
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
*Existir é sonhar mundos impossíveis, é Erotar*
Angélica Almada (SPFOR)
Silvana Barros (SPFOR)
Bárbara Banida (Interartista)
Ao pensar o “Dia da Visibilidade Trans”, percebemos que o caminho que gostaríamos de trilhar para escrever este ensaio não era o das estatísticas de violência e morte — que, nesta mesma semana, confirmaram pelo quinto ano consecutivo a liderança mundial do Brasil —, mas justamente o caminho inverso. Escolhemos tornar visível aquilo que insiste em viver: a pulsão de vida que emana dos corpos dissidentes.
Foi preciso sair do nosso pequeno mundo quadrado. E, logo ali, bem perto, generosamente abertos para visitação, estavam mundos outros: manifestações artísticas insubmissas, gestões culturais desobedientes, práticas de existência que não pedem licença para acontecer. A intenção era deixar de falar sobre e experimentar um falar com. Como nos lembra Lélia Gonzalez, a partir da amefricanidade: “nada sobre nós, sem nós”.
Por isso, na semana da Visibilidade Trans, conversamos durante uma longa manhã de domingo com a interartista e gestora cultural Bárbara Banida, enquanto ela esculpia em seu ateliê, o Lugar Incomum. Também assistimos a uma Ballroom e conhecemos o projeto Trair o (Cis)tema. Entramos — e, a partir daí, seguimos em percurso de transmutação, inquietas, afetadas. Decidimos ver. Porque ver é uma ação. O neutro não enxerga.
Há experiências que não explicam — inoculam. Quando aceitamos nos afetar por lugares incomuns, corremos o risco de tocar aquilo que Schiller nomeou como o Sublime: uma experiência que excede a forma, suspende categorias habituais do entendimento e nos desloca de nós mesmas.
Foi assim o encontro com Erotar.
Durante a nossa conversa, Bárbara Banida diz: “Erotar nasce do encontro. De seres que tateiam, ensaiam o toque, engatinham ou serpenteiam juntos, até que algo possa vibrar na intimidade.” Para ela, os encontros são sempre colisões: “entre mundos distintos que, ao se tocarem, revelam pertencer a um mesmo ecossistema.” Encontrar o outro é também, afirma, “achar no outro quem somos nós.”
Erotar se apresenta, assim, como uma experiência viva de composição: “massas amnióticas que vibram”, corpos e matérias que se aproximam, compartilham limites, superfícies e membranas, formando configurações sempre provisórias. Um campo onde a diferença não separa, mas cria relação — “um contínuo atômico em expansão”, como nomeia Bárbara, no qual a criação acontece no entre.
As Criaturas
Começamos a reconhecer as criaturas — as de argila e as que, sem aviso, começaram a se mover dentro de nós. Diferenças. Buracos. Fendas. Prolongamentos. Braços. Pênis. Lábios. Grandes, pequenos. Texturas. Cores. Esmaltes. Tudo isso acontecendo ali: matéria viva feita de barro e de gente.
Enquanto Bárbara transformava suas Criaturas, algo também se transformava em nós. Uma mistura inquietante, quase quimérica. Não se tratava de compreender, classificar ou nomear, mas de coabitar uma experiência.
As Criaturas de Erotar não pedem encaixe. Existem em estado de passagem. Não obedecem a uma lógica binária, nem performam para agradar. Elas são — e, ao serem, desorganizam o olhar que busca destino, identidade fixa ou coerência normativa.
Aqui, a experiência trans aparece não como tema, mas como modo de existência. Não apenas como questão de gênero, mas como afirmação radical de vida fora do lugar previamente designado.
O forno
O forno introduz outra cena: espaços, dentro e fora, limites, fronteiras, separação, intrusão. Tempo.
Ainda vazio, aguarda a criação.
As Criaturas são aproximadas e recuadas. “Mais pertinho.” “Afasta um pouco”, nos diz Bárbara quando tentamos ajudá-la a organizar as peças. Enquanto argila crua e esmalte fresco, elas não podem se tocar durante a queima. Há respeito aos limites e aos espaços. Há cuidado. Elas são frágeis e precisam preservar seus contornos, sua singularidade.
Bárbara — mãe das Criaturas — cuida para que não se percam umas nas outras. Para que a proximidade não se transforme em invasão. Para que o encontro não vire ferida.
E não é assim também conosco?
Criaturas humanas, oscilando entre o medo da fusão e o pavor do isolamento. Desejando proximidade, sem anulação.
Após 24 horas, as criaturas sairão mais duras, mais resistentes. Com pele, brilho e cor transformada. O toque já não oferecerá o mesmo risco. Há agora uma superfície esmaltada. Uma história de fogo.
Pessoas trans sempre precisaram construir mundos que coubessem seus corpos. Corpos apartados por uma sociedade cis que não se autoriza ao contato íntimo à luz do dia. O mundo cisnormativo funciona como uma criatura inacabada — argila crua, ou melhor, cru-el.
Quem sabe uma visita às houses da cultura Ballroom pudesse servir de forno para essa gente crua. Ali acontecem batalhas performáticas onde pessoas trans brilham e são julgadas por seus pares, e não pela norma social. Assistimos ao Xica Manicongo Ball, homenagem à primeira travesti brasileira, e fomos atravessadas pela potência dessas coreografias que encenam quedas e reerguimentos. O corpo cai, levanta-se e segue dançando. O público vibra, reage, sustenta. Mais uma mostra de resistência — não por escolha estética, mas por necessidade vital. É preciso muita pulsão de vida para resistir criativamente.
Seguimos queimando no encontro com o Programa Trair o (Cis)tema, iniciativa artística e educativa do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE), que sustenta ações formativas e criações desenvolvidas por pessoas trans, travestis e não bináries — especialmente por meio do Ateliê de Criação Tecnologias Transvestigêneres — afirmando que visibilidade não é espetáculo e inclusão não é concessão simbólica, mas condição de existência.
Nessa aproximação, chegamos também à Escola Porto Iracema das Artes, instituição pública dedicada à criação e à formação artística, que se afirma como espaço de resistência e aposta na invenção. É ali que Bárbara desenvolve Erotar e amplia o gesto coletivo ao ajudar outros artistas, por meio da plataforma Banida, a atravessar os labirintos dos editais e a sustentar suas criações no mundo.
Quando equipamentos públicos assumem esse compromisso, não se trata de “tomar partido”, mas de reconhecer que a vida social é atravessada por regimes de visibilidade e apagamento.
Políticas públicas podem escolher a vida. É a isso que os projetos da Escola Porto Iracema das Artes como Erotar nos conduzem: terra larga.
Ao final do encontro, Bárbara comenta que estamos, as três, na esperança de criar rotas para o impossível. Afinal, este “possível” que temos — excludente, incompleto e violento — já sabemos onde leva. Despedimo-nos com a promessa de novos encontros e com a tarefa de escrever este ensaio a seis mãos.
Saindo do forno.
Desde que haja fendas — desde que algo em nós permaneça aberto ao desconhecido — o encontro com o outro pode ser fértil. Mas há grupos humanos que fecham suas aberturas, selam os poros e ocultam o que há de estrangeiro em si mesmos. O estranho vira ameaça. Erguem-se muros.
O que essas criaturas humanas sofreram para temer tanto o encontro com a diferença — dentro e fora?
A psicanálise corre o risco de quebrar, como barro sem queima, quando decide que há territórios que não devem ser revisitados. Quando acredita que certas perguntas — como aquelas que envolvem gênero, sexualidade e corpos dissidentes — já estão respondidas ou sequer pertencem ao campo psicanalítico. Nesse momento, deixa de ser escuta e passa a ser muro, reforçando a invisibilidade.
Pensamos como dissidentes todos aqueles que insistem em inscrever sua singularidade sem recusar as demais, mas também sem se submeter ao discurso normativo. E nos perguntamos: como a psicanálise tem escutado os corpos dissidentes?
A psicanálise, quando viva, sempre soube dialogar com o novo e com o disruptivo. Winnicott nos ensinou que viver criativamente é condição de saúde. Ogden nos convida a pensar a experiência analítica como ontológica — ligada ao ser e ao tornar-se. Saketopoulou insiste que a escuta deve respeitar a singularidade e o tempo do sujeito, lembrando que esperar não é neutralidade. Butler nos lembra que o que está em jogo são vidas vivíveis: vidas que possam ser reconhecidas, narradas e imaginadas para além da precariedade.
Nesse horizonte, tornam-se problemáticas as falas polidas, ancoradas em supostas “verdades científicas”, que se recusam a se aproximar da experiência viva. A pseudociência funciona, muitas vezes, como defesa contra a alteridade: promete cuidado, mas produz silenciamento. Não se trata de divergência teórica legítima, mas de recusa de reconhecimento.
Ao final, percebemos que a rota escolhida neste ensaio foi a da aproximação para sentir. Saímos, naquele fim de semana, abertas a escutar a experiência trans — não os discursos sobre ela, mas como pessoas trans vivem, amam, dançam, sofrem, resistem e inventam o futuro.
E encontramos mundos belos, múltiplos e sonhados.
Se sonhar outros mundos não é fuga, mas necessidade vital, talvez a psicanálise seja hoje convocada a reaprender a sonhar com aqueles que, historicamente, sempre precisaram inventar mundos para sobreviver.
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Palavras chave : Visibilidade trans, gênero e sexualidade, corpos dissidentes, psicanálise, cultura e políticas públicas.
Imagem: Erotar, obra de Bárbara Banida
Categoria: Política e Sociedade
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