
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
O Invisível
Daniela Abarca, SBPSP
Desde 1975, o mundo celebra, em 8 de março, o Dia da Mulher, mas não há data definida como “Dia do Homem”. Os mais rápidos argumentariam que historicamente o homem sempre foi exaltado e privilegiado. Mas este é um fato curioso: 29 de janeiro não é o dia da pessoa trans, como se instituiu o Dia da Mulher; é o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Não se refere à pessoa, mas à realidade transgênero. O que se exalta e se comemora é uma árdua conquista. “Existimos, quer você aceite ou não”.
Ainda que haja dor, sofrimento, violências diversas contra pessoas trans, há uma esperança oscilante de que possamos crescer com a liberdade de ser quem se é. Convido o leitor a extrapolar a realidade trans para enfatizar a palavra visibilidade, que tem lugar central na questão.
O termo evoca o olhar, o reconhecer, o validar e, sobretudo, o respeitar. Segue urgente fazermos uma autoavaliação sobre como lidamos com as diferenças, mas não sem antes nos conscientizarmos de que a principal visibilidade a ser conquistada é a nossa para conosco mesmo.
Ainda que possamos vir a ser uma sociedade que respeita quem cada um é, pouco adianta se não pudermos enxergar, questionar e, se necessário, desconstruir ideais, por vezes erguidos por nós mesmos, do ser humano que deveríamos ser.
É certo que o mundo externo, e tantos de nós ao fechar os olhos, carrega imensa parcela de responsabilidade pelas dores, pela violência e pela morte impostas às pessoas trans. Mas minha proposta e convite visam à ampliação, esta, voltada ao mundo interno.
Quanto nos empenhamos em nos ver, questionar, burilar para tolerar o que cada um é?
Será utopia ser o primeiro a validar o próprio direito de ser? Esperançar que o meu direito à existência seja visto, reconhecido e respeitado pelo outro, ganharia, assim, novo sentido quando for de fato realidade no meu universo particular?
Donald Winnicott (1967), um dos autores de maior relevância para a Psicanálise, estabelece que é por meio do olhar do cuidador que o bebê se reconhece, sabe de si, função que ele nomeou como “especular”. Ver a si mesmo e se sentir reconhecido é ponto crucial para a constituição do self. Estamos no terreno da construção da intersubjetividade, como e de quais formas o real sustentado por cada indivíduo é fortemente atravessado pelas normas do seu meio, realidades compartilhadas, símbolos comuns, mas também pela intersubjetividade deste cuidador inicial.
Parece difícil sairmos ilesos da herança das venturas e desventuras vividas por nossos cuidadores iniciais em suas trajetórias. Para o mesmo autor (1967), a falha básica nos cuidados iniciais recebidos é abordada não apenas como uma fatalidade, mas também uma necessidade. Como espécie, a falha é um importante catalisador para que possamos desenvolver potencial criativo.
Winnicott preconiza que ao se deparar com a ausência no atendimento de suas demandas, o bebê empreende a busca por soluções autocalmantes. No entanto, salienta da mesma forma, que há de forma totalmente subjetiva, um limiar de tolerância a essa falha que delimita o terreno da criação e o do desastre, do trauma, do desamparo.
O dito popular nos propõe que “façamos do limão uma limonada” e a provocação que une os dois temas – falha básica e autovisibilidade – pode ser também o desafio de transpor presença, qualidade e dependência do olhar do cuidador para conquistarmos o próprio olhar cuidador.
Quão deliciosa pode ser a conquista de se erguer do engatinhar para andar, abandonar as rodinhas para pedalar livremente uma bicicleta, ou ainda, não necessitar virar-se para trás em busca do olhar incentivador e cuidador de alguém? Quantas vezes ouvimos colegas ou nossos próprios queixumes de que somos negligenciados por amigos, por líderes, pela família, pelos amores? Em muitas delas estaríamos nos esquivando da enorme dificuldade do cultivo do olhar cuidador para com a gente mesmo? Autonegligência?
Poderíamos nos debruçar na pesquisa e descoberta das causas dessa saída dolorosa buscada por tantos de nós, mas aqui me deterei apenas em uma – e esse é um ponto divergente para alguns teóricos da psicanálise. Não me parece que nossa personalidade e inclinações sejam pré-determinadas, inclino-me a pensar muito mais nos reflexos que os anos iniciais e a forma que esta construção intersubjetiva se dá na trajetória individual.
Quais foram minhas primeiras leituras do mundo, ou ainda, as primeiras traduções a mim ofertadas deste mesmo domo? Esperar que possamos realizar de forma totalmente independente a construção de autoestima/valorização e direito à visibilidade chega a ser pueril. Contudo, as falhas iniciais não necessariamente representam feridas incuráveis por se originar no passado. Longe disso, estão abertas e ardendo ainda hoje.
O convite ao autoconhecimento proposto pela Psicanálise a partir da relação com um outro e, por definição, um outro diferente (com todo pacote que o tema “diferença” nos desafia) é provar se a travessia é possível quando, agora, no presente, encontramos no par analítico a oportunidade, por vezes inédita, de sermos alvo de um olhar cuidador investido em nós.
Minhas crenças e vivências pessoais me mostram a força restauradora de uma relação desta natureza, não para produzir magicamente autovalor, mas para criar a dúvida, a interpelação das escolhas atuais e das alternativas que podemos pensar ali juntos. Quiçá um dia sejamos capazes da ousadia de quebrar crenças, padrões, normas.
Se há polaridade em tudo o que nossos olhos podem capturar, da mesma forma, sabemos que também uma relação psicanalítica pode ter efeitos devastadores quando semelhante a tantas outras relações, convida o sujeito à dependência, reforça ou propõe jogos de poder em que o analista ocupa a posição dominadora e o analisando de subjugado, como se houvesse uma máxima repetitiva a propor que “você não sabe nada de si e sou eu o único a lhe dar esse acesso”.
Podemos, então, pensar que a luta pela visibilidade transgênero, não somente travada no âmbito social, mas sobretudo individual, nos convoca a visitar a história de cada pessoa. Evitando o determinismo fatalista. A forma como o indivíduo se reconhece hoje não é a exata medida de como já foi visto, unicamente reflexo das identidades que lhe foram atribuídas no passado.
Neste 29 de janeiro, não se podem ignorar as marcas que uma histórica invisibilidade ou negação do direito à existência autêntica, praticada para com indivíduos desde a infância, podem ter sobre a identidade atual e acesso aos direitos pelos quais arduamente lutamos. Grande equívoco que potencialmente nos deixariam entregues à própria história e à própria dor.
A busca por reparação e a reescrita da cada história também estão representadas nas conquistas da visibilidade trans. A luta por visibilidade e direitos começa dentro de cada um.
Que sejamos capazes e tenhamos coragem de mergulhar neste oceano que somos para acessar, validar, ver e lutar por visibilidade a todas as lindas diferenças que nos marcam e nos fazem personagens desta trama diversa que é nossa sociedade.
Referência:
Winnicott, D. W. O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. In: O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. Original publicado em 1967.
Palavras-chave: Visibilidade transgênero, tolerância, direito à existência.
Categoria: Política e Sociedade
Imagem: Foto Sergio Lima
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