Observatório Psicanalítico OP 651/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Três em um

Adriana Rotelli Resende Rapeli  – SBPSP

Psicanálise e cinema, ciência/arte que nasceram juntas, oferecem-nos a dimensão múltipla e infinita da mente há mais de um século. Caminham comigo em meus passeios pelo mundo das ideias e das experiências.

Comecei querendo escrever sobre o impacto de um filme recente que vi no cinema; logo se juntou outro, e mais outro. Os três filmes convergiram em associações e insistiram nesta tentativa de public-ação de pensamentos, em busca de interlocução.

Eis aqui.

O primeiro dos filmes, em ordem — e não em menor importância — é o iraniano Foi “Apenas um Acidente”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, 2025. O diretor Jafar Panahi filma apesar das proibições políticas em seu país, resistência que já nos aponta o vigor cultural de sua obra.

O segundo é o americano “Uma Batalha Após a Outra”, dirigido por Paul Thomas Anderson, mais conhecido entre nós por filmes como Trama Fantasma e Sangue Negro, aqui reinventando-se em uma abordagem distinta.

Nosso representante em muitos festivais mundo afora, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, compõe este trio associativo — todos eles também premiados e “oscarizáveis”. Embora não tenha sido o mérito concedido por outrem o motor de minha reação a esses filmes, seu reconhecimento como obras me coloca junto à plateia global que os assiste.

São filmes viscerais, de estilos originais, que misturam suspense, ação, drama, humor e ironia. Colocam-nos em contato vivo com dados da realidade social e política de seus lugares de origem, dançam na memória das últimas décadas. Mesclam História e estórias, na boa ficção que, com sua seta indireta, acerta a verdade e nos envolve em nossas próprias vivências.

Tudo isso misturado, então, à minha reação como espectadora. No último congresso da Febrapsi apresentei um trabalho — talvez a ser publicado — sobre minha participação no Grupo de Cinema e Psicanálise da IPA, do qual participo há oito anos. Nele, discorro sobre esse método de análise do espectador, o único no qual posso realmente oferecer alguma contribuição. Até porque, diante da complexidade que a arte nos traz, as possibilidades de compreensão são intermináveis.

Nos três filmes, um Estado autoritário se apresenta: o regime autocrático de Reza Pahlavi, no Irã, ecoado no filme iraniano; um suposto governo americano — não tão distópico assim — no qual a supremacia branca dita regras, inclusive sua política antimigratória, em meio à polarização com grupos revolucionários em luta armada; e o governo Médici, no Brasil pós-AI-5. Governos que se impõem pela força repressora sobre oposições, diferenças e minorias.

Por isso mesmo, uma força capenga — como o ex-torturador iraniano que, por apenas um acidente de percurso em seu carro, é reconhecido pelo manquitolar por uma de suas vítimas, anos depois da tortura sofrida na prisão. Raptado por esse ex-preso político, o torturador será salvo pela dúvida e pela humanidade do grupo que se forma a partir de suas vítimas.

No veículo — uma van que lembra mais uma trupe mambembe — sentimentos distintos são colocados em cena: uma pequena arena democrática, na qual não falta o representante da violência vingativa, mas que não vence a maioria. Na discussão, emerge talvez o melhor que podemos esperar de nossa saúde mental: a dúvida, a ação postergada, uma política que leva em conta diferentes pontos de vista. O ódio vingativo perpetua a violência ainda não elaborada. A dúvida, apanágio dos “fracos”, o passo vacilante, pode nos salvar da estupidez arrogante.

O torturador passa então a ser considerado como pessoa: ele tem família, sua mulher está prestes a dar à luz uma criança. Ele, que não tinha nome — apenas uma alcunha — ganha uma identidade que não concedeu às suas vítimas, vistas apenas pela fachada ideológica e preconceituosa, sem julgamentos mais profundos. Quando a força prevalece, as pessoas desaparecem: tornam-se meros elementos de um grupo incômodo a ser desmantelado.

Para o grupo recomposto em sua dúvida, o tempo pode, então, fluir. Os personagens seguem suas vidas: há casamentos por acontecer, crianças por nascer, uma história ainda a suceder — como promessa. As crianças tornam-se, ao longo da estória, responsabilidade de todos.

Andando pelas ruas e subúrbios da grande cidade — Teerã, Recife ou o interior dos EUA —, os filmes nos apresentam personagens múltiplos, com identidades que renderiam outras estórias. Não são paralelos nem menores. Alguns, reconhecidos por atuações notáveis — como Benicio del Toro no filme americano e Tânia Maria no brasileiro — não “roubam a cena”. As diferenças estão ali, sem se sobrepor às demais. Há fragilidades inerentes, há equívocos a serem desfeitos. A riqueza da vida que acontece fora dos palácios, como no romance moderno.

O luxo, sim, pode nascer de uma visão não preconceituosa do lixo. E os filmes nos indicam o empobrecimento a que nossa vida mental pode ser levada pela rigidez de governos super-egoicos — organizações psíquicas nas quais a crueldade se torna motriz.

Nos três filmes, a divisão não maniqueísta da sociedade ajuda a perceber os riscos de qualquer organização cronificada ou precipitada. No filme americano, há uma cena hilária em que um pedido urgente de socorro dentro do grupo guerrilheiro se transforma em um pesadelo de call center: o labirinto enlouquecedor de um atendimento desumanizador e bur(r)ocrático.

Em “Uma Batalha Após a Outra”, inspirado na ficção de Thomas Pynchon, o homem vivido por um Leonardo DiCaprio maltrapilho, chapado e nada glamouroso é um especialista em explosivos que se desmancha com o nascimento da filha mestiça. Sua companheira, de sexualidade poderosa, permanece no grupo guerrilheiro que luta contra a política migratória na fronteira mexicana; é capturada e depois foge de seu algoz.

O pai, sob identidade falsa, cuidará da filha até o fim, em batalhas intermináveis. Sofre a perseguição do Estado militarizado, especialmente do supremacista caricato vivido por Sean Penn, que tenta apagar rastros de seu envolvimento com a guerrilheira fugitiva. Curiosamente, o andar também aparece como marca: Sean Penn surge com a falsa estatura das botas de salto, pernas abertas, como a desafiar o oponente. Mas os músculos forçosamente exibidos não escondem a moral achatada que tenta apagar as marcas de sua atração pela mulher negra.

A arrogância expõe o ridículo do racismo, que nega nossa origem ancestralmente multirracial. Ainda que a ironia do roteiro apresente o personagem defendendo-se de sua paternidade vergonhosa com a ideia de um “estupro invertido”, a condição dos nascidos indesejados escancara a constituição étnica dos vencidos: sabemos ser cromossomas Y da raça branca dos ser a preponderante na genética dos povos colonizadas pelos europeus.

Esse tema reaparece no filme brasileiro. O personagem de Wagner Moura procura nos arquivos o paradeiro de sua mãe, uma Maria (des)Aparecida — qualquer uma e ninguém — que trabalhava como doméstica para uma família abastada e engravidou do filho dos patrões. Criado por essa família, Marcelo torna-se pesquisador de pós-doutorado no exterior, mas volta a ocupar o lugar de uma minoria perseguida — aqui, a universidade e a ciência.

Ele se esconde da perseguição política e, ao tentar fugir com o filho para o exterior, adota o nome Armando e vai morar com outros refugiados em um prédio que, assim como a van do filme iraniano, constitui uma pequena amostra de democracia em convivência com as diferenças. Não sabemos quem é o agente secreto, título do filme – exceto pela menção a um filme francês com Jean-Paul Belmondo, contemporâneo ao enredo.

Mas há gente que desaparece. Pessoas reduzidas a números nas manchetes durante o carnaval — lidas pelo personagem de Wagner Moura —, entre elas uma das vítimas. Quantos foram os mortos? No início, 91; depois, outras mortes se interpolam: cem, cento e uma, mil e uma… Sem conta certa, sem que as vidas sejam plenamente consideradas, aqui e acolá, a Leste e a Oeste, nas fronteiras da cidade ou do Estado.

Kleber Mendonça também homenageia o cinema: as salas de projeção no meio da cidade, seus usos, abusos e desmantelamentos. Algumas destruídas, outras reaproveitadas — tema de seu belo documentário “Retratos Fantasmas” (2023). A cena final se passa nos tempos atuais: a sala de cinema transformada em centro de hematologia, onde trabalha o filho de Marcelo, cuja memória não pode ser registrada. O sangue, tantas vezes derramado ao longo do filme, agora é contido em bolsas de doação, fruto da mistura de gentes anônimas que nos compõem do passado ao futuro de nossa criatividade.

A cidade do Recife, nostálgica e realisticamente filmada por Kleber Mendonça, é um lugar onde tudo pode acontecer. A mesma força que ergue e destrói coisas belas, como canta Caetano Veloso sobre outro — o mesmo — lugar cosmopolita. No caldo efervescente, com o frevo carnavalesco em curso, surge ainda uma perna humana na boca de um tubarão, transformada em figura mitológica responsável por mortes misteriosas — explicação mágica, animista.

Mais uma vez, pés edipicamente inchados seguem recontando versões de sua história por milênios. Se pés tropeçam, pecam; seu melhor destino será o recomeço, a reinvenção, o perdão. A catástrofe torna-se, assim, mais um ato de nosso drama.

Por acaso — ou não —, são filmes que vi no tempo do Natal. Nos três, a paternidade e, mais amplamente, a filiação como condição humana frágil nos acompanham. O reconhecimento do terceiro elemento de nossa trindade constitutiva. Se não há outro, não há outros. O espelho narcísico não reconhece erros, maus passos, nem diferenças de qualquer tamanho.

O narcisismo organiza-se como estrutura cruel e destrutiva. Sem consideração pelo outro, sem amor, permanecemos em um estado não distópico, mas primitivo, no qual a força é o valor supremo. E assim perpetuamos guerras e batalhas, umas após as outras, sem acidentes que alterem percursos.

Assistir a filmes não nos afasta da realidade: liga-nos a ela. E, como em nosso trabalho clínico, nossas vivências e reações tornam-se caminhos valiosos de compreensão psicanalítica de nosso funcionamento mental e de leitura do mundo. Cinema e psicanálise podem ser boas companhias.

Escrevi este texto com o ano novo começando. Termino agradecendo ao OP pela impressionante produção dos colegas, cujos textos nos colocam em boas conversas.

Um bom ano  a todos. 

Palavras-Chave:  Cinema e Psicanálise, Autoritarismo, Memória e violência, política, Paternidade, filiação

Imagem: EBC. Agência Brasil. Fotógrafo Marcelo Camargo 

Categoria: Cultura

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Categoria: Cultura
Tags: autoritarismo | Cinema e Psicanálise | filiação | Memória e violência | paternidade | Política
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