Observatório Psicanalítico OP 658/2026

Quando o Mundo Falha. Cartas sobre crueldade, adolescência e espelhos partidos

José Antonio Sanches de Castro – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e  GEP- Marilia – SP

 

Reflexões sobre o caso Orelha e o que ele revela sobre nós

“Seria uma crueldade não oferecer ajuda aos adolescentes, pois alguns deles podem se encontrar em grande sofrimento diante dessas tarefas maturacionais que são complexas e de difícil solução.” — Donald Winnicott

Escrevo este ensaio em dias de incerteza. As investigações sobre a morte de Orelha ainda estão em curso, não há testemunhas diretas da agressão, não há imagens do momento exato, e ao menos um dos adolescentes inicialmente investigados já foi descartado pela polícia. Presunção de inocência não é tecnicismo jurídico; é princípio civilizatório. Este texto não acusa ninguém especificamente.

O que ofereço são reflexões sobre algo mais amplo: o que a comoção nacional em torno de Orelha revela sobre adolescência, falhas ambientais, e os desafios éticos de nosso tempo. Porque houve uma morte brutal. Houve falha civilizatória. E precisamos pensar sobre isso — com rigor, com compaixão, com humildade.

I. O que resta quando os cães não latem mais

Era janeiro. Calor de litoral, férias, crianças na areia. Na madrugada entre 3 e 4 de janeiro de 2026, algo se rompeu na Praia Brava, Florianópolis. Não foi o mar quebrando nas pedras — esse barulho é antigo, esperado. Foi algo mais silencioso e mais brutal: o último suspiro de Orelha, um cachorro de dez anos que durante uma década inteira foi símbolo vivo de que existe gentileza no mundo.

Orelha não tinha dono. Ou melhor: tinha centenas. Moradores construíram-lhe casinha. Comerciantes separavam comida. Veterinária atendia quando necessário. Crianças faziam festa. Turistas fotografavam. Ele era, à sua maneira canina, prova de que podemos escolher o cuidado em vez da indiferença, a comunidade em vez do isolamento.

E então, naquela madrugada, alguém o destruiu.

Quando encontrado, Orelha agonizava com ferimentos graves na cabeça. O veterinário que o atendeu foi categórico: não foi acidente. Foi agressão. Deliberada, brutal. Diante da gravidade irreversível, restou apenas a misericórdia da eutanásia para cessar o sofrimento.

Escrevo isso e sinto o estômago revirar. Imagino que você também. Mas não podemos desviar o olhar agora. Não para alimentar nossa indignação justa com especulações sobre culpados, mas para compreender o que essa tragédia revela sobre nós — sobre como estamos (ou não) cuidando de nossos adolescentes, sobre os espelhos partidos que oferecemos a eles, sobre as falhas civilizatórias que se acumulam silenciosamente até explodirem em atos incompreensíveis.

Porque aqui reside o espanto: como uma sociedade produz adolescentes capazes de crueldade extrema contra um animal comunitário que representava afeto coletivo?

Não pergunto “quem fez isso?” — essa é tarefa das investigações em curso. Pergunto algo mais profundo: que falhas sistemáticas nos trouxeram até aqui?

II. A sabedoria antiga das perdas

Há uma sabedoria antiga, quase um aforismo da experiência humana: aquilo que nos falta dói mais do que aquilo que nunca tivemos.

Pense no menino que conheceu o colo materno e depois o perdeu. Ele não esquece a temperatura daquele abraço. Passa a vida inteira buscando recuperá-lo — às vezes em lugares estranhos, de formas distorcidas. Diferente da criança que nunca conheceu o afeto: esta constrói defesas, torna-se autossuficiente à força. Mas aquela que teve e perdeu… ah, essa carrega uma ferida peculiar.

Esse é o coração de uma das compreensões mais revolucionárias sobre violência juvenil: muitas vezes, o ato destrutivo não nasce de um vazio primordial, mas de uma plenitude perdida. O adolescente violento está, paradoxalmente, gritando: “Houve algo bom que me foi roubado. Exijo reparação!”

Quando ele rouba, não busca apenas o objeto material. Tenta recuperar simbolicamente aquilo que lhe foi retirado — atenção, reconhecimento, a sensação de que importa para alguém. Quando destrói, está comunicando: “Se não posso ter o mundo que me prometeram, que ninguém tenha nada.”

É um grito de esperança mascarado de desespero.

Donald Winnicott, ao fundamentar a psicanálise também na questão do ambiente facilitador, ofereceu-nos essa compreensão. Para ele, a tendência antissocial não se origina primordialmente de conflitos intrapsíquicos, mas de uma deprivação — experiência de perda ou ausência de algo que, em algum momento, esteve presente e foi bom.

Imagine um rio que, durante anos, fluiu tranquilo por seu leito. De repente, encontra uma barragem: suas águas, impedidas de seguir o curso natural, começam a transbordar, inundando margens, destruindo o que encontram. Essa é a imagem da criança ou adolescente que vivencia deprivação: houve um tempo de suficiência — um ambiente que sustentava, que reconhecia, que permitia o desenvolvimento saudável. Então, algo falhou. O ambiente tornou-se intrusivo, ausente ou inadequado. E o que era potência de vida converte-se em destrutividade.

No caso que nos ocupa, os adolescentes investigados vêm de “famílias estruturadas” — expressão repetida à exaustão nos noticiários. Estruturadas como? Com casas grandes, carros importados, viagens internacionais?

Sim, essas famílias têm estrutura de concreto. Mas será que têm estrutura de afeto? Estrutura de presença? Estrutura de adultos que conseguem sustentar as angústias adolescentes sem desmoronar, sem fugir, sem transferir para empregados ou tablets a tarefa de criar um ser humano?

Porque o que sustenta uma criança não são paredes, mas olhares. E o que estrutura um adolescente não é conta bancária, mas a certeza de que pode explodir, duvidar, testar limites — e ainda assim será acolhido. Não aplaudido, não mimado. Acolhido. Há diferença abissal entre as duas coisas.

III. O teatro digital: espelhos que não refletem, amplificam

Agora preciso falar do elefante na sala — ou melhor, do algoritmo no bolso de cada adolescente.

As investigações policiais sobre o caso Orelha descartaram conexão com grupos online de tortura animal. Isso é importante: este caso específico aparentemente não nasceu de desafios digitais ou comunidades de zoosadismo. Mas isso não torna o fenômeno menos real ou menos urgente para pensarmos.

Porque existe, sim, uma rede global e pulsante onde adolescentes compartilham vídeos de tortura animal. Competem por visualizações. Ganham notoriedade. Alguns até monetizam o horror. Plataformas como Telegram viraram centrais de distribuição. Há rankings. Há desafios. Há uma economia perversa onde dor se converte em likes, e likes em sensação de importância.

O zoosadismo digital é real. Organizações internacionais de defesa animal reportaram mais de 80 mil links suspeitos em 2024. Adolescentes no Brasil e no mundo participam dessas redes. Casos documentados na China, Reino Unido, Estados Unidos mostram jovens torturando animais para câmeras, buscando validação em comunidades online que celebram crueldade.

Autoridades brasileiras que lidam com crimes digitais confirmam a escalada. A Juíza Vanessa Cavalieri, que acompanha há anos essa violência online, documenta plataformas como Discord onde grupos — as chamadas “panelas” — reúnem-se para praticar e transmitir ao vivo torturas de animais e pessoas. Em 2025, um morador de rua foi incendiado vivo no Rio de Janeiro durante uma dessas transmissões. O fenômeno não se limita a casos extremos: manifesta-se também no aumento da crueldade no bullying escolar, na violência doméstica de filhos contra mães e avós. É o que especialistas chamam de dessensibilização — cérebros em formação sendo moldados para tolerar graus absurdos de violência.

Mesmo que o caso Orelha não tenha nascido daí, precisamos urgentemente pensar sobre como as redes sociais estão moldando (e deformando) o psiquismo adolescente.

Pense nisso como um espelho. Não aqueles espelhos antigos de vidro bisotado que mostravam uma imagem relativamente fiel. Mas esses espelhos contemporâneos — múltiplos, fragmentados, algoritmicamente manipulados para nos mostrar versões exageradas de nós mesmos. Espelhos que não refletem: amplificam.

O adolescente sempre precisou de espelhos. Desde sempre. É olhando como os outros o veem que ele descobre quem é. Mas antes esses espelhos eram finitos — família, escola, amigos do bairro. Hoje são infinitos, anônimos, ferozes.

E eis o paradoxo cruel, documentado pelo Pew Research Center: 48% dos adolescentes reconhecem que redes sociais fazem mal para pessoas de sua idade. Mas apenas 14% admitem que fazem mal para eles mesmos. É como se dissessem: “Eu vejo o problema no outro, mas em mim… em mim é diferente. Eu controlo.”

Ninguém controla. Os adultos não controlam — por que adolescentes controlariam?

Imagine: você é um jovem de 14, 15 anos. Sente-se invisível na própria casa. Pais ausentes, ocupados, delegando afeto. Na escola, mais do mesmo — professores cansados, colegas competindo por atenção. Você pega o celular. Entra num grupo onde conteúdos extremos circulam. E de repente, você existe. Você tem audiência.

É uma droga. Literal. Ativa os mesmos circuitos neurais da cocaína. A OMS alertou que o uso problemático de redes sociais entre adolescentes europeus saltou de 7% para 11% em apenas quatro anos. No Brasil, estudos apontam correlação entre uso excessivo de telas e aumento de ansiedade, depressão e distúrbios do sono em jovens.

A distância entre assistir violência e perpetrá-la pode encolher. O que era barreira moral pode tornar-se desafio. Linha vermelha pode virar convite.

Não estou dizendo que redes sociais “causam” violência diretamente. Mas estou dizendo que são parte do ambiente que falha. E Winnicott nos ensinou: quando o ambiente falha, adolescentes vulneráveis podem responder com destrutividade.

IV. Os adultos que não estão lá

Aqui reside algo que me atordoa: segundo as investigações, três adultos — pais e tio de adolescentes investigados — foram indiciados por suposta coação a testemunhas. Eles negam as acusações, e o caso está sob análise do Ministério Público.

Se confirmado, estaremos diante não apenas de adolescentes perdidos, mas de um sistema familiar inteiro que opera numa lógica invertida: em vez de confrontar os jovens com consequências de seus atos, protege-os das consequências. Em vez de oferecer contenção (que é forma de amor), oferece cumplicidade (que é forma de abandono).

É como dizer ao adolescente: “Você pode fazer qualquer coisa. Nós cuidamos para que nada te aconteça.”

Parece amor, não? Mas é seu oposto. É empurrar o adolescente para uma solidão aterradora onde ele vira deus — omnipotente, sem limites. E não existe solidão maior que a omnipotência. Porque se você é deus, não existe o outro. Só você e seus caprichos.

Winnicott foi claro sobre isso: o adolescente precisa de adultos que digam não. Que o impeçam de se destruir e de destruir. Que ofereçam esse tipo estranho de amor que consiste em frustrar, em ser o muro onde o filho pode se apoiar justamente porque o muro não cede.

Mas o que acontece quando os adultos abdicam? Quando preferem ser amigos, cúmplices, protetores cegos?

Nasce a falsa maturidade. O adolescente é forçado a parecer adulto antes de ter estrutura para isso. Perde sua maior vantagem — o direito de ser imaturo, de errar em ambiente protegido, de testar limites sem que o mundo desmorone.

E quando não pode ser adolescente, quando não pode brincar, experimentar, viver sua confusão necessária… resta a descarga direta. O ato bruto. A violência como única linguagem disponível.

O caso do índio Galdino, queimado vivo por adolescentes de classe alta em Brasília (1997), nos ensinou isso há quase 30 anos. Adolescentes protegidos demais de consequências, vivendo numa bolha de impunidade familiar, podem chegar a extremos impensáveis. E quando a sociedade não funciona como contentor firme, apenas repete a tragédia em novas versões.

V. Orelha como símbolo do que perdemos

Há algo de profundamente simbólico no fato de a vítima ter sido Orelha.

Ele não era “apenas” um cachorro (como se existisse “apenas” cachorro). Era um cão comunitário. Não pertencia a ninguém individualmente. Pertencia a todos. Era simultaneamente de cada pessoa e de pessoa nenhuma. 

Durante dez anos, Orelha funcionou como uma espécie de cola invisível entre desconhecidos. O comerciante que separava comida, o morador que pagava veterinário, a criança que fazia carinho — todos participavam de algo maior que eles mesmos. Uma rede de cuidado espontâneo, sem contrato, sem pagamento, sem obrigação legal.

Pura gratuidade.

E talvez seja isso que doa tanto. Destruir Orelha não foi apenas matar um animal. Foi atacar a possibilidade mesma de vínculo empático, de generosidade sem cálculo, de comunidade.

Quem quer que tenha perpetrado aquela violência — e isso ainda está sob investigação — escolheu destruir o símbolo da gentileza coletiva. Como se dissesse: “Se não posso ter isso, ninguém pode.”

E o Brasil inteiro sentiu. Mais de 170 mil assinaturas em petições. Manifestações em dezenas de cidades. Cobertura internacional em veículos como Infobae, France 24, La Nación. Políticos de esquerda e direita (pela primeira vez em anos) unidos numa causa.

Por quê? Porque reconhecemos, ainda que inconscientemente, que Orelha éramos nós. Todos nós. Nossa capacidade de cuidar do vulnerável. Nossa escolha diária entre a crueldade e a compaixão.

A reportagem do Fantástico mostrou o desenho gigante do rosto de Orelha feito na areia da praia. Uma homenagem efêmera — o próximo vento a apagaria. Mas enquanto durou, foi testemunho: ainda somos capazes de luto coletivo por uma vida que importava.

VI. O que fazemos agora?

Chego ao ponto onde todo ensaio quer chegar: e agora?

Primeiro, precisamos abandonar a ilusão de que soluções simples existem. Não há lei mágica, não há punição exemplar, não há campanha de conscientização que resolva o que está rachado na base. 

Mas isso não significa resignação. Significa humildade para reconhecer que estamos diante de um problema de múltiplas camadas:

Camada jurídica: As investigações precisam seguir seu curso com rigor. Sem linchamento moral prematuro, mas também sem impunidade pela influência familiar. Presunção de inocência não significa negligência investigativa. Quem quer que tenha cometido aquela brutalidade precisa ser responsabilizado — não apenas punido, mas responsabilizado, que é processo ativo de subjetivação, não sofrimento passivo. Como alguém me ensinou em diálogo recente: responsabilização é a função alfa da sociedade — transforma elementos beta (angústia bruta, ato impensável) em elementos alfa (experiência que pode ser pensada, elaborada, reparada).

Camada individual: Adolescentes envolvidos em violência extrema precisarão de intervenção psicológica profunda, não apenas medida socioeducativa burocrática. Precisam de espaços onde possam ser confrontados com sua própria destrutividade dentro de um ambiente que sustente esse confronto sem retaliar nem abandonar. É difícil? Sim. Mas é o único caminho que não perpetua a violência.

Camada familiar: Famílias precisam ser incluídas no processo. Não para culpabilização vazia, mas para reconstrução de vínculos. Porque muitas vezes os pais também foram privados — de tempo, de presença, de ferramentas emocionais. A violência atravessa gerações até que alguém a interrompa conscientemente. Se confirmado o acobertamento, isso não pode ser ignorado: precisa ser confrontado, trabalhado, reparado.

Camada social: Precisamos conversar sobre redes sociais como nunca conversamos. A Austrália proibiu menores de 16 anos de acessar redes sociais. Outros países exigem verificação de idade e alertas semelhantes aos de cigarros. O Brasil precisa enfrentar essa discussão. Não por moralismo, mas porque há evidência científica de que essas plataformas causam dano mental em cérebros em desenvolvimento.

O ECA Digital, que entra em vigor em março de 2026, traz verificação de idade como primeira medida. É insuficiente, mas é começo. Não podemos terceirizar a formação ética de adolescentes para algoritmos que maximizam engajamento via conteúdo extremo. Plataformas que hospedam e amplificam violência — como Discord, Telegram, e outras — precisam ser responsabilizadas, não apenas os usuários que cometem os atos.

Camada educacional: Escolas precisam ensinar empatia com a mesma seriedade que ensinam matemática. Educar não é apenas transmitir conteúdo — é formar vínculos éticos, capacidade de se colocar no lugar do outro, reconhecimento de que todo ser vivo merece consideração moral.

Camada comunitária: O caso Orelha expôs redes globais de zoosadismo. Mesmo que não tenham se conectado a este caso específico, existem e precisam ser combatidas. Precisamos de canais efetivos de denúncia (Disque 100, Safernet, Polícia Federal), de fiscalização de plataformas digitais, de educação sobre os sinais de radicalização online.

É fundamental lembrar: plataformas como Discord têm idade mínima de 18 anos, mas menores acessam livremente. Cabe às famílias monitorar — afinal, quem entrega o celular, paga a conta, vincula o CPF são os adultos. Crianças e adolescentes não compram seus próprios aparelhos. A responsabilidade começa aí.

Mas acima de tudo, precisamos de presença.

Presença de adultos na vida de adolescentes. Não adultos perfeitos — esses não existem. Adultos suficientemente bons. Que erram, mas se corrigem. Que não sabem tudo, mas estão dispostos a aprender junto. Que conseguem dizer não sem deixar de amar. Que oferecem o colo quando necessário e o muro quando inevitável.

VII. O futuro que Orelha não verá

Termino voltando ao cachorro que nos trouxe até aqui.

Orelha não verá o futuro. Não saberá se sua morte gerou mudança. Não assistirá ao desfecho das investigações, não ouvirá o pedido de desculpas (se vier), não verá crianças sendo educadas de forma diferente.

Mas nós veremos. Ou melhor: nós decidiremos.

Podemos transformar esse caso em mais um episódio de indignação passageira. Hashtag da semana, matéria no jornal, esquecimento em quinze dias.

Ou podemos fazer dele um ponto de inflexão. Momento onde finalmente enfrentamos o que estamos fazendo (e deixando de fazer) com nossos adolescentes. Onde reconhecemos que tablets não substituem abraços, que telas não substituem olhares, que dinheiro não substitui presença.

Há um provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”

Orelha foi cuidado por uma aldeia. Morreu porque algo nessa aldeia falhou brutalmente. Mas a aldeia toda respondeu — com choro, com raiva, com mobilização.

A pergunta que fica é: será que essa aldeia conseguirá se reorganizar para cuidar de suas crianças humanas com a mesma dedicação que cuidou de um cachorro comunitário?

Porque se conseguirmos — se verdadeiramente conseguirmos construir ambientes onde adolescentes possam crescer sem precisar destruir para existir, onde possam sentir que importam sem precisar chocar para serem vistos, onde possam errar sem serem abandonados…

Se conseguirmos isso, então a morte de Orelha não terá sido apenas tragédia.

Terá sido semente.

Pós-escrito: A vontade de uma carta aos adolescentes

Se você é adolescente e chegou até aqui, quero te dizer algo diretamente:

O que aconteceu na Praia Brava não define sua geração. Você não é responsável por aquela violência. Mas você é responsável pelas suas próprias escolhas.

Sei que é difícil. Sei que o mundo digital te puxa para extremos. Sei que às vezes você se sente invisível na própria casa. Sei que a raiva se acumula quando adultos não te escutam de verdade.

Mas escuta: violência nunca é resposta. Crueldade nunca te fará sentir menos vazio. Destruir o outro não reconstrói o que está quebrado dentro de você.

Se você está sofrendo, se sente que ninguém te vê, se a raiva parece incontrolável — peça ajuda. Fale com um adulto de confiança. Procure atendimento psicológico. Use os canais de apoio disponíveis (CVV 188, por exemplo).

Você não está sozinho. E você não é um dos seus piores impulsos. Você é também — principalmente — sua capacidade de escolher o cuidado em vez da crueldade.

Escolha bem.

Canais de denúncia de crimes online

Se você presenciar abusos online (zoosadismo, pornografia infantil, exploração sexual):

DISQUE 100 (24h) – gov.br/mdh/disque100
SAFERNET BRASIL – new.safernet.org.br/denuncie
POLÍCIA FEDERAL – apps.pf.gov.br/r/comunicapf
POLÍCIA CIVIL – 197 ou busque “Delegacia Eletrônica [seu estado]”

Denúncias podem ser anônimas. Não baixe conteúdo ilegal. Salve prints e URLs. Em risco imediato, ligue 190.

Para continuar pensando

Sobre adolescência e ambiente:

  • Winnicott, D.W. – “Privação e Delinquência”
  • Levisky, D.L. – “Adolescência pelos Caminhos da Violência”
  • Loparic, Z. – “O Modelo Winnicott de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei”

Sobre redes sociais e saúde mental:

  • Haidt, Jonathan – “The Anxious Generation”
  • Relatórios do Pew Research Center sobre adolescentes e tecnologia
  • OMS – Relatórios sobre uso problemático de redes sociais entre jovens europeus
  • Cavalieri, Vanessa (Juíza) – Entrevista à CNN Brasil sobre violência digital e dessensibilização de adolescentes (janeiro 2026)

Sobre crueldade, ética e responsabilização:

  • Arendt, Hannah – “Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal”
  • Zehr, Howard – “Trocando as Lentes: Justiça Restaurativa”
  • Bion, Wilfred – “Aprendendo com a Experiência”

Documentários:

  • “The Social Dilemma” (sobre manipulação algorítmica)
  • “Childhood 2.0” (sobre infância e telas)

Escrito em janeiro de 2026, dias após a tragédia de Orelha. Atualizado em 02/02/2026 após reportagem do Fantástico revelando o andamento das investigações. Este ensaio são reflexões sobre fenômenos contemporâneos que desafiam nossa compreensão clínica e ética.

Os fatos foram obtidos de fontes jornalísticas confiáveis e investigações policiais em curso. Nenhuma conclusão aqui apresentada substitui o devido processo legal. Buscamos compreensão, não julgamento.

Que possamos aprender a cuidar melhor de nossos adolescentes. Antes que mais Orelhas sejam necessários para nos acordar.

Palavras-chave: Adolescência, Deprivação ambiental, Falhas ambientais, Presunção de inocência

Imagem: foto do Orelha circulada em várias mídias sociais 

Categoria: Política e Sociedade

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

Os ensaios são postados no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página: 

https://www.facebook.com/share/p/1FxESSgSjL/?mibextid=wwXIfr

No Instagram: @observatorio_psicanalitico

Se você é membro da FEBRAPSI/FEPAL/IPA e se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, inscreva-se no grupo de e-mails do OP para receber nossas publicações. Envie uma mensagem para: [email protected]

Categoria:
Tags: adolescência | Deprivação ambiental | Falhas ambientais | Presunção de inocência
Share This