Observatório Psicanalítico OP 649/2025

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Haja Luz

Bereshit, Hanucá e Natal

Daniel Delouya – SBPSP

Gênesis é o primeiro texto da Bíblia, do livro dos livros do Ocidente; contudo, sua tradução não me agrada. Bereshit, seria “no começo” ou “nos começos”; indica um ponto inicial que pode coincidir, ou não, com o engendramento das coisas. Ademais, o termo gênese pode fazer sentido; já a expressão “os começos”, não.

Veja-se o primeiro versículo: “No começo, Deus engendrou o céu e a terra”. Utilizo aqui engendrou, e não criou, porque o verbo bara é um atributo exclusivo de Deus, por meio do qual algo é engendrado a partir do nada. Já criar (yatzar, instar) designa a gênese de algo a partir de outra coisa, o que difere assintoticamente do intento bíblico. 

Com efeito, nem os começos — uma vez que sempre há ponto de início e de fim em uma sequência infinita —, nem a criação a partir do nada são apreensíveis pela razão.

O segundo versículo causa-nos espanto, pois, se no primeiro se dera início ao céu e à terra, no segundo parece haver a constatação de que algo escapara de Suas mãos. A terra que havia engendrado encontra-se agora submersa no caos (tohu uh vohu), com trevas sobre o abismo, restando ao sopro divino apenas sobrevoar, pairar sobre a face das águas, como se fosse o único ponto de referência após a catástrofe deflagrada.

De onde lhe adviriam as forças para contornar uma situação tão calamitosa, logo após ter inaugurado o mundo? A fala!

A fala, que surge pela primeira vez, irrompe em ato— terceiro versículo: “Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz”. Como quando, bem mais tarde,  o menino de Freud, em trevas, pede à tia que fale, para que haja luz.

Quando a fala compareceu no mundo, como resposta à catástrofe, fez-se a luz. E o quarto versículo afirma que esse ato, de luz, dotou Deus de uma consciência, de um juízo estético e moral: “Viu que a luz era boa e separou-a das trevas”. Tal distinção permitiu-lhe, no quinto versículo, instituir os nossos dias, compostos de dia e noite, de amanhecer e entardecer. Ou seja, nada foi eliminado, na esperança de que nós próprios nos incumbíssemos de compor a vida no interior dessa dualidade tênue e tenazmente conflituosa. 

Chegamos à Hanucá e ao Natal.

Antes, porém, de me deter nessas festas das luzes, cumpre dizer algo acerca d’Ele: o Nome (shem) que, no judaísmo, não pode ser pronunciado, é um verbo do ser, conjugado num tempo futuro contínuo, sem fim à vista — o vir-a-ser, o haver-se. Por essa razão, encontra-se sempre em silêncio, em suspensão, em permanente devir. É aí que se situa a fala-luz.

Hanucá e Natal — festas das luzes e a luta pela palavra

Os períodos festivos de Hanucá e do Natal por vezes coincidem, ainda que separados por poucos dias — como neste ano, em que o Natal tem início três dias após o término de Hanucá. Entre o advento histórico dessas celebrações, contudo, estende-se um intervalo de cerca de quinhentos anos: Hanucá remonta a 164 a.C., ao passo que o Natal se institui, como festa cristã, em 336 d.C. Há ainda outra associação possível entre ambas: a luz. Também aqui, porém, a convergência não é originária. Hanucá é, em seu desígnio, em sua origem e em sua essência, a festa das luzes (Chag Orim), enquanto no Natal as luzes foram, por diferentes vias, lentamente se infiltrando, até se consolidarem como signo central apenas ao final da Idade Média.

Hanucá e Natal compartilham ainda uma outra característica que, para mim, é preciosa e constitui o motivo destas linhas: a presença dos ausentes. A confraternização terna e calorosa se realiza sempre sobre o pano de fundo daqueles que partiram, dos que já não estão entre nós. As luzes — chamas singelas, trêmulas, quase delicadas e belas — mantêm entre si certa distância, delimitando espaços turvados pelo calor que irradiam, enquanto se mesclam a canções ternas e nostálgicas, de alegria contida, de esperança, de amores inacabados. Penso nessa qualidade inestimável dos encontros que essas festas propiciam: as perdas mais significativas, sobretudo as mais recentes, tornam-se os veios mais sutis e ao mesmo tempo incisivos da confraternização e do luto, da gratidão e docilidade que a acompanha.

Assim, deitei-me tarde no sábado passado, tomado por uma sensação, à primeira vista destoante:  como se fosse a véspera de um dia singular, quase festivo. O dia seguinte era o dia de acender a primeira vela de Hanucá e, desta vez, surpreendia-me estando impaciente por falar, por confraternizar à distância — pelo WhatsApp — a festa que se anunciava.

Não celebro as festividades judaicas há décadas; acompanho-as apenas de longe, sentindo, quase aspirando, a sua proximidade — um patrimônio persistente da infância, que resiste como um aroma antigo, difícil de nomear. Que força, então, me conduzia a essa excitação simultaneamente terna e ansiosa? Logo percebi que neste ano, em um intervalo curto e abrupto, perdi dois membros significativos de minha família nuclear, e fora impedido de acompanhá-los em seus derradeiros momentos.

Não poderia, portanto, abdicar desse “pretexto” oferecido por Hanucá para uma comunhão tão íntima, necessária, com minhas irmãs e meu irmão.

Acordei cedo, antes das seis da manhã, tateando o celular ao meu lado. Abri o WhatsApp no endereço Famille Delouya e, antes mesmo de escrever a primeira linha — Feliz festa das luzes, meus queridos —, vi interromperem, em sucessivas notificações dos aplicativos de jornais estrangeiros, as notícias dos ataques terroristas na praia de Sydney.

Abismado, abri um dos vídeos. De uma ponte — maldita perspectiva — dois homens dispararam contra um grupo reunido à beira-mar, assim ao menos me pareceu naquele instante. Fui tomado por uma dor pontiaguda e, mais ainda, por uma tristeza densa e silenciosa; não pela raiva, nem pela pena ou indignação que habitualmente me assaltam diante de tais cenas.

Permaneci imóvel, estatelado, como se todo o entusiasmo inicial, aquele impulso de comunhão que me despertara antes do amanhecer, tivesse se dissipado subitamente. Meus olhos corriam pelas reportagens… Ainda consegui perceber a resposta de meu irmão à frase que eu deixara esboçada no WhatsApp: difícil festejar a luz diante desse horror na Austrália. Não respondi. 

Meu desapontamento era imenso — e, de algum modo, desconexo das notícias reiteradas sobre a morte de crianças e também de um idoso de 87 anos, sobrevivente dos campos de concentração; 15 mortos e 40 feridos, todos envolvidos no início da festividade de Hanucá. Austrália é, segundo o nosso calendário ocidental, o primeiro lugar em que se inauguram nossas festividades “universais” e também suas eventuais desgraças. 

Logo descobri que minhas inusitadas prostração e desapontamento face ao entusiasmo da véspera se deviam a uma lembrança latente que me foi revelada uma hora mais tarde. Teria a acessado se não fosse o domingo funesto?

No final dos anos 80 estive em uma visita de trabalho, de dez meses, numa faculdade de medicina nos Estados Unidos. Cheguei em final de novembro, quando a neve já começava a cair. Não conhecia ninguém. Ainda assim, fui convidado, no mês seguinte, para a celebração noturna de Natal do grande conjunto dos hospitais em Saint-Louis, capital de Missouri em que 55% da população era negra. Ao evocar essa cena, comovo-me: ao adentrar o amplo e acolhedor salão, cheio de luzes, surpreendeu-me a mescla delicada de enfeites e símbolos, bem como o entrelaçamento das canções de Hanucá e do Natal — uma sucedendo a outra, num abraço espontâneo de Merry Christmas com Happy Hanucá, acompanhado daquele breve afago do olhar que indagava, sem constrangimento, se o outro era do Christmas ou do Hanucá, ou de ambos.

Eu, Daniel, cuja primeira e perene consciência — desde os cinco ou seis anos — fora moldada pela advertência reiterada: “atenção, tome cuidado, somos judeus”, podia ali, de súbito, abdicar dessa vigilância. Estávamos acolhidos, juntos, em comunhão uns com os outros. Um alívio sem precedentes me atravessava — talvez a experiência mais plena de solidariedade e pertencimento que já conhecera junto à um grupo em grande parte anônimo.

Racismo, anti-semitismo 

Já escrevi, neste espaço, sobre a raça, A raça em primeira. A raça, como afirma Thamy Ayouch (A raça no divã, 2025) não existe a rigor; ainda assim, produz efeitos. A identificação ao e pelo grupo é das mais primárias e potentes, remontando à identificação inaugural, segundo Freud, ao pai da história, pela qual nós reconhecemos como humanos. É nessa base que se constituem nossas raças, às quais devemos a potencialidade infinita de nossas singularidades — portanto, raciais.

Outra coisa, porém, é a racização (Ayouch)— um aspecto da racialização no qual se produzem a hegemonização, uma designação de domínio que negativiza e inferioriza. Ela não respeita os ausentes, o luto, o nascimento, a luz — o Hanucá e o Natal de cada alma; em suma, abomina as singularidades raciais de gênero, cor, classes, crenças e modos de viver. Em nome do afã de colmatar a nossa condição de desamparo pelo poder, a racialização rejeita essas singularidades e imerge no racismo, com seu fanatismo e sua onipotência; almeja, assim, uniformizar-nos.

O antissemitismo é, certamente — talvez depois do machismo — o mais antigo e enraizado dos racismos, anterior inclusive ao dirigido aos negros, como afirma o próprio Ayouch. Ele se enreda nas consequências da dissidência cristã em relação ao judaísmo, ocorrida nesse intervalo simbólico de quinhentos anos entre Hanucá e Natal, e consolida-se como instituição mais tarde, no período da Inquisição, no século XV.

Numa mesa do último Congresso da FEPAL (Rio de Janeiro, 2024) estabeleci um paralelo entre dois períodos separados por quase dois mil anos. De um lado, a luta árdua e perseverante pela autonomia judaica que, após uma vitória inicial, foi seguida por um período de prosperidade cultural e nacional, mas que acabou por degenerar em dominação, soberba e fanatismo, conduzindo à destruição da soberania e da pátria judaicas. Uma trajetória que se inicia com a insurgência dos judeus, sob a liderança dos hasmoneus, em 164 a.C., em sua terra natal, contra a dominação grega cruel e humilhante, – episódio celebrado até hoje em Hanucá — e que, cerca de 150 anos depois, se deteriora com a instauração do domínio dos fanáticos (Canaim), culminando em seu esmagamento pelos romanos, em 70 d.C., momento em que se configura a dispersão definitiva dos judeus pelo mundo.

De outro lado, em paralelo, situam-se as consequências da grande volta moderna dos judeus ao seu lugar de origem, também ao longo de 150 anos, desde o surgimento do movimento sionista no final do século XIX até sua progressiva deterioração ao longo dos últimos sessenta anos, desembocando no atual governo fascista e de extrema direita em Israel.

O que nos estarrece desde outubro de 2023 é o novo despertar manifesto — quase esfuziante — do antissemitismo, com suas violências inusitadas, agora mascarado sob a forma de apoio a um movimento justo e necessário pela libertação do povo palestino. O ódio aos judeus permanece intacto, reaparecendo travestido de denúncia do recente genocídio palestino, que se procura remontar a uma suposta ideologia colonialista judaica, em colaboração com a europeia. A essa ideologia atribui-se a “criação” de um sionismo orientado à limpeza étnica da Palestina e, em seguida, à solução final do genocídio, e assim por diante.

Umas das primeiras manifestações violentas contra a comunidade judaica ocorreu na Australia e se repetiu algumas vezes desde o início de 2024. O governo se mostrou leniente em tomar medidas de proteção adequadas e suficientes, talvez em função das pressões eleitorais e a vontade de angariar maior apoio das novas comunidades muçulmanas. O que nada tem a ver com a adesão da Australia ao bloco de países que felizmente enfrentaram as ameaças dos EUA e afirmaram seu apoio por um estado soberano palestino. Um apoio que consideramos necessário para uma mudança significativa na tragédia Israel/palestina. 

De Volta, por favor: faça luz 

Antes que o newspeak (a novilingua de G. Orwell) e sua banalidade (de H Arendt) nos apaguem as luzes seria preciso encararmos, de novo, o intervalo judaico entre Gregos e Romanos, entre Hanucá e Natal. Ele não está em paz, exige atenção! Seria olhar, como nos começos para esse abismo até encontrar o dizer, a palavra, a luz.

Caso contrário, incorremos na lei do talião. Em 135 d.C., após nova insurgência na Judeia, o imperador Adriano decidiu renomear Israel como Palestina, integrando-a à Síria, numa tentativa de apagar definitivamente um povo  judaico e sua terra. Hoje, intelectuais da esquerda cunharam o termo palestinação para designar o despojamento de bens e territórios de populações. Não cunharam, porém, termo equivalente para os povos indígenas que, há séculos — ainda hoje —, são despojados e lentamente dizimados em sua própria terra, que jamais abandonaram.

O odor antissemita ecoa nesses movimentos e protestos. Não se trata de ódio a pessoas judias ou às suas comunidades reais, mas a algo da judeudade que ninguém parece compreender e que essas comunidades — nós, os judeus —, sabe-se lá por quê, insistem em carregar. Freud tentou entender, mas não convenceu, nem mesmo seus colegas psicanalistas.

Hanucá é inauguração, Natal é nascimento ….

Haja luz! 

Feliz Hanucá, festa das luzes, Feliz Natal a todos nós! 

Palavras chave: Luz, Palavra, Hanucá, Natal 

Imagem: Natal e Hanucá

Categoria: Política e Sociedade  

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Tags: Hanucá | luz | Natal | Palavra
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