
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Sobre fragmentos, tempos e o que mais se quiser pensar
André Botelho Campbell – SPBsb
Em um work party no último congresso da Febrapsi, ministrado por Cláudio Eizirik junto com Sérgio Lewkowicz, fomos apresentados a um modelo de transmissão da “escuta da escuta” em que fragmentos de uma sessão clínica iam, aos poucos, se constituindo em um todo através das associações do grupo. Na metodologia adotada, cada integrante recebia o mesmo trecho de diálogo, por vezes apenas uma fala ou até mesmo uma só palavra. Era só uma folha de papel: uma frase e uma imensidão.
O que me chamou logo atenção aqui é justamente isso: como esses fragmentos clínicos, teóricos, afetivos só se tornam experiência quando lhes damos um tempo erógeno, um tempo de pausa, para que possam ser investidos, elaborados e transformados em pensamento, em vez de apenas se perderem na velocidade do descarte ou virem prontos.
O grupo, disposto em roda, tinha à sua frente aquela folha de papel branco, aquele recorte, e a corporeidade do próprio grupo: os olhares, a tensão no ar, o borbulhar do pensamento que logo se fazia palavra e ia tecendo um todo a partir daquele fragmento mínimo. Havia ainda uma regra de abstinência importante: ninguém podia fazer perguntas à supervisionada sobre o caso e, se fizéssemos, ela não poderia responder. Ela estava ali, no meio da roda, com todo aquele saber e com o contexto guardado em silêncio, um silêncio que às vezes transbordava num olhar, num sorriso, num movimento corporal que dava pistas de uma história já vivida e agora sendo recontada e reescrita pelo grupo. Era justamente nessa ausência de informações, nessa falta assumida, que o grupo ia tecendo, pouco a pouco, um corpo simbólico para aquela dupla, para aquela relação.
Dessa produção tão delicada e intensa, das trocas espontâneas entre participantes de diferentes estados, formações, corpos, idades e raças, estabelecia-se um fio associativo comum e, com ele, a construção imagética de um alguém que estava ali presente apenas em nossas mentes. Eram os fragmentos que, unidos pelo nosso desejo de estar juntos e pelas imagens produzidas por cada um, que fomos dando forma àquele corpo.
Nesse movimento, compartilhávamos um tempo juntos, sem tecnologias, sem celulares, sem saídas da sala.
Estávamos centrados, entregues ao encontro, investindo um mesmo tempo e um mesmo desejo. Ao final de todos esses fragmentos distribuídos, aguardávamos ansiosos pela chegada do suposto saber “real” daquela pessoa construída por nós e, para nossa surpresa, algo se revelava: a terapeuta se tornava real.
Ouvíamos seu sotaque, seu tom de voz, suas gírias, sua expressão corporal, seus gestos, que foram, de forma potente, nos conduzindo ao contexto concreto daquela situação vivida por ela e por seu paciente. E um fenômeno interessante se produzia nesse confronto entre o ser imaginado por nós, construído juntos, unidos em uma mesma falta e esse outro corpo simbólico, agora encarnado na presença daquela que tinha diante de si um paciente de carne e osso. As imagens se reformulavam em nossas mentes, confrontadas por essa outra cena, esse outro corpo, produzindo algo nosso, tecido naquele tempo compartilhado, em um dia inteiro de trocas muito afetivas.
Foi assim que me senti capturado por essa experiência do poder dos fragmentos, do recorte, e de como ele é capaz, se tivermos tempo e possibilidade de transformar nossa ânsia de saber em imagens, de nos permitir pensar nossos pensamentos e nos deixarmos atravessar pela experiência emocional que advém do grupo. É nesse tipo de setting que o fluir da criatividade e da capacidade de pensar pode emergir. Foi na pausa do tempo, no assegurar das horas, no afastamento das velocidades do mundo lá “fora”, que esse grupo se investiu naquela demanda emocional tão viva.
Nos dias que se seguiram, no invólucro de Gramado, entre o wish e o master (eixos que organizavam o congresso) marcando desejos, temas e percursos, cerca de 1.500 pessoas transitavam entre salas, corredores e lombadas da cidade. Corriam de uma sala para outra, traçavam percursos próprios, passavam por baixo das escadas, pelas laterais, nos translados. Uma pequena corrida contra o tempo para circular entre as mesas e capturar recortes teóricos compartilhados sob a atmosfera da cidade do Natal Luz, que se construía naquela mesma semana.
Todos ali, dispostos a se enriquecer de fragmentos, memórias, afetos, que ao longo dos dias iam tecendo uma experiência singular em cada um dos presentes. Recortes, Dora, mãe morta, transferência erótica, narcisismo, psicossomática, masoquismo, pulsões, corpo, dança, cultura… experiências-conceito que permanecem como traços, necessitando de tempo para maturar em cada uma das vivências ali sentidas – como a degustação de um buquê de aromas que demanda demora para ser metabolizado e transformado em identidade olfativa.
Entre todas essas temáticas, algo me capturou: me peguei pensando sobre o tempo. Qual o tempo necessário para se fazer de um fragmento, história? Uma teoria?
Na lógica atual do consumo, do luxo e da hipermodernidade, vivemos um constante “passar”: passamos de vidas em vidas pelo Instagram, damos um like ou outro, vemos stories, índices sociais de histórias que querem ser contadas, que esperam ser ouvidas, lidas, curtidas. Da mesma forma, passávamos também de mesa em mesa, de palestra em palestra, como se os conteúdos fossem vitrines de um desfile interminável de ideias. Tudo corrido, “contra” o tempo, entre espaços, com a volúpia de fragmentos soltos de vida.
Mas o tempo ao qual gostaria de me dedicar aqui é um tempo erógeno, qualitativo, aquele que faz pausa sem se submeter à chantagem de “perder tempo”; que se detém para dar forma à experiência e, assim, possibilita o tecer do pensar e, por consequência, a liberdade do vir-a-ser.
Cada vez mais percebo a dor da ausência de tempo na clínica, na cultura e na vida. Mas seria falta ou excesso? Temos pouco tempo ou fragmentos demais, acumulados, jogados às traças, à espera de um olhar, do investimento de um tempo erotizado que lhes dê forma, corpo, conteúdo e história?
E aí me dei conta de uma coisa… Ao retornar dessa imersão tão impactante em Gramado, me percebi com um desejo grande de compartilhar um texto, um tecido que articulasse tantos tópicos teóricos, clínicos e afetivos que vivenciei. Queria escrever sobre as teorias que conheci, falar dessa experiência com os colegas, dividir os aprofundamentos, dividir esses fragmentos e memórias que pulsavam tão vivos em mim naquele momento.
Mas o tempo passou, e nada escrevi. E para onde foram parar aqueles fragmentos?
Percebi que nada escrevi porque não parei; não escrevi porque não me (de)tive no tempo. E, claro, minha justificativa foi tão convincente: “achei que tivesse perdido o timing”! Tantas coisas aconteceram depois: 121 corpos exibidos de forma obscena após a grande operação no Rio de Janeiro, a perda de Lô Borges e Jards Macalé, desastre natural com o tornado no Paraná… Foi como passar, no Instagram, de foto em foto: a imagem de Gramado já tinha rapidamente ficado ultrapassada. Eu tinha rolado a tela, visto o próximo e o próximo acontecimento. Deixei de lado meus recortes, meus traços, estavam ali, soltos, anotados em bloquinhos, todos disponíveis para serem investidos por mim, mas à deriva num tempo que parecia não existir.
Em Freud, é no a posteriori (Nachträglichkeit) que o tempo acontece; é nesse depois que algo vivido é retomado, reinvestido, reinterpretado e ganha outro estatuto psíquico. É naquilo que se resgata da experiência que se torna possível erotizar e investir os fragmentos, transformando-os em alguma coisa pensável. Só depois de vivido é que se pode, de fato, acessar e simbolizar o que se viveu.
Mas como chegar a esse posteriori sem que ele seja apagado pelo ímpeto da cultura hipermoderna, que nos convence de que o que passou é descartável? Recordarpara quê, se eu tenho o mais novo? Queremos o próximo, o mais atual, o “melhor”; as coisas perdem valor e são tomadas como ultrapassadas. E talvez seja exatamente naquilo que ultra-passou que podemos resgatar fragmentos para tecer o aqui e agora.
Escrevo, assim, de um entrelugar: não apenas como alguém que pensa o tempo e os fragmentos, mas como alguém atravessado por eles, que também se percebe, muitas vezes, incapaz de metabolizar tudo o que vive. Talvez seja precisamente nesse ponto – entre teoria e confissão, entre congresso e bloquinho – que o texto se faça: como tentativa de dar tempo aos fragmentos e de lhes oferecer, enfim, um corpo de escrita.
Essa dificuldade de dar tempo aos fragmentos, de sustentar um tempo erógeno para a experiência, ressoa com o que Vivian Abenshushan desenvolve no ensaio “Notas sobre os doentes de velocidade”.
Em sua obra ela escreve um ensaio narrativo que articula reflexão histórica, crítica social e confissões autobiográficas para pensar a velocidade como doença central do capitalismo contemporâneo e de suas subjetividades.
Ela inicia o texto com uma “história política da velocidade”, que começa com os revolucionários franceses atirando nos relógios das praças, entendidos como dispositivos de parcelamento da existência e instrumentos de controle social. O relógio mecânico, associado aos monastérios, às prefeituras e depois à fábrica, é apresentado como máquina-chave da modernidade, que transforma o tempo em mercadoria, regula o trabalho sob a lógica da “mais produção em menos tempo” e produz a figura do “doente de velocidade”.
Nesse cenário, a autora destaca um sentimento de ambivalência profunda na experiência da velocidade, sublinhando seu caráter paradoxal. Abenshushan narra uma vivência pessoal intensa de dirigir à noite em alta velocidade, que se traduz em uma sensação estética de falta de gravidade, quase como flutuar em um espaço cósmico ou em um estado alterado de consciência. Essa experiência produz uma emoção ambígua – metade medo, metade excitação – em que o desejo de ir ainda mais rápido está entrelaçado à consciência da proximidade da morte.
Ela dialoga com referências literárias clássicas, como Thomas De Quincey, um dos primeiros a captar a perda de controle e a sedução trágica da velocidade, entendendo-a simultaneamente como fonte de fascínio e símbolo de liberdade, mas também como agente inevitável da catástrofe e da morte súbita. A velocidade, assim, não é apenas uma experiência física ou técnica, mas um fenômeno estético que desafia a percepção humana por sua rapidez e imprevisibilidade, gerando uma espécie de alucinação imediata ou vertigem.
Abenshushan conecta essa tensão entre velocidade, erotismo e desejo ao romance Crash, de J. G. Ballard, em que o impacto do automóvel nos acidentes é erotizado, e a velocidade se torna componente de uma nova sexualidade perversa, que cultua a violência e a catástrofe como forma de experiência intensa e última. Essa relação entre o prazer sombrio da velocidade e a morte iminente sintetiza o tema central: a velocidade é, ao mesmo tempo, êxtase e condição-limite, que nos coloca frente ao abismo da existência.
Dessa forma, ela expõe a velocidade como uma experiência moderna que contém em si a linha tênue entre o desejo de superação dos limites do corpo e da mente e o impulso autodestrutivo que essa aceleração pode acarretar, estabelecendo uma relação inseparável entre impulso vital e finitude. A velocidade, nesse sentido, é uma metáfora política e filosófica para os dilemas do sujeito contemporâneo, marcado pela busca de sentido em um tempo cada vez mais acelerado e fragmentado.
Mas ela não apenas aponta o abismo. Ou sim, o aponta, mas também nos oferece um recurso: contra a vertigem, reivindica a escrita, especialmente o ensaio digressivo, como uma “máquina da lentidão” capaz de congelar o instante, retardar o tempo e permitir compreender a tragédia inerente à velocidade. Ao comentar De Quincey, Joyce, Tristram Shandy, Jünger e Larbaud, sugere que a literatura e a reflexão são formas de desaceleração que restituem ao sujeito um tempo próprio, ainda que não “curem” a doença de velocidade, mas a tornem pensável – algo que se aproxima do próprio gesto que tento realizar aqui, ao escrever e dar corpo aos fragmentos da minha experiência.
Se, para Abenshushan, o ensaio digressivo pode funcionar como uma “máquina da lentidão” que torna pensável a doença de velocidade, eu reconheço, ao meu modo, essa mesma função em outros lugares.
Ufa! Ainda bem que existe a arte, literatura, música, poesia, natureza e a psicanálise; todos ali, à espera, como um pequeno mirante silencioso pronto para nos acolher frente à imensidão da contemplação e frear a velocidade. São nessas pausas que a condição freudiana do a posteriori permite erotizar a experiência e o tempo; é o que nos permite pensar os fragmentos, nos conectar com os grupos e nos abre para a possibilidade de elaborar o que foi vivido, fazendo surgir o tão caro exercício de pensar os pensamentos. Fato é que há tempo vivido nesse tempo que pareceu perdido, e é nele que se encontram os fragmentos de uma experiência rica e viva, pronta para ser desacelerada, escrita, historicizada, para se tornar o que tiver de vir a ser.
A velocidade excessiva transforma os fragmentos em partes, recortes soltos, memórias obsoletas, ultrapassadas, entregues ao esquecimento promovido pela suposta falta de tempo. É preciso desacelerar, se lentificar, deitar em um divã, embaixo de uma árvore, ou em frente ao mar. É preciso intricar o tempo com a experiência para dar conta de reescrever o ensaio do que se viveu, quantas vezes forem necessárias, digredindo, “fracassando” frente às exigências do hiperveloz para não adoecer de velocidade.
Desacelerar, digredir e elaborar: seriam essas algumas das exigências da era do tempo dos “sem tempo”? É também trabalho do psicanalista agir em defesa de um vir-a-ser que recusa a aceleração como valor absoluto, de modo a conduzir o sujeito a parar, nem que por um instante, com a sofreguidão de seu mundo interno e externo, abrindo espaço para um tempo de qualidade em que se permite fazer fluir e surgir suas palavras e sua história.
Ainda bem que parei, que escrevi e me lentifiquei para compartilhar com vocês os fragmentos de uma angústia de me sentir sem tempo.
Palavras-Chave: Contemporaneidade, Tempo, Hipermodernidade, Fragmentos, Posteriori
Imagem: “The White Rabbit with a watch”, John Tenniel, 1889
Categoria: Instituição Psicanalítica; Política e Sociedade
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