: as manifestações caricatas geram identificação e convidam a pensar nas armadilhas relacionais torturantes menos literais — mas não menos traumáticas — que atravessam o cotidiano.
No desfecho, a narrativa recupera a densidade que o tema exige, inclusive abrindo espaço para compreender as forças motrizes que podem constituir alguém como torturante. Tudo isso sem perder de vista a resposta freudiana a Viereck, quando este o provocou com a frase Tout comprendre, c’est tout pardonner (“compreender tudo é perdoar tudo”). Freud responde com calma, sem pressa, como quem não precisa convencer, apenas dizer:
“Esse é um erro muito perigoso.
Compreender tudo não significa perdoar tudo.”
O final é impactante. Os ruídos não desaparecem. Mentes torturadas — e aqui vale incluir as humilhações cotidianas sofridas por povos, classes sociais e minorias — continuam a escutar ruídos. Ao mesmo tempo, o filme permite fantasiar que o complemento da resposta freudiana poderia servir como guia para tempos em que a tortura está longe de ser exclusividade dos perversos dos porões:
“Compreender pode tornar mais fácil ser firme. Não precisamos odiar alguém para nos defendermos dele.”
Não assisti a “O agente secreto”, filme brasileiro concorrente do iraniano, mas é interessante notar que ambos abordam condutas obscuras de regimes violentos.
O traumático nunca é apenas ou simples. Pode ser elaborado pelas reencenações — cinematográficas ou não — das gerações seguintes; mas, não raro, permanece como um cadáver insepulto, insistindo em retornar.
Palavras chaves: trauma, tortura, vingança, compreensão e elaboração.
Categoria: Política e Sociedade; Cultura
Imagem: foto de publicidade do filme
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