Observatório Psicanalítico OP 656/2026 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Repensando a Venezuela 

María del Carmen Míguez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC)

Eu não quero viver paranoico

Eu não quero ver garotos com ódio

Eu não quero sentir esta depressão

Vou buscando o prazer de estar vivo

Não me importa se sou um bandido

Vou chutando lixo no beco

(Charly García)

É um prazer para mim participar do Observatório Psicanalítico, espaço do qual tomei conhecimento recentemente graças ao convite de Beth Mori, para escrever sobre a situação atual venezuelana e a intervenção militar norte-americana de 3 de janeiro deste ano.

Escrever sobre a Venezuela nunca me foi fácil; menos ainda agora, diante do impacto dos acontecimentos recentes, de sua repercussão interna e mundial e da intervenção explícita de uma figura tão controversa quanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Como bem aponta Margareta Hargitay, em seu artigo para este mesmo portal, um manto de silêncio tem coberto as vozes de muitos de nós. Como narrar ou como nomear o ocorrido? Trata-se de uma história que, em sua última etapa, já ultrapassa um quarto de século. É extremamente complexo.

Por outro lado, sempre se impõe a pergunta sobre o lugar a partir do qual se fala. Para além do meu ofício como psicanalista e da identidade que ele supõe, proponho-me, nesta ocasião, a falar como cidadã venezuelana e como sujeito político. Oxalá este ensaio possa contribuir para repensarmos a Venezuela.

A convulsionada situação política e econômica venezuelana tem sido motivo de debate nos círculos psicanalíticos latino-americanos há bastante tempo. Desde a Sociedade Psicanalítica de Caracas foram emitidos numerosos pronunciamentos públicos, além das posições pessoais que alguns de nossos membros registraram por escrito. Recordo particularmente os esforços do Dr. Rómulo Lander e de outros membros fundadores para explicar, em diferentes espaços psicanalíticos, o verdadeiro caráter do chavismo e de Hugo Chávez Frías — militar venezuelano envolvido em duas tentativas de golpe de Estado — que conquistou a fascinação da esquerda hegemônica, apesar — ou justamente por causa — de sua forma de se impor e de se perpetuar no poder.

O limite chega — quase sempre — de um lugar inesperado. É difícil dizê-lo, mas a Chávez ele chegou sob a forma de uma doença, um câncer agressivo. Sem dúvida, esse limite deveria ter vindo de um julgamento penal por seus abusos de poder, pela corrupção e por sua vontade de polarização e segregação. Nicolás Maduro, talvez, o limite tenha chegado pela intervenção de uma força estrangeira.

Entendo que a cronificação do conflito interno gerou um cansaço em todos nós e — por que não dizer — também entre nossos interlocutores latino-americanos. A Venezuela tem sido o patinho feio da América Latina nos últimos tempos. Passamos de um país com fama de rico e democrático para inspirar pena pela incapacidade de chegarmos a acordos entre nós mesmos; pelo efeito devastador que esse conflito teve sobre a economia e sobre muitos âmbitos da vida nacional. Os dados apresentados pelos especialistas descrevem um panorama semelhante ao de uma guerra civil, ainda que esta nunca tenha ocorrido formalmente.

A perda da institucionalidade e da democracia deu lugar à frustração e ao medo. A inércia e o “salve-se quem puder, como puder” tornaram-se a única opção para muitos.

No entanto, se compararmos um país a um organismo vivo, podemos dizer que a resistência à morte identitária (quando deixamos de ser um país soberano?), individual e coletiva — essa pulsão de vida presente nos venezuelanos comuns, em tantos cenários — permaneceu latente.

O movimento que antecedeu as eleições de julho de 2024 gerou novas expectativas e o surgimento da esperança em muitos venezuelanos, dentro e fora do país. A ingenuidade é sempre uma forma de salvação. Tratava-se de um grande desafio, mas não imaginávamos até onde o grupo governante seria capaz de ir para se manter no poder: não apenas roubaram as eleições, como prenderam milhares de pessoas em tempo recorde, incluindo dezenas de adolescentes, sem conhecimento das acusações e sem possibilidade de defesa. A censura se consolidou definitivamente em um país que já havia ficado sem imprensa escrita, com portais jornalísticos bloqueados, sem canais de televisão aberta e com emissoras de rádio críticas ao regime fora do ar, com todos os poderes públicos confiscados por um único grupo. Sentir-se vigiado deixou de ser um sinal de paranoia; tratava-se de uma ameaça real.

Com o jogo travado no tabuleiro das negociações diplomáticas, tantas vezes ensaiadas, os acontecimentos dos últimos três meses do ano passado — com a chegada de uma frota militar norte-americana às costas venezuelanas — nos colocaram diante de um cenário em que as duas opções mais fortes eram ruins. Os venezuelanos “nos vimos entre Caríbdis e Cila” e, assim como aconteceu com Odisseu em sua travessia pelo estreito, não havia possibilidade de passagem sem perdas adicionais. Teríamos nos deparado com o mal menor?

A questão da soberania e da independência soa quase retórica em um país cujos governantes já haviam consentido uma invasão anteriormente. A morte de 32 cubanos do anel de segurança de Nicolás Maduro, na noite de 3 de janeiro, é lamentada menos pela população do que as mortes dos jovens venezuelanos da guarda presidencial — jovens que optaram pela carreira militar provavelmente como forma de garantir a sobrevivência em um país sem opções de educação e trabalho para a juventude. Temos enfrentado a dor e o luto por tantos venezuelanos perdidos pelo caminho.

É claro que a notícia do tutelamento por parte do “mandão do norte” representa uma forte ferida narcísica. Poderíamos compreendê-la como uma “violência necessária”, no sentido proposto por Piera Aulagnier? Pertencemos ao Ocidente, geográfica e culturalmente, e essa é uma marca identitária.

A retirada de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, funcionou como um “ponto de realidade”, um aterrissar abrupto para um grupo que, de forma onipotente e sem conflito aparente, havia se instalado no poder e se apropriado do país sem qualquer consideração pelo diferente. Chama a atenção que, em apenas 15 dias, tenham sido libertados 84 presos políticos (segundo fontes do Foro Penal, ONG dedicada à defesa dos presos políticos, ainda restam cerca de 811, entre venezuelanos e estrangeiros, mantidos apenas como moeda de troca). Também houve, por parte da Assembleia Nacional, um pronunciamento de perdão tímido demais para o nosso gosto, mas pronunciado, afinal.

O dilema ideológico que a atualidade venezuelana representa é um dilema que ultrapassa as fronteiras do país. Talvez se trate da queda de velhos ideais, por muito tempo acalentados. Invocar a autodeterminação em um mundo tão abertamente interconectado e marcado por tantos desequilíbrios será um ponto central de debate. Para a maioria dos venezuelanos, a “independência” do país foi perdida há muito tempo, apesar de todo o ideário bolivariano ainda visível entre as ruínas. Ainda assim, possuímos uma forte idiossincrasia libertária, o que não é um fator subjetivo qualquer, embora hoje se apresente como uma enorme paradoxa.

A partir da minha perspectiva — bastante otimista diante da incerteza que o futuro nos reserva —, o desafio que temos pela frente não reside em saber se continuaremos sendo colônia dos russos, chineses e iranianos ou, ao contrário, dos gringos MAGA. Não se trata de um dilema esquerda–direita, visto através de uma lente esquizoparanoide.

Para mim, o que há de mais vivo e inquietante nesse doloroso processo-país emerge ao constatar que os destinos da Venezuela podem estar nas mãos de duas mulheres antagônicas: Delcy Rodríguez e María Corina Machado.

É essa perspectiva de gênero e a confiança no feminino criativo que me permitem atravessar estas noites incertas com algum descanso: algo bom poderá surgir de tudo isso. Ao mesmo tempo, constato que, dentro e fora da Venezuela, nós, psicanalistas, seguimos vivos, sãos e despertos.

Palavras-Chave:  Nicolás Maduro, Cila–Caríbdis, Soberania, Venezuela, o feminino

Imagem: foto de Vasco Szinetar (@vasco_szinetar)

Categoria: Política e Sociedade

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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——Texto original em espanhol —————————————-

Observatorio Psicoanalítico – OP 656/2026

Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo

Re-pensando Venezuela. 

María del Carmen Míguez – Sociedad Psicoanalítica de Caracas

o no quiero vivir paranoico

Yo no quiero ver chicos con odio

Yo no quiero sentir esta depresión

Voy buscando el placer de estar vivo

No me importa si soy un bandido

Voy pateando basura en el callejón

(Charly García) 

 Es un gusto para mí participar del Observatorio Psicoanalítico, espacio del que recién tengo noticia gracias a la invitación de Beth Mori, para escribir sobre la situación actual venezolana y la intervención militar estadounidense del 3 de Enero de este año.

Escribir sobre Venezuela no me ha resultado fácil antes, menos ahora por el impacto de los acontecimientos recientes; por su repercusión a nivel interno y mundial, y por la intervención explícita de una figura tan controversial como el presidente de EEUU, Donald Trump. Como bien lo señala Margareta Hargitay, en su artículo para este mismo portal,  un manto de silencio ha cubierto las voces de tantos de nosotros. ¿Cómo narrar o cómo nombrar lo sucedido? Una historia que en su última etapa abarca, ya, más de cuarto de siglo. Es muy complejo.

Por otro lado, siempre cabe la pregunta sobre el lugar desde donde uno habla. Más allá de mi oficio como psicoanalista y de la identidad que supone,  en esta ocasión, me propongo hacerlo como ciudadana venezolana y como sujeto político. Ojalá que este intento sirva para repensar Venezuela.

La convulsa situación política y económica venezolana ha sido motivo de debate en círculos psicoanalíticos latinoamericanos desde hace tiempo. Desde la Sociedad Psicoanalítica de Caracas se han emitido un buen número de pronunciamientos públicos, además de las posiciones personales que algunos de nuestros miembros han dejado por escrito. Recuerdo particularmente los esfuerzos del Dr. Rómulo Lander y de otros de nuestros miembros fundadores para explicar, en diferentes escenarios psicoanalíticos, el verdadero talante del chavismo y de Hugo Chavez Frias, militar venezolano implicado en dos golpes de estado, que se ganó la fascinación de la izquierda hegemónica -a pesar o justamente- por su manera de imponerse y perpetuarse en el poder. 

El límite llega -casi siempre- desde un lugar inesperado. Cuesta decirlo, pero a Chavez le llegó desde la enfermedad por un cáncer agresivo. Sin duda, el límite debió marcarlo un juicio penal por sus abusos de poder, por corrupción y por su voluntad de polarización y segregación. A Nicolás Maduro, quizás, le ha llegado el límite por la intervención de una fuerza extranjera. 

Entiendo que la cronificación del conflicto interno generó un cansancio en todos nosotros y -por qué no decirlo- también, en nuestros allegados latinoamericanos. Venezuela ha sido el patito feo de Latinoamérica en los últimos tiempos. Pasamos de ser un país con fama de ricos y demócratas, a dar lástima por la imposibilidad para ponernos de acuerdo entre nosotros mismos; por el efecto devastador que ese conflicto ha tenido en la economía y en muchos ámbitos de la vida del país. Los datos que refieren los especialistas hablan de un panorama similar al de una guerra civil, sin que ésta haya ocurrido formalmente. 

La pérdida de la institucionalidad y la democracia dieron paso a la frustración y el miedo. La inercia y el “sálvese quien pueda y cómo se pueda”, fue la única opción para muchos. 

Sin embargo, si comparamos a un país con un organismo vivo, podemos decir que la resistencia a la muerte identitaria (¿cuándo dejamos de ser un país soberano?), individual y colectiva, esa pulsión de vida presente en los venezolanos de a pie, desde tantos escenarios, siguió latente. 

El movimiento previo a las elecciones de julio del 2024, generaron nuevas expectativas y el surgimiento de la esperanza en muchos venezolanos, aquí y en el exilio. ¡La ingenuidad siempre es una forma de salvación! Suponía un reto grande, pero no imaginamos lo que eran capaces de acometer el grupo gobernante, para mantenerse en el poder: no solo se robaron las elecciones, apresaron a miles de personas en tiempo récord, incluyendo decenas de adolescentes, sin conocimiento de la acusación y sin posibilidad de defensa. La censura se terminó de instaurar en un país que se había quedado sin prensa escrita, con portales periodísticos vetados, sin canales de señal abierta y emisoras de radio críticos con el régimen, con todos los poderes públicos confiscados por un sólo grupo. Sentirse vigilados no fue un signo de paranoia en estos tiempos, se trataba de una amenaza real.

Trancado el juego en el tablero de las negociaciones diplomáticas, tantas veces ensayadas,  los acontecimientos en los últimos  tres meses del año pasado, con el arribo de una flota militar estadounidense frente a las costas venezolanas, nos colocaron en un escenario donde las dos opciones más fuertes eran malas. Los venezolanos estábamos frente a Caribdis y Escila, y  tal cómo se le presentó a Odiseo en su travesía por el estrecho, no habría posibilidad de transitarlo sin pérdidas añadidas. ¿Nos hemos topado con el mal menor?

La pregunta por la soberanía y la independencia, suena retórica en un país cuyos gobernantes habían consentido una invasión con anterioridad.  La muerte de 32 cubanos del anillo de seguridad de Nicolás Maduro, la noche del 3 de enero, se lamenta menos entre la población, que las muertes de los jóvenes venezolanos de la escolta presidencial. Jóvenes que optaron por la carrera militar, probablemente para garantizar la supervivencia en un país donde no existen opciones de educación y trabajo para la juventud. ¡Nos hemos enfrentado al dolor y al duelo por tantos venezolanos perdidos en el camino!

Claro que supone una fuerte herida narcisista la noticia del tutelaje por parte del mandón del norte. ¿Acaso lo podemos entender como una “violencia necesaria” en el sentido de Piera Aulagnier? Pertenecemos a occidente, geográfica y culturalmente hablando y esa es una marca identitaria. 

La extracción de Nicolas Maduro el 3 de enero ha servido de “punto de realidad”, de aterrizaje abrupto, a un grupo que de manera omnipotente y sin conflicto aparente, se había instalado en el poder y apropiado del país sin ninguna consideración por el diferente. Llama la atención pero, en escasos 15 días, se han excarcelado 84 presos políticos (según fuentes del Foro Penal, ONG dedicada a la defensa de los presos políticos, quedan todavía unos 811, entre venezolanos y extranjeros retenidos sólo para ser usados como moneda de canje). También,  se ha pronunciado desde la Asamblea Nacional un ligero perdón, demasiado tímido para nuestro gusto, pero pronunciado al fin y al cabo. 

El dilema ideológico que representa la actualidad en Venezuela, es un dilema que supera las fronteras de nuestro país. Quizás se trate de la caída de viejos ideales, por largo tiempo atesorados. Invocar la autodeterminación en un mundo tan abiertamente interconectado y con tantos desequilibrios, será un punto a debatir. Para una mayoría de venezolanos “la independencia” del país se perdió hace mucho, a pesar de todo el ideario bolivariano aún visible entre las ruinas. Eso sí, tenemos una fuerte idiosincrasia libertaria y esto no es un factor subjetivo cualquiera, aunque hoy resulte una tremenda paradoja.

Desde mi perspectiva -bastante optimista sobre lo incierto que depara el futuro- el reto que tenemos por delante, no estriba en sí seguiremos siendo colonia de los rusos, chinos e iraníes o por el contrario, de los gringos MAGA. No se trata de un dilema izquierda-derecha, visto desde un lente esquizoparanoide. 

Para mí, lo más vivo e inquietante de este doloroso proceso-país surge al constatar que los destinos de Venezuela pudieran encontrarse en las manos de dos mujeres contrapuestas: Delcy Rodríguez y María Corina Machado. 

Es esa perspectiva de género y la confianza en lo femenino creativo, lo que me deja dormir en estas noches inciertas: algo bueno surgirá de todo esto.  Entre tanto, también constato que dentro y fuera de Venezuela los psicoanalistas seguimos vivos, sanos y despiertos.

Palabras clave: Nicolás-Maduro, Escila-Caribdis, Soberanía, Venezuela, lo-femenino

Imagem: Vasco Szinetar (@vasco_szinetar)

Categoría: Politica y Sociedad

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Tags: Cila–Caríbdis | Nicolás Maduro | o feminino | Soberania | Venezuela
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