
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
A Sessão de Véspera
Um conto de Natal
José Antonio Sanches de Castro – SBPSP e GEP Marília.
I.
Vinte e três de dezembro, dezessete e quarenta. A última paciente do ano cancelou — gripe, disse, mas ele sabia que era a gripe específica que acomete quem não quer falar sobre a mãe antes do Natal.
Renato ficou olhando a poltrona vazia. Trinta e dois anos de clínica. Quantas vésperas assim? O consultório em silêncio, a cidade lá fora acelerando em direção a alguma coisa que ele nunca conseguiu nomear direito.
Poderia ir embora. Deveria.
Mas ficou.
II.
A campainha tocou às dezoito e doze.
Não esperava ninguém. Foi até a porta com a irritação comedida de quem teve a solidão interrompida.
Um homem de uns sessenta anos. Barba branca aparada, olhos muito azuis, um certo cansaço nos ombros. Roupa comum — camisa xadrez, calça de veludo cotelê gasta nos joelhos.
— O senhor é o Dr. Renato?
— Sou. Mas não tenho horário agora.
— Eu sei. — O homem sorriu, um sorriso que parecia pedir desculpas por existir. — Não vim como paciente. Vim pedir uma supervisão.
Renato franziu a testa. Não conhecia aquele rosto, e conhecia quase todos os colegas da sociedade.
— O senhor é analista?
— De certa forma.
Havia algo no tom — nem arrogante nem humilde, apenas preciso — que fez Renato abrir mais a porta.
— Entre.
III.
O homem sentou-se na poltrona dos pacientes sem perguntar, como quem conhece o protocolo. Renato ocupou sua cadeira de sempre.
— Seu nome?
— Pode me chamar de Nicolas.
— Nicolas. — Renato anotou mentalmente: nome simbólico demais para ser coincidência. — E o que o traz aqui, Nicolas?
O homem cruzou as mãos sobre o colo.
— Escuta, doutor. Todo ano, na mesma época. Milhões de pessoas projetam em mim suas fantasias de reparação. O pai que falhou, o amor que não veio, a infância que não existiu. Sou objeto transicional de uma civilização inteira.
Renato manteve o rosto neutro, mas algo nele se moveu.
— Continue.
— O problema — Nicolas inclinou-se para frente — é que eu sinto. Cada carta que uma criança escreve pedindo que os pais parem de brigar. Cada adulto que acorda no dia vinte e cinco com a velha decepção. Eu carrego isso.
— Contratransferência em escala industrial.
Nicolas riu. Um riso pequeno, cansado.
— Exatamente.
IV.
— O senhor está me dizendo — Renato escolheu as palavras com cuidado — que é quem eu penso que é?
— Estou dizendo que sou o que as pessoas precisam que eu seja. Há diferença?
Renato ficou em silêncio. Lembrou da expressão: o bebê cria o seio, mas o seio já estava lá para ser criado.
— E por que eu? Por que esta supervisão?
Nicolas olhou pela janela. A noite começava a descer.
— Porque você ficou. Sua paciente cancelou, você poderia ter ido embora, mas ficou. Olhando a poltrona vazia. Se perguntando se fez alguma diferença nesses trinta e dois anos.
Renato sentiu um aperto no peito que não sentia desde a própria análise.
— E fiz?
— Você está me perguntando ou está se perguntando?
V.
— Há uma menina em Osasco — Nicolas disse, depois de um silêncio. — Oito anos. Pediu um pai que preste atenção nela. Não brinquedos. Atenção. Eu não posso dar isso. Não cabe no trenó.
— O que cabe?
— Uma lembrança. Um sinal. Algo que diga: você foi vista.
Renato pensou em seus próprios pacientes. Quantos vinham, no fundo, pedindo exatamente isso?
— Talvez — ele disse devagar — o presente não seja a coisa. Seja o fato de que alguém parou para pensar no que você precisava.
Nicolas concordou com a cabeça.
— É o que eu faço todo ano. Paro para pensar. Mas doutor — e aqui sua voz falhou pela primeira vez —, quem para pra pensar em mim?
VI.
A supervisão durou cinquenta minutos. Como deve ser.
Quando Nicolas se levantou para ir, Renato ficou sentado.
— Posso lhe fazer uma interpretação?
Nicolas parou na porta.
— O senhor veio aqui não para receber algo, mas para dar. Deu-me a chance de ser útil na véspera em que eu me perguntava se ainda sou. Esse é o seu verdadeiro ofício: não entregar presentes, mas criar ocasiões para que as pessoas descubram o que têm a oferecer.
Nicolas ficou parado por um momento. Depois, sorriu — e dessa vez o sorriso não pedia desculpas.
— Feliz Natal, doutor.
— Feliz Natal, Nicolas.
VII.
Renato desceu para a rua às dezenove e quinze. A cidade tinha aquela luz específica de véspera, uma urgência dourada nas janelas.
No banco da praça em frente ao consultório, uma mulher de uns quarenta anos olhava o celular com a expressão de quem espera uma mensagem que não vem.
Ele sentou ao lado dela.
— Posso lhe fazer companhia por um momento?
A mulher ergueu os olhos, surpresa.
— Por quê?
Renato pensou em Nicolas. Na menina de Osasco. Em trinta e dois anos de poltronas vazias e cheias.
— Porque estamos os dois aqui.
A mulher guardou o celular. Não disse nada.
Ficou.
[FIM]
Para meus colegas de escuta — que sabem que o maior presente é, às vezes, apenas ficar. Nesta véspera em que tantos nos procuram carregando trenós invisíveis cheios de expectativas não nomeadas, compartilho este pequeno conto — uma supervisão improvável que lembra por que ficamos, mesmo quando a poltrona está vazia.
Que neste Natal possamos ser, cada um à sua maneira, aquele banco de praça: presença sem demanda, silêncio que acolhe, permanência que diz você foi visto.
Às vezes, é o suficiente.
Feliz Natal
Palavras chaves : Escuta, Ausência, Reparação, Presença
Imagem: IA Grok
Categoria: Política e Sociedade; Cultura
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