Observatório Psicanalítico OP 652/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

A perna cabeluda

Lina Rosa Gomes Vieira da Silva – SPRPE

Recife, janeiro de 1977. É de manhã. Uma garotinha de 6 anos e sua mãe saem de casa, da rua Professor Mario de Castro, 298, em direção à praia de Boa-viagem. A pequena usa biquini com listras brancas e vermelhas. Leva na mão um copo vazio transparente. No trajeto de 200 metros, mãe e filha passam por matas de caju e vegetação de mangue. Brincam de correr da perna cabeluda e saltam no mar cor de esmeralda. Enquanto a mãe toma sol (depois de passar óleo de beterraba para bronzear a pele), a filha mergulha na água salgada, enche o recipiente de peixinhos cor de laranja que ficam maiores dentro do aquário improvisado. De repente, os adultos começam a
gritar. “Cheiro de melancia! Cheiro de melancia! Saiam da água!” A menina devolve os peixes ao mar e corre para perto da mãe. Quando o perfume atribuído à presença de tubarão evapora, todos voltam ao mar como se nada tivesse acontecido. Contada assim, essa história pode parecer o argumento de um curta-metragem ficcional. Ou, se os psicanalistas preferirem, relato de um delírio com algum traço de poesia. Nem uma coisa nem outra. São fragmentos da memória de uma menina.

O diretor Kleber Mendonça também era menino em 1977. Tinha 10 anos. Morava no mesmo bairro que eu. Estávamos inseridos no tempo da ditadura, mas éramos afetados por seus assombros de modo indireto disfarçado de fantasia. Quase 50 anos depois, o cineasta lança “O agente secreto”. O filme é albergado no período do regime militar. Tem a ditadura como eminência parda. É afetado por seus excessos e atrocidades sem ser de forma direta. O drama social é atravessado por camadas e camadas de mistério que exigem do espectador atenção e tensão constantes. Embora esteja ambientado na cidade natal de Kleber, desconhecida para a grande maioria dos terráqueos, os conteúdos apresentados são universais.

Mesmos com as licencinhas poéticas que só os pernambucanos entendem, o relevante na trama é amplamente compreendido por onde o trabalho está sendo exibido. Em todas as capitais brasileiras e diversas partes do mundo. Mas o que danado são essas tais licencinhas? Sem nenhuma intenção de letramento, apresento algumas para além das expressões tipicamente pernambucanas nos diálogos das personagens. A frase de caminhão: twist de pobre é macumba, nos tempos em que os terreiros de candomblé eram absolutamente mais numerosos que as igrejas universais na cidade. A camiseta da histórica livraria pernambucana Livro 7, vestida pelo faxineiro de Dona Tânia, referência de difusão cultural e resistência. A cena da empregada doméstica que teve seu filho atropelado pela negligência da patroa, clara associação ao caso do menino Miguel morto por cair do nono andar de um prédio de luxo do Recife em 2020. A passagem homérica dos garçons de gravatas-borboleta circulando com bandejas de cerveja no meio do carnaval, alusão ao Bacalhau do Batata, bloco criado pelo garçom Batata em 1962 que, na folga da quarta-feira de cinzas, toma às ruas de Olinda até hoje. Com direito à orquestra de frevo de chão e boneco gigante de seu fundador. A intrigante presença de uma perna e suas histórias cabeludas.

A perna cabeluda, lenda urbana que assombrou os recifenses no auge do período militar, “autora” de crimes ligados à repressão política e social da região, é resgatada no filme com seu realismo mágico original. Um olhar psicanalítico talvez reconheça nela o objeto parcial da posição esquizoparanoide. Ou a representação de um delírio coletivo. Superego social cruel quem sabe. Fixação sádico-anal. Ou mesmo o fetiche de um amante perverso. Aliás, inúmeros amantes: delegado corrupto, empresário predador, policial torturador, matador de aluguel, tubarão da praia de Boa Viagem. Certamente, o único inocente de todos. Outro aspecto analítico possível está na constelação edipiana do diretor inscrita em sua obra. Kleber Mendonça Filho, apesar de ter o mesmo nome do pai, dá pistas de uma paternidade ausente. É nas figuras femininas que ele deposita a maior presença e potência. Basta observarmos as personagens centrais de O agente secreto: Dona Sebastiana (Tânia Maria), Elza (Maria Fernanda Cândido), Fátima (Alice Carvalho), Cláudia (Hermila Guedes) e Carmem (Suzy Lopes). Mulheres que cumprem, cada uma a seu modo, a complexa função materna ao longo do enredo. Sem falar da obsessão desesperada de Marcelo (Wagner Moura) em encontrar o registro de nascimento de sua mãe. Apesar de Kleber não carregar o sobrenome de dona Joselice Jucá, é dela que vem as inspirações para os seus filmes e seus mais afetuosos agradecimentos em memória.

Saltando do nordeste do Brasil para a periferia da Finlândia, associo Kleber Mendonça ao Aki Kausrismakli. Penso nas sutilezas de seus filmes que só alguns finlandeses conseguem captar. Na minha opinião, ele é genial. O diretor captura o espectador estrangeiro que sai da experiência bem tocado. Mas devo confessar que, mesmo com efeito arrebatador sobre mim, sempre tive uma invejinha dos locais por, deliciosamente, decifrarem as pistas sutis. O trabalho de Kleber Mendonça cria essa poltrona privilegiada
para os pernambucanos sem nenhum demérito na experiência do restante da audiência. Tanto Folhas de Outono do Aki quanto O agente secreto do Kleber conversam com qualquer audiência por trazerem situações e questões comuns à humanidade. Parecem seguir direitinho o conselho de Tolstoi. “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Ou de Dostoyevsky que parte dos dilemas humanos de São Petersburgo e cativa leitores do planeta inteiro. Freud que o diga.

Desde que foi lançado, O agente secreto alcançou milhões de pessoas e conquistou, até agora, prêmios inéditos no Brasil e na América Latina. A exemplo do maior número de palmas, no duplo sentido da palavra, no Festival de Cannes de 2025 e do recorde de indicações para o Globo de Ouro norte-americano. Mal terminou o ano, 2026 já inicia com novas conquistas. Wagner Moura recebe o prêmio de melhor ator no New York Film Critcs Circle e O Agente vence a categoria de melhor filme estrangeiro no Critics Choice Awards em Los Angeles. Dito de outro modo, a criatividade e qualidade do cinema brasileiro segue encantando o mundo. Estrelinhas e tapetes vermelhos para os nordestinos. O diretor pernambucano Kleber Mendonça e suas asas de carcará. O impressionante ator baiano Wagner Moura. As presenças potentes dos potiguares Alice Carvalho, Tânia Maria, Kaiony Venâncio e da pernambucana Hermila Guedes entre tantos artista não menos talentosos. Tendência que não se limita ao filme do Kleber. Dos seis longas selecionados para disputar a vaga da indicação brasileira a concorrer ao próximo Oscar, três foram dirigidos por pernambucanos. O agente Secreto foi escolhido, mas não se pode deixar de reconhecer a originalidade e relevância dos diretores Gabriel Mascaro e Mariana Brennand em O último azul e Manas respectivamente.

Recife, agosto de 2025. É de manhã. Uma mulher de 54 anos caminha com o Rio Capibaribe pela Rua de Aurora. O cão sem plumas de João Cabral de Melo Neto ainda late bonito. Chega ao número 175. Entra no centenário Cinema São Luiz, cruza com Kleber Mendonça Filho, assiste à pré-estreia de O Agente Secreto. Na cidade e no
cinema que também estão nele. Dentro da sala que está dentro do filme. Adulta e criança na mesma poltrona. Vai começar.

Palavras-Chave:  Perna-cabeluda, memória, cinema, psicanálise.
 
Imagem: Foto de divulgação. Arte inpirada em Tarsila do Amaral, interferida pela equipe de design do filme.

Categoria: Cultura

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Categoria: Cultura
Tags: Cinema | Memória | Perna-cabeluda | Psicanálise
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