Observatório Psicanalítico OP 657/2026 

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Venezuela: Um mapa desfigurado

Sodely Páez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC)

Escrevo estas linhas a partir do meu lugar de migrante venezuelana, na tentativa de alinhar algumas ideias sobre o que foi uma experiência pessoal, mas que de algum modo tangencia a de tantos outros no mundo e a de muitos compatriotas. Dizia em outro lugar que migrar não é simplesmente mudar de território; é também atravessar um limiar simbólico que desorganiza os mapas do eu. O migrante não se desloca apenas no espaço geográfico, mas no espaço psíquico, onde se inscrevem as coordenadas de sua identidade. Tudo se desconfigura.

É verdade que, desde as origens do mundo, os movimentos migratórios constituem uma característica essencialmente humana na busca por melhores condições de vida. Atualmente, as estimativas do Acnur para meados de 2025 apontavam mais de 117,3 milhões de pessoas deslocadas por conflitos e perseguições; entre elas, 36,4 milhões em busca de reassentamento e 130 milhões de apátridas, sem lugar onde possam se enraizar após a perda da terra que os viu nascer.

Embora a história da humanidade seja a história das migrações — e com elas o inegável enriquecimento cultural e social que delas resulta —, é necessário mencionar a violência que as atravessa, o abuso e a exploração por parte de poderosos que lucram com seu comércio e tráfico. Não por acaso, encontramos populações inteiras escravizadas desde o início da civilização. Mas será mesmo assim? Poderíamos chamar de civilizada essa sede de domínio, controle ou apropriação? O que entendemos por civilização? O que entendemos por ato e gesto civilizatório? As primeiras e mais antigas representações da arte simbólica? A agricultura? A domesticação de animais? A construção de embarcações para a navegação rumo a lugares remotos? O triunfo do sedentarismo sobre o nomadismo?

Mead (1970) afirmou que uma cultura ideal é aquela que dá lugar a cada um dos seres humanos que a compõem, sem exclusão alguma — sejam próprios ou estrangeiros — respeitando sua diversidade e potencialidades. Nesse sentido, o mito que nos apresenta um Zeus violento e todo-poderoso em seu rapto de Europa também revela seu lado mais hospitaleiro e generoso ao defender o migrante e obrigar os gregos a acolhê-los e lhes oferecer um tratamento bom e respeitoso. Eles os recebiam e ajudavam não apenas por mandamento divino, mas, sobretudo, por temor de perder a proteção de Zeus, deus do estrangeiro.

Em seu discurso ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais, em 2008, Todorov declarou:

“A maneira como percebemos e acolhemos os outros, os diferentes, permite medir nosso grau de barbárie ou de civilização… Ser civilizado significa ser capaz de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, ainda que tenham rostos e hábitos distintos dos nossos; saber colocar-se em seu lugar e olhar para nós mesmos como se estivéssemos de fora.”

Em uma linha próxima à de Kristeva, o autor afirmou: “todos somos estrangeiros em potencial”.

Mas há períodos de nossa história que nos fazem duvidar de nós mesmos e nos enchem de profundo pessimismo em relação à raça humana. Basta lembrar, entre outros horrores impensáveis, os diversos genocídios ocorridos, ou o período do tráfico transatlântico entre os séculos XVII e XIX, durante o qual se estima que cerca de 12,5 milhões de africanos foram sequestrados em seu próprio continente por potências estrangeiras e enviados às Américas. Acredita-se que, ao todo, cerca de 6 milhões de pessoas tenham sido escravizadas ao longo de 246 anos (U.S. Census Bureau, 1970).

Após a abolição da escravidão nos Estados Unidos, declarada em 1865, muitas crianças desamparadas e sem lar encontraram, em comunidades indígenas, famílias que as acolheram apesar de suas próprias privações (Indian Country Today, 2013). Esses não foram gestos isolados, mas práticas que se repetiram entre diferentes comunidades nativas americanas, demonstrando serem muito mais civilizadas do que a população branca restante. Talvez unidas pela necessidade, deram origem, por meio da compaixão e da fraternidade, a uma nova cultura resultante da mistura de tradições, costumes e sangue. O mestiçamento entre brancos e negros permaneceu proibido por lei até 1967, quando a Suprema Corte declarou essa legislação inconstitucional (Gerstenfeld, 2022).

O racismo se estendeu ao longo do tempo e ceifou a vida de líderes da comunidade negra estadunidense, descendentes de imigrantes escravizados, como Malcolm X e Martin Luther King, cujo legado é homenageado anualmente em 19 de janeiro, sem que ainda se tenha alcançado uma verdadeira igualdade. Hoje, negros somos todos nós — todos os migrantes latino-americanos que tentamos fazer vida nos Estados Unidos. Rejeitados, marginalizados, sob um presidente que dirige seu discurso e suas práticas à nossa expulsão, enquanto abre as portas à migração branca e economicamente poderosa.

O escritor franco-libanês Amin Maalouf (2025), ao receber o prêmio de literatura em línguas românicas, sentenciou com certo tom de derrota: “a civilização caminha para o naufrágio”. E é que a hospitalidade parece ter abandonado o mundo, sem um Zeus ou uma lei que a defenda e a imponha.

“Para que exista atividade psíquica, dizia Puchol (2016), é imprescindível a confiança no outro, poder duvidar e questionar seu pensamento com a garantia de sobreviver às diferenças. É na alteridade, no reconhecimento do outro como distinto, que conseguimos advir como sujeitos psíquicos” (Páez, 2024, p. 1). A identidade cresce na alternância entre semelhanças e diferenças, em suas infinitas combinações possíveis. Assim, ela se enriquece e se complexifica. Não é algo dado, imanente. A pergunta pelo ser excede os essencialismos identitários e é a partir do outro, no vínculo com ele, nesse entrelaçamento e nessa intimidade, que nos tornamos sujeitos. Esse outro que nos olha de fora e no qual nos encontramos, reconhecendo algo de nossa própria humanidade. Essa relação ética com o outro é a que nos exige responsabilidade por ele. “Desde o momento em que o outro me olha, eu sou responsável por ele”, diz Lévinas (1987). Uma assimetria que não me concede direitos, mas deveres. Seu rosto é o mediador de um encontro infinito. Daí o medo que ele nos provoca e a razão pela qual não queremos vê-lo, desviamos o olhar e jogamos com sua invisibilidade — a do diferente, do estrangeiro — por meio da rejeição, da negação de um status que o legitime, da exclusão ou da deportação.

O outro parece ter desaparecido. Han (2016), de forma categórica, afirmou: “Os tempos em que existia ‘o outro’ passaram. O outro como amigo, o outro como inferno, o outro como mistério, o outro como desejo, vai desaparecendo… A expulsão do distinto e o inferno do igual colocam em marcha um processo destrutivo… Todo estrangeiro tem direito de permanência em outro país… Pode permanecer ali por algum tempo sem sofrer reações xenófobas (desde que) se comporte pacificamente em seu lugar.”

Segundo Kant (1795), ninguém tem mais direito do que outro de estar em um lugar da Terra. A hospitalidade não é uma noção utópica, mas o direito de todo estrangeiro a receber um tratamento digno, respeitoso e humano no território de acolhida. Trata-se de uma ideia vinculante da razão — um direito universal e uma obrigação moral.

E, no entanto, é ainda mais doloroso viver a hostilidade, a perseguição, a condição de estrangeiro e a rejeição em seu próprio país. É o caso da Venezuela, um país sequestrado por uma narco ditadura que já soma quase 30 anos no poder e que persegue, encarcera, tortura, desaparece, assassina e expulsa aqueles que ousam pensar diferente e levantar a voz. Esses somos nós, os outros — não importa a idade, a profissão, a raça ou o gênero. Outros dentro da própria pátria, a quem Chávez chamou de “esquálidos” e perseguiu com os “círculos bolivarianos” criados para defender sua mal chamada revolução do século XXI, muito antes de designar o ilegítimo Maduro como seu sucessor.

A ONG Foro Penal da Venezuela contabiliza, entre 2003 e 2024, um número que se aproxima de 16 mil presos políticos, cujos direitos humanos foram sistematicamente violados sob o olhar indiferente das organizações internacionais. Esse número vem crescendo após a notória derrota do regime nas eleições de julho de 2024 e continua aumentando mesmo após a intervenção de Trump, em 3 de janeiro, com a captura do usurpador Maduro e de sua esposa criminosa, no que se tornou uma espécie de porta giratória: libertam-se alguns para encarcerar muitos outros. Seis deles estão presos há mais de 20 anos; 117 são menores de idade; 177 são mulheres; 14 indígenas; e 17 pessoas com deficiência. Em 10 de março de 2025, o Foro Penal registrou o desaparecimento de 64 detidos e 11 mortos sob custódia (Diario Las Américas, 2024). Até hoje, o pacto de libertação dos presos políticos sob as diretrizes do governo Trump não se concretizou. Atualmente, ainda há 777 pessoas presas, e acredita-se que muitas delas estejam mortas ou com graves deteriorações físicas e cognitivas.

Esse panorama desconcertante, somado ao temor de que um ditador seja substituído por outro, pode ser interpretado como o retorno do fragmentado: aquilo que foi separado pela lógica ideológica reaparece agora como partes dispersas de uma identidade social ferida. Tristeza, ressentimento, medo e esperança convivem simultaneamente em um mesmo corpo social, sem que ainda seja possível articular uma narrativa comum que permita uma elaboração compartilhada do ocorrido. São 30 anos de um trauma social sustentado. Gerações inteiras que não conhecem a palavra liberdade nem sabem o que é viver em democracia. Uma população sistematicamente golpeada que, em meio à sua desesperança e incerteza, deposita sua expectativa em um governante estrangeiro que negocia com membros do regime interveniente, desconhece o presidente eleito pelos venezuelanos em 2024, desqualifica a líder da oposição — vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025 — e decide os destinos do país. Um governante de perfil autoritário que não respeita a Constituição de seu próprio país e investe contra seus próprios habitantes com forças paramilitares chamadas ICE, justificando de qualquer forma os 37 mortos já contabilizados sob suas ações. Os venezuelanos somos seu principal alvo.

Durante esses longos anos, a migração se apresentou para nós como uma estratégia de sobrevivência. Atualmente, as cifras da diáspora venezuelana ultrapassam os 8 milhões de cidadãos espalhados pelo mundo (ACNUR). Pés errantes que fogem sozinhos ou com suas famílias para onde o caminho permitir, sem nada nos bolsos, deixando a pele — e às vezes a vida — na fuga. Fogem para o sul da América Latina ou para o norte, atravessando o Estreito de Darién (região selvagem e inóspita na fronteira entre a Colômbia e o Panamá, caracterizada por densa floresta tropical e pântanos onde muitos adultos e crianças foram arrastados e devorados por suas águas). Em lugar nenhum são bem-vindos, especialmente se são pobres, negros ou mestiços. 

Onde ficou a hospitalidade?

O retrocesso continua. Hoje, fronteiras e muros interculturais, raciais, religiosos e políticos se elevaram e se tornaram mais intransponíveis. A rejeição e a intolerância ao diferente se intensificam, e o progresso como espécie se estagna — regredimos como cultura com o exacerbamento dos nacionalismos, da exclusão, da discriminação e da perseguição. Os migrantes somos os novos escravizados de uma sociedade de consumo que nos rejeita, mas ao mesmo tempo nos necessita na ilegalidade, como mão de obra barata, sem privilégios, direitos ou benefícios.

O narcisismo patológico evidenciado nesses comportamentos transformou pequenas diferenças em oposições insuperáveis. O outro torna-se o ominoso, o portador do mal, a verdadeira peste que vem corromper e contagiar com seu veneno os habitantes imaculados, supostos donos da terra prometida. Assim, o imigrante é demonizado e falsamente acusado de cometer mais crimes — e mais horrendos — do que os cidadãos nativos.

Essa realidade ampliada exige soluções políticas, morais e humanas sérias e comprometidas, não apenas contra os atos explícitos de xenofobia, mas também contra essa xenofobia branda, pseudojustificação, que habita aqueles que nos toleram, mas não nos querem por perto.

Ao luto pela perda de referências de todo tipo — afetivas, sensoriais, sociais, culturais, muitas vezes profissionais (“é preciso se reinventar, começar do zero”, ouve-se com frequência já transformada em slogan) e econômicas —, ao risco de extinção de tudo aquilo que fazia parte da subjetividade e da identidade e que até então era reconhecido como próprio, somam-se agora os desafios enfrentados pelo migrante para se inserir e fazer seu o novo lugar: incorporar novos hábitos, novos códigos, muitas vezes uma nova língua, um novo clima. 

Os analistas, nesses “mundos sobrepostos”, não estamos isentos de sofrer e de lidar com as difíceis exigências — às vezes impossíveis de satisfazer — no caminho para adquirir uma nova cidadania e, ao mesmo tempo, ser reconhecidos, aceitos e incluídos nas novas instituições: documentos, trâmites, legalizações de títulos, revalidações da profissão anterior e muito mais, o que torna tudo extremamente árduo, quando não impossível.

Na experiência migratória, a identidade fica para sempre perfurada, com feridas que deixam cicatrizes indeléveis. Embora tudo no ser humano — desde a vida extrauterina — seja uma migração constante (seu desenvolvimento psíquico desde as primeiras etapas, sua libido do narcisismo ao objeto, seu próprio corpo), essa nova tarefa terá maior êxito se a possibilidade de elaborar lutos pelas mudanças e perdas ao longo da vida tiver ocorrido de modo suficiente para sustentar aquelas que agora precisam ser elaboradas. 

Circunstâncias externas adversas comprometem e interferem nesse processo, podendo gerar efeitos “radioativos” (parafraseando Gampel) que podem se converter em um novo trauma e/ou reativar traumas anteriores.

Compartilho a ideia de que quem migra sofre uma espécie de destituição subjetiva e que, nos interstícios entre o instituído e o instituinte, pode encontrar uma restituição — um novo projeto identificatório e vital que sustente a ilusão de um porvir. Outros elementos entram em jogo. A idade pesa e encurta a esperança. O idioma importa; crianças e adolescentes, em sua tentativa de se incluir na nova cultura, acabam renunciando ou resistindo a falar sua língua materna. Mas, na clínica, observamos que, mesmo quando dominam essa nova língua, sempre resta algo intraduzível — algo que fica fora, inacessível, da ordem da palavra, mas sobretudo do afeto, que só pode ser tocado no idioma original. Em inglês, por exemplo, não há uma palavra para comadre ou compadre, para irmãozinhofilhinho — não apenas pelos diminutivos, mas pela ternura implícita nessas nomeações.

O transtorno que acompanha o migrante, conhecido como o “mal de Ulisses”, existe e perdura para sempre. Os que migramos seremos sempre estrangeiros, em toda parte — inclusive, se acaso voltarmos, em nossa própria pátria. E a nossa se mostra remota em sua possibilidade de independência e recuperação.

“Viver em terra alheia singulariza, faz-nos viver uma experiência que coloca à prova a consciência do limite” 

(Bujanda, 2025).

Referencias bibliográficas

ACNUR. https://www.acnur.org

Bujanda, H. (2025). Cumplir años en lengua buji. hectorbujanda.blog

Diario Las Américas. (2024).

Eltis, D.; Richardson, D. (2010). Atlas da trata transatlântica de escravos. Yale University Press.

Gerstenfeld, J. (2022). Leis sobre o casamento interracial. EBSCO.

Han, B.-C. (2016). A expulsão do distinto. Titivillus.

Indian Country Today. (2013).

Kant, I. (1795). À paz perpétua: um projeto filosófico. Ed. Alamanda, Madri, 2018.

Lévinas, E. (1987). Ética e infinito. La Balsa de la Medusa, Madrid, 1991.

Maalouf, A. (2025). Entrevista a Carlos Maldonado. El País.

Mead, M. (1970). Cultura e compromisso. Gedisa, Barcelona, 2019.

Páez, S. (2024). Psicanálise e fanatismo. Trópicos – Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Caracas, v. 1.

Todorov, T. (2008). Discurso ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias. Fundação Princesa de Astúrias.

U.S. Census Bureau. (1970).

Palavras-Chave:  Migração, violencia, trauma social, identidade, trauma psíquico

Imagem: Estreito de Darien

Categoria: Política e Sociedade

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——Texto original em espanhol————————————————————–

Observatorio Psicoanalítico – OP 657/2026

Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo

Venezuela: un mapa desdibujado

Sodely Páez – Sociedad psicoanalítica de Caracas (SPC)

Escribo estas líneas desde mi lugar de migrante venezolana, en el intento de hilvanar algunas ideas acerca de lo que ha sido una experiencia personal pero que roza de algún modo la de otros tantos en el mundo y la de muchos otros compatriotas. Decía en otro lugar que migrar no es simplemente cambiar de territorio; es también atravesar un umbral simbólico que desordena los mapas del yo. El migrante no se desplaza sólo en el espacio geográfico, sino en el espacio psíquico que es donde se inscriben las coordenadas de su identidad. Todo se desconfigura.

Es cierto que, desde los orígenes del mundo, los movimientos migratorios han constituido una característica esencialmente humana en la necesidad de encontrar mejores condiciones de vida. En la actualidad, las estimaciones de ACNUR para mediados de 2025 fueron de más de 117.3 millones de personas desplazadas por conflictos y persecuciones; entre ellas, 36.4 millones en busca de reubicación y 130 millones de apátridas, sin lugar donde poder arraigarse después de la pérdida del que los vió nacer.

Si bien la historia de la humanidad es la historia de las migraciones y con ellas el innegable enriquecimiento cultural y social que de las mismas resulta, necesario es mencionar la violencia que las atraviesa, el abuso y la explotación por parte de poderosos que lucran con su mercadeo y tráfico. Tal es así, que nos encontramos con poblaciones enteras esclavizadas desde el comienzo de la civilización. ¿Pero es así? ¿podríamos llamar a esta sed de dominio, control o apoderamiento, civilizado? ¿Qué entendemos por civilización? ¿Qué entendemos por acto y gesto civilizatorio? ¿Las primeras y más antiguas representaciones de arte simbólico? ¿La agricultura? ¿La domesticación de animales? ¿La construcción de embarcaciones para la navegación hacia lugares remotos? ¿El triunfo del sedentarismo sobre el nomadismo? 

 Afirmó Mead (1970) que una cultura ideal es aquella que da lugar a cada uno de los seres humanos que la conforman, sin exclusión alguna: sean propios o ajenos respetando su diversidad y potencialidades. En este sentido, el mito que nos presenta a un Zeus violento y todopoderoso en su rapto a Europa, también muestra su lado más hospitalario y generoso al defender al migrante y obligar a los griegos a recibirlos y brindarles un trato amable y bueno. Estos los acogían y ayudaban no sólo por mandato divino sino, fundamentalmente, por temor a perder la protección de Zeus, Dios del extranjero.

En su discurso, al recibir el premio Príncipe de Asturias de Ciencia Sociales en 2008, Todorov declaró:” Como percibimos y acogemos a los otros, a los diferentes, se puede medir nuestro grado de barbarie o de civilización…Ser civilizado significa ser capaz de reconocer plenamente la humanidad de los otros, aunque tengan rostros y hábitos distintos a los nuestros; saber ponerse en su lugar y mirarnos a nosotros mismos como desde fuera.” En una línea similar a la de Kristeva, el autor afirmó: “todos somos un extranjero en potencia”

Pero, hay periodos en nuestra historia que nos hacen descreer de nosotros mismos y nos llenan de profundo pesimismo respecto de la raza humana. Recordaría, entre otros horrores impensables, como los son los distintos genocidios ocurridos, la época de la trata transatlántica entre los siglos XVII-XIX, durante la cual se estima que unos 12,5 millones de africanos fueron secuestrados en su propio continente por potencias extranjeras y enviados a las Américas. Se cree que en total fueron 6 millones las personas que fueron esclavizadas durante 246 años (U.S. Census Bureau,1970) … Luego de la abolición de la esclavitud en los EEUU, declarada en 1865, muchos niños desamparados y sin hogar, encontraron en comunidades indígenas, familias que los acogieron a pesar de sus propias privaciones (Indian Country Today, 2013) . Estos no fueron gestos aislados sino prácticas que se repitieron y sucedieron entre distintas comunidades de nativos americanos que demostraron con ello ser mucho más civilizados que la población blanca restante. Tal vez unidos en la necesidad, dieron a través de la compasión y la fraternidad, nacimiento a una nueva cultura resultante de la mezcla de tradiciones, costumbres y sangre. Mestizaje entre blancos y negros prohibido por ley hasta hasta 1967, cuando la Corte Suprema declaró esa ley inconstitucional (Gerstenfeld,.2022). 

El racismo se extendió a través de los tiempos y se llevó la vida de algunos líderes de la comunidad negra estadounidense, descendientes de inmigrantes esclavos como lo fueron Malcolm X o Martin Luther King cuyo legado es honrado cada año el 19 de enero, sin que se haya logrado todavía una verdadera igualdad. Hoy, negros somos todos, todos los migrantes latinos que tratamos de hacer vida en los EEUU. Rechazados, marginados, con un presidente que dirige su discurso y sus prácticas a nuestra expulsión, al tiempo que abre las puertas a la migración blanca y económicamente poderosa.

El escritor franco libanes Amin Maalouf (2025), al recibir el premio de literatura en lenguas romances, con cierto ánimo de derrota sentenció: “la civilización se dirige al naufragio”. Y es que la hospitalidad parece haber abandonado el mundo, sin un Zeus o una ley que la defienda e imponga.   

“Decía Puchol (2016), que para que exista actividad psíquica es imprescindible la confianza en el otro, poder dudar y cuestionar su pensamiento con la garantía de sobrevivir a las diferencias. En alteridad, en el reconocimiento del otro como distinto es que logramos advenir como sujetos psíquicos” (Páez, 2024.p.1). La identidad se crece en la alternancia de semejanzas y diferencias, en sus infinitas combinatorias posibles. Así se va enriqueciendo y complejizando. No es una cosa dada, inmanente. La pregunta por el ser excede los esencialismos identitarios y es a partir del otro, en el vínculo con él, en ese anudamiento y en extimidad, como devenimos sujetos. Ese otro que desde fuera nos mira y en el que nos encontramos, reconociendo algo de nuestra propia humanidad en él. Esta relación ética con el otro es la que nos exige una responsabilidad hacia él.” Desde el momento en que el otro me mira, yo soy responsable de él” dice Levinás (1987). Una asimetría que no me otorga derechos, sino deberes. Su rostro es el mediador de un encuentro infinito. De allí el miedo que nos produce y la razón por la que no queramos verlo, que desviemos la mirada y juguemos a su invisibilización, (la del diferente, del extranjero), mediante el rechazo, la negación de un status que los legitime, la exclusión o la deportación.

El otro parece haber desaparecido. Han (2016), categórico, afirmó: “Los tiempos en los que existía «el otro» han pasado. El otro como amigo, el otro como infierno, el otro como misterio, el otro como deseo, va desapareciendo… La expulsión de lo distinto y el infierno de lo igual ponen en marcha un proceso destructivo…. todo extranjero tiene derecho de estancia en otro país…Puede pasar un tiempo ahí sin sufrir reacciones xenófobas (eso sí) mientras se comporte pacíficamente en su sitio”. 

Según Kant, (1795) nadie tiene más derecho que otro a estar en un lugar de la Tierra. La hospitalidad no es una noción utópica, sino el derecho de todo extranjero a recibir un trato digno, respetuoso y humano en el territorio de acogida. Es una idea vinculante de la razón. Un derecho universal y una obligación moral.  Y sin embargo es más doloroso aún vivir la hostilidad, la persecución, la extranjería y el rechazo en el país propio. Es el caso de Venezuela, un país secuestrado por una narco tirania que lleva ya casi 30 años en el poder y que persigue, encarcela, tortura, desaparece, asesina y expulsa a los que osen pensar diferente y levantar su voz. Esos somos los otros, no importa la edad, profesión, raza, o género. Unos otros dentro de nuestra propia patria a los que Chavez llamó “escuálidos” y a los que persiguió con los “círculos bolivarianos” que armó para defender su mal llamada revolución del siglo XXI, mucho antes de designar al ilegítimo de Maduro como su sucesor.

La ONG El Foro Penal de Venezuela cuenta, desde 2003 hasta 2024, un número que roza los 16.000 presos políticos, a los que les han violado todos sus derechos humanos bajo la mirada indiferente de las organizaciones internacionales. Número que ha venido creciendo a raíz de la notoria derrota del régimen en las elecciones de julio 2024 y que sigue en aumento aun después de la intervención de Trump el pasado 3 de enero con la captura del usurpador Maduro y su criminal esposa, en lo que se ha convertido una puerta giratoria por donde excarcelan a algunos para encarcelar a muchos más. Seis de ellos llevan más de 20 años en prisión, 117 son menores de edad, 177 mujeres, 14 indígenas y 17 personas con discapacidad. El 10 de marzo de 2025, el Foro Penal determinó la desaparición de 64 detenidos y 11 muertos bajo custodia (Diario las américas 2024).Hoy en día el pacto de liberar los presos políticos bajo las directrices del gobierno de Trump no se ha concretado. Al día de hoy aún hay 777 personas presas y se cree que muchas de ellas están muertas o con graves deterioros físicos y cognitivos. Este desconcertante panorama y el temor a que un dictador sea sustituido por otro, podría interpretarse como el retorno de lo fragmentado: aquello que fue separado por la lógica ideológica reaparece ahora como partes disgregadas de una identidad social herida. La tristeza, el resentimiento, el miedo y la esperanza conviven simultáneamente en un mismo cuerpo social, sin poder todavía articular una narrativa común que permita una elaboración compartida de lo acontecido.

Son 30 años de un trauma social sostenido. Generaciones enteras que no conocen la palabra libertad y no saben lo que es vivir en democracia. Una población golpeada sistemáticamente que en medio de su desesperación e incertidumbre deposita su esperanza en un gobernante extranjero que negocia con los miembros del régimen intervenido, desconoce al presidente electo por los venezolanos el 2024, descalifica a la líder de la oposición, ganadora del Nobel de la Paz 2025 y decide los destinos del país. Un gobernante de talante dictatorial que no respeta la constitución de su propio país y arremete con sus fuerzas paramilitares llamadas ICE contra sus propios habitantes justificando a como dé lugar los 37 fallecidos que bajo sus acciones ya se contabilizan. Los venezolanos somos su target principal.

Durante estos largos años, la migración se nos presentó como una estrategia de sobrevivencia. Actualmente las cifras de la diáspora venezolana superan los 8 millones de ciudadanos desperdigados por el mundo (Acnur).  Pies andantes que escapan solos o con su familia hasta donde los lleve el camino, sin nada en sus bolsillos, dejando la piel y a veces la vida en su huida. Huyen al sur de Latinoamérica o al norte a través del Tapón del Darién donde muchos, adultos y niños, han sido arrastrados y devorados por sus aguas. En ninguna parte son bienvenidos, especialmente si son pobres, negros o mestizos.  ¿Dónde quedó la hospitalidad?

El retroceso continúa. Hoy en día las fronteras y los muros interculturales, raciales, religiosos, políticos se han elevado y vuelto más infranqueables. El rechazo y la intolerancia al diferente se acentúa y el progreso como especie se estanca, se reduce y retrocedemos como cultura con el exacerbamiento de los nacionalismos, la exclusión, la discriminación y la persecución. Los migrantes somos los nuevos esclavos de una sociedad de consumo que nos rechaza, pero a la vez nos requiere en negro, como mano de obra barata, sin privilegios, derechos, ni beneficios.

El narcisismo patológico evidenciado en estos comportamientos, ha convertido las pequeñas diferencias en oposiciones insalvables. El otro es lo ominoso, el portador del mal, la verdadera peste que viene a corromper y contagiar con su veneno a los inmaculados habitantes dueños de la tierra que lucía prometida. Así, el inmigrante es demonizado y acusado falsamente de propender a cometer más crímenes y más horrorosos que los ciudadanos de origen.

Esta extendida realidad requiere de soluciones políticas, morales y humanas serias y comprometidas, no sólo contra los actos de xenofobia manifiesta sino contra esa blanda, pseudo justificada xenofobia que habita en todos aquellos que nos toleran, pero no nos quieren cerca. 

Al duelo por la pérdida de referentes de todo tipo, afectivos, sensoriales, sociales, culturales, muchas veces profesionales ( “hay que reinventarse, empezar de cero” se oye decir con una frecuencia convertida slogan) y económicos; al riesgo de extinción de todo aquello que había sido parte de la subjetividad e identidad y que hasta ese momento había sido reconocido como propio, se suman ahora los desafíos que enfrenta el migrante para insertarse y hacer suyo el nuevo lugar e incorporar nuevos hábitos, nuevos códigos, muchas veces una nueva lengua, un nuevo clima. Los analistas, en estos “mundos superpuestos”, no estamos exentos de padecer y tener que lidiar con las difíciles exigencias, a veces imposibles de satisfacer, en el camino de adquirir una nueva ciudadanía y al mismo tiempo ser reconocidos, aceptados e incluidos en las nuevas instituciones: papeles, trámites, documentación, legalización de títulos, reválidas de la profesión anterior y mucho de mucho, que hace todo muy cuesta arriba, cuando no imposible.

En la experiencia migratoria la identidad queda para siempre perforada, con heridas que dejan cicatrices indelebles. Aunque todo en el ser humano, desde la vida extrauterina es una constante migración, (su desarrollo psíquico desde etapas tempranas del desarrollo, su libido narcisista a objetal, su cuerpo), esta nueva tarea resultará con mayor éxito si la posibilidad de duelar los cambios y pérdidas sufridas a lo largo de la vida ha tenido lugar suficiente como para sostener los que toca ahora elaborar. Las circunstancias externas adversas comprometen e interfieren dicho proceso, pudiendo generar efectos “radioactivos” (parafraseando a Gampel) que pudieran convertirse en un nuevo trauma y/o reactivar traumas anteriores 

Comparto la idea de que quien migra sufre una suerte de destitución subjetiva y en los intersticios de lo instituido y lo instituyente es posible que encuentre una restitución, un nuevo proyecto identificatorio y vital que soporte la ilusión del porvenir. Otros elementos entran en juego. La edad pesa y acorta la esperanza. El idioma importa; niños y adolescentes en su intento de incluirse en la nueva cultura terminan renunciando o resistiéndose a hablar en su lengua materna. Pero en la clínica, hemos observado que, aun cuando dominan esa nueva y otra lengua, siempre queda un resto intraducible. Algo que queda fuera, no alcanzable, del orden de la palabra, pero sobre todo del afecto, que solo es posible tocar en el idioma original. En inglés, por ejemplo, no hay una palabra para comadre o compadre, para hermanitos, hijitos, no solo por los diminutivos, sino por la ternura implícita en esas nominaciones.

El trastorno que arrastra el migrante, conocido como el mal de Ulises, existe y perdura para siempre. Los que migramos, siempre seremos extranjeros, en todas partes, incluso después, si acaso volvemos, en nuestra propia patria. Y la nuestra luce remota en su posibilidad de independencia y recuperación.

“Vivir en tierra ajena singulariza, nos hace tener una experiencia que pone a prueba la conciencia del límite. (Bujanda, 2025).

Referencias Bibliográficas

Acnur.https://www.acnur.org

Bujanda, H.(2025). Cumplir años en lengua buji. hectorbujanda.blog

Diario las Américas. 2024

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Palabras clave: Migración, violencia, trauma social, identidad, trauma psíquico.

Imagem: Tapon de Darien

Categoría: Politica y Sociedad

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Tags: Identidade | Migração | trauma psíquico | trauma-social | violência
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