Observatório Psicanalítico OP 648/2025

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

A Sessão de Véspera

Um conto de Natal

José Antonio Sanches de Castro –  SBPSP e GEP Marília.

I. 

Vinte e três de dezembro, dezessete e quarenta. A última paciente do ano cancelou — gripe, disse, mas ele sabia que era a gripe específica que acomete quem não quer falar sobre a mãe antes do Natal.

Renato ficou olhando a poltrona vazia. Trinta e dois anos de clínica. Quantas vésperas assim? O consultório em silêncio, a cidade lá fora acelerando em direção a alguma coisa que ele nunca conseguiu nomear direito.

Poderia ir embora. Deveria.

Mas ficou.

II. 

A campainha tocou às dezoito e doze.

Não esperava ninguém. Foi até a porta com a irritação comedida de quem teve a solidão interrompida.

Um homem de uns sessenta anos. Barba branca aparada, olhos muito azuis, um certo cansaço nos ombros. Roupa comum — camisa xadrez, calça de veludo cotelê gasta nos joelhos.

— O senhor é o Dr. Renato?

— Sou. Mas não tenho horário agora.

— Eu sei. — O homem sorriu, um sorriso que parecia pedir desculpas por existir. — Não vim como paciente. Vim pedir uma supervisão.

Renato franziu a testa. Não conhecia aquele rosto, e conhecia quase todos os colegas da sociedade.

— O senhor é analista?

— De certa forma.

Havia algo no tom — nem arrogante nem humilde, apenas preciso — que fez Renato abrir mais a porta.

— Entre.

III. 

O homem sentou-se na poltrona dos pacientes sem perguntar, como quem conhece o protocolo. Renato ocupou sua cadeira de sempre.

— Seu nome?

— Pode me chamar de Nicolas.

— Nicolas. — Renato anotou mentalmente: nome simbólico demais para ser coincidência. — E o que o traz aqui, Nicolas?

O homem cruzou as mãos sobre o colo.

— Escuta, doutor. Todo ano, na mesma época. Milhões de pessoas projetam em mim suas fantasias de reparação. O pai que falhou, o amor que não veio, a infância que não existiu. Sou objeto transicional de uma civilização inteira.

Renato manteve o rosto neutro, mas algo nele se moveu.

— Continue.

— O problema — Nicolas inclinou-se para frente — é que eu sinto. Cada carta que uma criança escreve pedindo que os pais parem de brigar. Cada adulto que acorda no dia vinte e cinco com a velha decepção. Eu carrego isso.

— Contratransferência em escala industrial.

Nicolas riu. Um riso pequeno, cansado.

— Exatamente.

IV. 

— O senhor está me dizendo — Renato escolheu as palavras com cuidado — que é quem eu penso que é?

— Estou dizendo que sou o que as pessoas precisam que eu seja. Há diferença?

Renato ficou em silêncio. Lembrou da expressão: o bebê cria o seio, mas o seio já estava lá para ser criado.

— E por que eu? Por que esta supervisão?

Nicolas olhou pela janela. A noite começava a descer.

— Porque você ficou. Sua paciente cancelou, você poderia ter ido embora, mas ficou. Olhando a poltrona vazia. Se perguntando se fez alguma diferença nesses trinta e dois anos.

Renato sentiu um aperto no peito que não sentia desde a própria análise.

— E fiz?

— Você está me perguntando ou está se perguntando?

V. 

— Há uma menina em Osasco — Nicolas disse, depois de um silêncio. — Oito anos. Pediu um pai que preste atenção nela. Não brinquedos. Atenção. Eu não posso dar isso. Não cabe no trenó.

— O que cabe?

— Uma lembrança. Um sinal. Algo que diga: você foi vista.

Renato pensou em seus próprios pacientes. Quantos vinham, no fundo, pedindo exatamente isso?

— Talvez — ele disse devagar — o presente não seja a coisa. Seja o fato de que alguém parou para pensar no que você precisava.

Nicolas concordou com a cabeça.

— É o que eu faço todo ano. Paro para pensar. Mas doutor — e aqui sua voz falhou pela primeira vez —, quem para pra pensar em mim?

VI. 

A supervisão durou cinquenta minutos. Como deve ser.

Quando Nicolas se levantou para ir, Renato ficou sentado.

— Posso lhe fazer uma interpretação?

Nicolas parou na porta.

— O senhor veio aqui não para receber algo, mas para dar. Deu-me a chance de ser útil na véspera em que eu me perguntava se ainda sou. Esse é o seu verdadeiro ofício: não entregar presentes, mas criar ocasiões para que as pessoas descubram o que têm a oferecer.

Nicolas ficou parado por um momento. Depois, sorriu — e dessa vez o sorriso não pedia desculpas.

— Feliz Natal, doutor.

— Feliz Natal, Nicolas.

VII. 

Renato desceu para a rua às dezenove e quinze. A cidade tinha aquela luz específica de véspera, uma urgência dourada nas janelas.

No banco da praça em frente ao consultório, uma mulher de uns quarenta anos olhava o celular com a expressão de quem espera uma mensagem que não vem.

Ele sentou ao lado dela.

— Posso lhe fazer companhia por um momento?

A mulher ergueu os olhos, surpresa.

— Por quê?

Renato pensou em Nicolas. Na menina de Osasco. Em trinta e dois anos de poltronas vazias e cheias.

— Porque estamos os dois aqui.

A mulher guardou o celular. Não disse nada. 

Ficou.

[FIM]

Para meus colegas de escuta — que sabem que o maior presente é, às vezes, apenas ficar. Nesta véspera em que tantos nos procuram carregando trenós invisíveis cheios de expectativas não nomeadas, compartilho este pequeno conto — uma supervisão improvável que lembra por que ficamos, mesmo quando a poltrona está vazia. 

Que neste Natal possamos ser, cada um à sua maneira, aquele banco de praça: presença sem demanda, silêncio que acolhe, permanência que diz você foi visto.

Às vezes, é o suficiente.

Feliz Natal

Palavras chaves : Escuta,  Ausência, Reparação, Presença

Imagem: IA Grok

Categoria: Política e Sociedade; Cultura 

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Tags: Ausência | Escuta | Presença | Reparação
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