
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Violência, trauma e migração
Serapio Marcano – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC) e a Associação Panamenha de Psicanálise (APAP)
Agradeço o convite que me foi feito por Beth Mori, desde o Observatório Psicanalítico da FEBRAPSI, para compartilhar as reflexões que me surgem, como psicanalista, a partir da minha condição de emigrante venezuelano, diante dos acontecimentos decorrentes da recente atuação do governo dos Estados Unidos, representado por seu presidente Donald Trump, em 3 de janeiro de 2026, sobre a Venezuela e seu governo, representado por Nicolás Maduro.
Esses fatos ativam as memórias dos motivos, tanto manifestos quanto subjacentes, que me levaram a emigrar. Mas pensar neles, e na medida em que os acontecimentos pessoais remetem a muitas histórias, tanto individuais quanto das diferentes culturas que existiram e continuam existindo em nosso globo terrestre, fez-me recordar o que li no editorial que a equipe de Curadoria escreveu em dezembro passado para o Observatório Psicanalítico, quando cita, na epígrafe, a afirmação de João Ubaldo Ribeiro: “O segredo da verdade é este: não há fatos, apenas histórias”, apontando, assim, para a ideia de verdade como algo dado, transparente e definitivo.
Isso me fez associar com o que Freud disse em sua Conferência 35, ao afirmar que: “a psicanálise é incapaz de criar uma cosmovisão, na medida em que não contempla tudo, pois tem traços negativos, como o de se ater à verdade e desautorizar as ilusões. A verdade será sempre incompleta”. E, seguindo o que Ribeiro aponta em relação às histórias, desde a psicanálise, estas equivalem ao que seriam os conteúdos manifestos, tanto nos discursos quanto nos atos ou nos fatos e, portanto, é nosso compromisso tentar descobrir e tornar públicos os conteúdos latentes que, tanto desde o particular individual quanto desde o político e o sociocultural, aspiram a acessar essas verdades, abrindo interrogações para explicar as histórias subjacentes aos fatos.
Platão havia expressado que “o homem vive em um mundo de sonhos, de trevas, cativo em uma caverna da qual só poderá se libertar tendendo ao Bem; somente então o homem desistirá da matéria e chegará à luz”. Não é este o espaço para pensar as diferentes contribuições teóricas que tratam dos fatos e de suas histórias; a contribuição de Javier García Castañeiras (APU) a esse respeito, em seu artigo para o Observatório Psicanalítico, é excelente, sobretudo quando se refere ao que está previsto no artigo 2º da Carta das Nações Unidas.
Diversas comunicações sobre o tema dos fanatismos e da paz, apresentadas no 35º Congresso da FEPAL, no Rio de Janeiro, trazem contribuições importantes para pensar o tema das guerras e da paz e aquilo que pode ser buscado nos processos migratórios. Um exemplo disso é o que escreveu Ney Marinho (SBPRJ) em seu trabalho “As aventuras da Paz”, quando disse: “As guerras podem produzir tréguas, ressentimentos, fortes desejos de vingança, terroristas e psicopatas, mas nunca uma paz duradoura nem qualquer sentido de fraternidade.”
Portanto, vou me concentrar no que tenho repensado acerca das migrações e, em particular, da minha própria migração. Mas também pensar que esse fato tem suas histórias e que estas não são independentes das histórias dos outros com os quais convivemos, que, por sua vez, foram constituídos como sujeitos a partir dos OUTROS da cultura. Freud já escreveu isso em 1921, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, ao dizer que: “a oposição entre psicologia individual e psicologia social ou coletiva, que à primeira vista pode nos parecer muito profunda, perde grande parte de sua significação quando a submetemos a um exame mais atento. A psicologia individual se ocupa certamente do homem isolado e investiga os caminhos pelos quais ele tenta alcançar a satisfação de seus instintos, mas apenas muito raramente, e sob condições excepcionais, lhe é dado prescindir das relações do indivíduo com seus semelhantes. Na vida anímica individual aparece sempre, efetivamente, integrado o ‘OUTRO’ como modelo, objeto, auxiliar ou adversário, e desse modo a psicologia individual é, ao mesmo tempo e desde o princípio, psicologia social, em um sentido amplo, porém plenamente justificado.”
Nas aversões e repulsas em relação a estranhos com os quais se tem contato, podemos discernir a expressão de um amor-próprio, de um narcisismo que aspira à sua autoconservação e que se comporta como se toda divergência em relação às suas formações individuais implicasse uma crítica a elas e uma exortação a remodelá-las. Esse OUTRO estará presente desde o início da vida, inserindo o sujeito na lei da cultura, que, desde a psicanálise, foi chamada de Lei do Pai, exercendo uma violência que pode oscilar entre uma violência útil, que provê gratificações e frustrações sem causar dano, e outro aspecto da mesma que exercerá uma violência agressiva, que causa dano ao se apoderar dos sujeitos que estão sob seu domínio como um AMO.
Como diz Mirta Goldstein, metaforicamente, isso seria o início da guerra, entendida como uma lógica de ação que se encontra nos fundamentos da subjetividade. Quem exerce a lei com violência agressiva sustentada gera sentimentos de terror nos sujeitos sobre os quais ela é exercida, e isso conduz a situações traumáticas. Diante da indefesa dos sujeitos submetidos a esse modo violento, podem, como alternativa de sobrevivência, identificar-se com o agressor e eventualmente funcionar com outros do mesmo modo como foram tratados; ou podem submeter-se passivamente; ou ainda declará-los como adversários e enfrentá-los; ou buscar alternativas de modificação do vínculo quando se colocam diferenças ou desacordos em relação ao tratamento recebido. Outra alternativa é tomar distância, caso em que a migração pode ser um exemplo.
Mas quando emigramos para um novo território geográfico, também levamos conosco o novo ou o diferente, o estranho, o estrangeiro, o que, desde a psicanálise, poderia ser nomeado como o terceiro, o que gera angústias ameaçadoras, também chamadas de terror em certas teorizações psicanalíticas, na medida em que pode levar a mudanças sentidas como possíveis catástrofes daquilo que é bem conhecido. Isso faz com que se sustentem relações duais, que estão na base da constituição dos diversos modos defensivos perturbadores e fanáticos de funcionamento, tanto no nível individual quanto social.
Penso que todos os seres humanos temos, em diferentes proporções, esses modos fanáticos de funcionamento, os quais, como disse Cassorla, “se instauraram como verdades únicas, importante fator que contribui para que as pessoas se tornem adeptas de grupos religiosos, ideológicos, místicos, delinquentes etc. O objeto idealizado preenche o vazio e assume-se o suposto poder do grupo”. Compartilho seu ponto de vista quando afirma que o problema surge quando esses modos fanáticos se tornam rígidos. Acrescento que, também desde nossos grupos psicanalíticos, temos o compromisso e a responsabilidade de estar atentos para buscar e descobrir, em nosso fazer prático-metodológico e em nossos posicionamentos teóricos, essa busca por verdades únicas.
Por isso mesmo, tenho estado atento ao efeito que a migração para novos territórios, sejam geográficos, culturais ou interpessoais, teve e continua tendo em mim como pessoa e como profissional. A experiência psicanalítica pessoal me forneceu os recursos mentais necessários para desenvolver a curiosidade acerca dos diferentes modos de funcionamento da minha conduta, tanto aqueles que tendem aos aspectos fanáticos que conduzem aos enfrentamentos, como os que ocorrem nas guerras, quanto aqueles que tendem à construção dos vínculos, comigo mesmo e com os outros, na busca da fraternidade.
Finalizo estas breves reflexões retomando a relação da minha migração com aquilo que evocam os acontecimentos ocorridos no início deste ano de 2026 na Venezuela.
Durante muitos anos de minha prática profissional, primeiro como médico, depois como psiquiatra e psicanalista, procurei que minhas intervenções fossem predominantemente no sentido de convidar a pensar as histórias subjacentes aos fatos que conduzem aos sofrimentos e mal-estares em nossos vínculos com os OUTROS, seja na realidade externa, seja na interna. E, se em algumas circunstâncias utilizei intuitivamente atos que podem ser qualificados como violência, considerei-os como violência útil para conter a violência destrutiva do outro em relação a si mesmo e a mim.
Intervim em algumas experiências comunitárias desde a perspectiva psicanalítica, tentando levar o conhecimento que a psicanálise oferece para convidar a pensar os modos perturbadores em nós e nos outros que dificultam o desenvolvimento da capacidade de um pensamento crítico-reflexivo. O resultado foi fracassado, pois não foi aceito nem quando se realizou durante um período de governo chamado democrático, nem tampouco foi possível desenvolvê-lo durante o período do governo chavista, sustentado pela doutrina do chamado Socialismo do Século XXI.
Neste último período começaram as manifestações e protestos populares, depois que aquilo que se iniciou como uma proposta vendida como democrática foi se transformando em uma forma de proceder autocrática, funcionando como um superego cruel, culpabilizando e castigando todo aquele que não se submetesse às suas crenças como dogmas. Penso que isso é algo que subjaz aos fundamentalismos detentores da verdade, incapazes de olhar ou escutar outras possíveis verdades, como ocorre nos narcisismos.
A violência social, a criminalidade e a violência política foram aumentando, assim como as migrações, inicialmente por medo das consequências de tornar públicas as dissidências. Nesse intervalo, houve um golpe de Estado militar fracassado em 2002, um fugaz governo civil frágil e o subsequente retorno do chavismo, agora mais abertamente autocrático e repressivo. Posteriormente, as migrações tornaram-se mais numerosas, em razão do deterioramento progressivo da qualidade de vida das classes sociais mais despossuídas, chegando a uma das maiores migrações conhecidas, comparável apenas às diásporas italiana e alemã para a América no final do século XIX e início do século XX.
A psicanálise, como proposta para pensarmos a nós mesmos, pode ser vivida como ameaçadora, e os psicanalistas podem experimentar o medo do ódio e da subsequente agressão se tornarem muito explícita sua presença e sua voz. Isso fez com que, quando tivemos a oportunidade de realizar o Congresso da FEPAL em 2004, em Caracas, desistíssemos da ideia por temores próprios, também projetados nos colegas de outras latitudes, e decidimos realizá-lo em Guadalajara. Nosso eu institucional estava enfraquecido.
Seguimos exercendo nosso ofício, mas também foram aumentando nossas angústias; pessoas e familiares próximos foram migrando, e um sentimento de vazio e a angústia subsequente levaram à consideração da decisão de migrar, processo nada fácil de elaborar, por todos os lutos que implica e por suas consequências traumáticas. No meu caso pessoal, percebo isso quando ainda surgem, em meus sonhos, pessoas e lugares da Venezuela.
Algumas vezes senti o desejo de que, para sair dessa situação, surgisse algum movimento com poder suficiente para tentar restabelecer um tipo de convivência democrática, mas, como diz um ditado popular, “sonhar não custa nada”. Esses sonhos estão sempre presentes em nós, humanos, quando nosso eu está enfraquecido. É então que podem surgir líderes narcisistas e fundamentalistas que, como deuses e AMOS, nos iludem oferecendo-nos a libertação do sofrimento e a provisão de gratificações. Esse personagem é o que Trump representaria para os venezuelanos e para muitos outros cidadãos do mundo.
Recordemos o que Freud expôs em Esboço da Psicanálise, em seu último trabalho sobre técnica, quando escreveu que: “o eu está enfraquecido por seu conflito interior e nós temos que acudir em sua ajuda. É como uma guerra civil destinada a ser resolvida mediante o auxílio de um aliado externo. O médico analista e o eu enfraquecido do paciente, apoiados no mundo exterior, devem formar um bando contra os inimigos: as exigências pulsionais do id e as exigências da consciência moral do superego.” E também quando afirmou: “nosso dever como psicanalistas é devolver ao eu o domínio sobre jurisdições perdidas da vida anímica.”
Os líderes sociais e políticos, diferentes dos fundamentalistas, fanáticos e narcisistas, deveriam atuar a partir de uma posição semelhante àquela esperada dos psicanalistas. Mas também sabemos que, assim como existem transferências em relação ao analista, elas também existem em relação aos líderes, que representam objetos parentais, com suas respectivas ambivalências. Assim como o superego é identificado projetivamente no psicanalista, também o é nos líderes, aos quais se concede poder, que idealmente seria uma oportunidade para realizar, como dizia Freud, uma pós-educação, sem abusar da nova influência. Contudo, os líderes fundamentalistas se valem do poder para a guerra e a dominação, quando deveriam utilizá-lo para promover a paz. Mas sabemos que a paz permanente é uma utopia, tanto no plano individual quanto no social.
Concluo perguntando: o que faz com que uma instituição de caráter mundial, como as Nações Unidas, que tem em sua organização, como fundamento de sua existência, um Conselho de Segurança, a Corte Internacional de Justiça e seus “Corpos de Paz” — contingente militar e policial global da ONU, que mobiliza pessoal militar dos países-membros para estabilizar zonas de conflito — não tome ações quando ocorrem intervenções, guerras e ataques militares como os sucedidos na Venezuela em 3 de janeiro deste ano de 2026, e Trump declara que assumiu o controle da Venezuela?
Panamá, 16/01/2026
Palavras-Chave: verdade, narcisismo, violência, guerra, paz
Imagem: Immigration Series, de Juan J. Hernández.
Categoria: Política e Sociedade
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——Texto original em espanhol ———————————————————–
Observatorio Psicoanalítico – OP 655/2026
Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo
Violencia, trauma y migración
Serapio Marcano – Sociedad Psicoanalítica de Caracas (SPC) y a la Asociación Panameña de Psicoanálisis (APAP)
Agradezco la invitación que me ha hecho Beth Morí desde el Observatorio Psicoanalítico de FEBRAPSI para compartir las reflexiones que me surgen, como psicoanalista, desde mi condición de emigrante venezolano, a partir de los acontecimientos de la reciente actuación del gobierno estadounidense representado por su Presidente Donald Trump el 3 de enero del 2026 sobre Venezuela y su gobierno, representado por Nicolás Maduro.
Estos hechos, activan las memorias de los motivos, tanto manifiestos como subyacentes de lo que hizo que emigrase. Pero también pensar en ellos, y en la medida que los acontecimientos personales remiten a muchas historias tanto personales como de las diferentes culturas que han existido y continúan existiendo en nuestro globo terráqueo, me hizo recordar lo que leí en el editorial que escribió el equipo de la curaduría del Observatorio Psicoanalítico en diciembre para el Observatorio Psicoanalítico, cuando cita en el epígrafe la afirmación de Joao Ubaldo Ribeiro: “El secreto de la verdad es este: no hay hechos, sólo historias”, para señalar, así, la idea de la verdad como algo dado, transparente, definitivo. Lo cual me hizo asociarlo con lo.que dijo Freud en su conferencia 35 en cuanto a que: “el psicoanálisis es incapaz, de crear una cosmovisión en tanto que no lo contempla todo, en tanto tiene rasgos negativos, como los de atenerse a la verdad, desautorizar las ilusiones. La verdad siempre será incompleta”. Y siguiendo lo señalado por Ribeiro en relación a las historias, desde el psicoanálisis, las misma equivalen a lo que serían los contenidos manifiestos tanto en los discursos como en los actos, o los hechos, y, por lo tanto, es nuestro compromiso tratar de descubrir y hacer público los contenidos latentes que desde lo particular individual, como también desde lo político y sociocultural, aspiran a acceder a esas verdades, abriendo interrogantes para explicar las historias subyacentes a los hechos. Platón había expresado que “el hombre vive en un mundo de sueños, de tinieblas, cautivo en una cueva de la que sólo podrá liberarse tendiendo hacia el Bien; únicamente entonces el hombre desistirá de la materia y llegará a la luz”. No es este el espacio para pensar las diferentes contribuciones teóricas que tratan los hechos y sus historias, el aporte que hace Javier García al respecto, en su artículo para el Observatorio Psicoanalítico, es excelente y sobrie todo cuando se refiere lo que corresponde a lo pautado en el artículo 2 de la Carta de las Naciones Unidas. Varias ponencias sobre el tema de los fanatismos y la paz que se presentaron en el 35 ºCongreso de FEPAL en Río de Janeiro hacen aportes importantes para pensar el tema de Las Guerras y La Paz y lo que se puede buscar en los procesos migratorios. Un ejemplo de ello es lo que escribió Ney Marinho en su trabajo “Las aventuras de La Paz” cuando dijo: Las guerras pueden producir treguas, resentimientos, fuertes deseos de venganza, terroristas y psicópatas, pero nunca una paz duradera ni ningún sentido de hermandad.
Por lo tanto, me voy a enfocar en lo que he repensado acerca de las migraciones y en particular de mi propia migración. Pero también pensar que este hecho tiene sus historias y que la mismas no son independientes de las historias de los otros con los cuales hemos convivido, los que a su vez han sido constituidos como sujetos desde los OTROS de la cultura. Ya lo escribió Freud en 1921 en Psicología de las Masas y análisis del Yo, al decir que: “la oposición entre psicología individual y psicología social o colectiva, que a primera vista puede parecernos muy profunda, pierde gran parte de su significación en cuanto la sometemos a un más detenido examen. La psicología individual se concreta, ciertamente, al hombre aislado e investiga los caminos por los que él mismo intenta alcanzar la satisfacción de sus instintos, pero sólo muy pocas veces y bajo determinadas condiciones excepcionales, le es dado prescindir de las relaciones del individuo con sus semejantes. En la vida anímica individual, aparece integrado siempre, efectivamente, el “OTRO” como modelo, objeto, auxiliar o adversario, y de este modo, la psicología individual es al mismo tiempo y desde un principio, psicología social, en un sentido amplio, pero plenamente justificado”.
En las aversiones y repulsas a extraños con quienes se tiene trato podemos discernir la expresión de un amor de sí, de un narcisismo, que aspira a su autoconservación y se comporta como si toda divergencia respecto de sus plasmaciones individuales implicase una crítica a ellas y una exhortación a remodelarlas. Ese OTRO va a estar presente desde el comienzo de la vida insertando al sujeto en la ley de la cultura, que desde el psicoanálisis ha sido llamada la Ley del Padre, ejerciendo la violencia que puede oscilar entre la violencia útil, que provee gratificaciones y frustraciones sin hacer daño y otro aspecto de la misma que ejercerá la violencia agresiva que hace daño al apoderarse de los sujetos que están bajo su dominio cual AMO.
Como dice Mirta Goldstein, metafóricamente, sería el comienzo de la guerra entendida como una lógica de acción que se halla en los fundamentos de la subjetividad. Quien ejerce la ley con violencia agresiva sostenida, genera sentimientos de terror en los sujetos sobre los cuales se ejerce y eso conlleva a situaciones traumáticas. Ante la indefensión de los sujetos sometidos a ese modo violento pueden, como alternativa para la subsistencia, identificarse con el agresor y eventualmente funcionar hacia otros como fueron tratados, o pueden someterse pasivamente, o también declararlos como adversarios y enfrentarlos, o buscar alternativas de modificación del vínculo cuando se plantean diferencias o desacuerdos en el trato recibido. Otra alternativa es tomar distancia, en cuyo caso la migración puede ser un ejemplo de ello.
Pero cuando emigramos a un territorio geográfico nuevo, también llevamos con nosotros lo nuevo o diferente, lo extraño, lo extranjero, lo que desde el psicoanálisis podría ser nombrado como el tercero, lo cual genera angustias amenazantes, también llamadas terror, desde cierta teorización psicoanalítica, en la medida que puede llevar a cambios, sentidos como posibles catástrofes de lo bien conocido, lo que hace a que se sostengan esas relaciones duales, las cuales están en la base de la constitución de los diversos modos defensivos perturbadores fanáticos de funcionamiento tanto a nivel individual como social. Pienso que todos los seres humanos tenemos, en diversas proporciones, estos modos fanáticos de funcionamiento, los cuales, como dijo Cassorla, “se han instaurado como verdades únicas, importante factor que contribuye a que las personas se conviertan en adeptas a grupos religiosos, ideológicos, místicos, delictivos, etc. El objeto idealizado llena el vacío y se asume el supuesto poder del grupo” Comparto su punto de vista cuando expresa que el problema es cuando estos modos fanáticos se vuelven rígidos. Añado que también desde nuestros grupos psicoanalíticos tenemos el compromiso y la responsabilidad de estar atentos a buscar descubrir en nuestro quehacer práctico-metodológico y en nuestros planteamientos teóricos esta búsqueda de verdades únicas. Por esto mismo he estado atento al efecto que la migración a los nuevos territorios, sean geográficos, culturales e interpersonales, han tenido y siguen teniendo efecto en mí como persona y como profesional. La experiencia psicoanalítica personal me proveyó los recursos mentales necesarios para desarrollar la curiosidad acerca de los diferentes modos de funcionamiento de mi conducta, sean aquellos que han tendido a los aspectos fanáticos que tienden a los enfrentamientos como los que suceden en las guerras, como aquellos otros que tienden a la construcción en los vínculos, conmigo mismo y con los otros, en búsqueda de la hermandad.
Finalizó estas breves reflexiones retomando la relación de mi migración con lo que evoca los sucedido a comienzos de este año 2026 en Venezuela. Durante muchos años de mi ejercicio profesional, primero como médico, luego como psiquiatra y psicoanalista, he procurado que mis intervenciones fuesen predominantemente invitando a pensar las historias subyacentes a los hechos que llevan a los sufrimientos y malestares en nuestros vínculos con los OTROS, sean en la realidad externa como en la interna, y si en algunas circunstancias he utilizado intuitivamente actos que pueden ser calificados como violencia, la he considerado como violencia útil para contener la violencia destructiva del otro hacia ellos mismos y hacia mi. Intervine en algunas experiencias comunitarias desde la perspectiva psicoanalítica intentando llevar el conocimiento que ofrece el psicoanálisis para invitar a pensar los modos perturbadores en nosotros y en los otros que dificultan desarrollar la capacidad de un pensamiento crítico reflexivo. El resultado fue fallido pues no fue aceptado ni cuando se hizo durante un período de gobierno llamado democrático, pero tampoco fue posible desarrollarlo durante el periodo del gobierno chavista que estaba sustentado por la doctrina del llamado Socialismo del Siglo XXI. En este último periodo comenzaron las manifestaciones y protestas populares después de que lo que comenzó como una oferta que se vendió como democrática se fue transformando en una forma de proceder autocrática, funcionando como un superyó cruel, culpando y castigando a todo aquel que no se sometiera a sus creencias como dogmas. Pienso que este es uno de lo qu subyace en los fundamentalismos poseedores de la verdad que no puede mirar ni escuchar otras posibles verdades como sucede en los narcisismos. La violencia social, la delincuencia y la violencia política fue aumentando, se fueron incrementando las migraciones, en principio por temor a las consecuencias por hacer públicas las disidencias, en el interín hubo un fallido golpe de estado militar en el año 2002 y un fugaz gobierno civil débil y el subsiguiente retorno del chavismo ahora más abiertamente autocrático y represivo. Posteriormente se fueron haciendo más numerosas las migraciones, pero en razón del deterioro progresivo de la calidad de vida de las clases sociales más desposeídas, llegando a una de las mayores migraciones conocidas, sólo comparable a las diásporas italianas y alemanas a América a finales del siglo XIX Y principios del siglo XX.
El psicoanálisis, como propuesta para pensarnos, puede ser tomado como amenazador y los psicoanalistas podemos experimentar el miedo al odio y la subsecuente agresión si hacemos muy explícita nuestra presencia y nuestra voz, lo cual hizo que cuando teníamos la oportunidad de realizar el Congreso de FEPAL en al año 2004 en Caracas; se desistió de ello por temores propios, también proyectados en los miembros de otras latitudes y decidimos realizarlo en Guadalajara. Nuestro yo institucional estaba debilitado. Continuamos ejerciendo nuestro oficio pero también se fueron incrementando nuestras angustias; personas y familiares cercanos fueron migrando, un sentimiento de vacío y subsecuente angustia hicieron considerar la decisión de migrar, proceso nada fácil de elaborar por todos los duelos que conlleva y sus consecuencias traumáticas. En mi caso personal esto lo percibo cuando todavía en mis sueños aparecen personas y lugares de Venezuela. Algunas veces sentí deseos de que para salir de esta situación apareciese algún movimiento con el poder suficiente para intentar reestablecer un tipo de convivencia democrática, pero como dice un dicho popular: ”soñar no cuesta nada”. Pero estos sueños están presente siempre en nosotros los humanos cuando nuestro yo está debilitado. Es entonces cuando pueden aparecer esos líderes narcisistas, fundamentalistas, que, cual dioses y Amos, nos ilusionan ofreciendo liberarnos del sufrimiento y proveernos de gratificaciones. Ese personaje es lo que estaría representado Trump para los venezolanos y para muchos otros ciudadanos del mundo. Recordemos lo que expuso Freud en el Esquema del Psicoanálisis, en su último trabajo sobre Técnica, cuando escribió que: “el yo está debilitado por su conflicto interior y nosotros tenemos que acudir en su ayuda. Es como una guerra civil que está destinada a ser resuelta mediante el auxilio de un aliado de afuera. El médico analista y el yo debilitado del enfermo, apuntalados en el mundo exterior deben formar un bando contra los enemigos, las exigencias pulsionales del ello y las exigencias de conciencia moral del superyó”. Cómo también lo señaló: “nuestro deber como psicoanalistas, es devolver al yo el imperio sobre jurisdicciones perdidas de la vida anímica” Los líderes sociales y políticos, diferentes a los fundamentalistas, fanáticos y narcisistas deberían actuar cómo la posición esperada de los psicoanalistas. Pero también sabemos que así cómo hay transferencias hacia el analista, la hay hacia los líderes representando a los objetos parentales, con sus respectivas ambivalencias. Así como el superyó es identificado proyectivamente en el psicoanalista, lo es en los líderes y se les otorga poder, el cual, idealmente, sería la oportunidad para realizar, cómo decía Freud, una poseducación, sin abusar del nuevo influjo. Pero los líderes fundamentalistas se valen del poder para la guerra y la dominación cuando debería ser para promover la paz. Pero sabemos que la paz permanente es una utopía tanto a nivel individual cómo a nivel social.
Concluyo preguntando: ¿qué hace que una de las instituciones con carácter mundial como es el caso de las Naciones Unidas que, teniendo en su organización, como fundamento para su existencia, un Consejo de Seguridad, la Corte Internacional de Justicia, y sus “Cuerpos de Paz”, contingente militar y policial global de la ONU, que despliega personal militar de países miembros para estabilizar zonas de conflicto, no tome acciones cuando suceden intervenciones, guerras y ataques militares como lo sucedido en Venezuela el 3 de enero del presente año 2026 y Trump declara que ha tomado el control de Venezuela?.
Panamá:16/01/2026
Palabras clave: verdad, narcisismo, violencia, guerra, paz
Imagem: Immigration Series, de Juan J. Hernández.
Categoría: Politica y Sociedad
Nota de la Curaduría: El Observatorio Psicoanalítico es un espacio institucional de la Federación Brasileña de Psicoanálisis dedicado a la escucha de la pluralidad y a la libre expresión del pensamiento de los psicoanalistas. Al enviar sus textos, los autores declaran la originalidad de su producción, el respeto a la legislación vigente y el compromiso con la ética y la civilidad en el debate público y científico. Así, los ensayos son de responsabilidad exclusiva de sus autores, lo cual no implica respaldo ni concordancia por parte del OP ni de la Febrapsi.
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