Observatório Psicanalítico OP 647/2025

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

A “manosphere” ou a “machosfera”: um reduto do machismo ferido

Ruggero Levy – SPPA

Não sei se já ouviram falar de Andrew Tate, ou Tristan Tate, ou Nick Fuentes, ou ainda de Myron Gaines? De todo modo, estes são alguns dos ideólogos desta comunidade tóxica da web chamada de manosphere, ou seja, a esfera dos homens. Mas a verdade é que os adjetivos se multiplicam para melhor definir este espaço de doutrinamento. Deveria chamar-se a esfera dos homens misóginos, machistas, supremacistas, “neo-masculinos”, neonazistas e defensores da violência doméstica! Sim, para o nosso espanto este é o ideário deste grupo. Um site inglês chamado “Digital Parent Club” – digitalparentclub.com – os descreve com precisão. Em sua ideologia consta que a emancipação feminina tem humilhado aos homens, tem os tornado inferiores, os submetidos, portanto, seria hora de reagir. Afirmam, há que dominá-las novamente, impor-se pela força psicológica ou física, se necessário.

Entretanto, o problema é ainda mais grave. Stephen Graham, roteirista, produtor e ator da série Adolescência, diz que ficou estarrecido ao ler uma notícia de um jornal britânico que um jovem de 13 anos havia assassinado uma colega de aula. Uma semana depois deste assassinato, depara-se com outro exatamente igual. Dá-se conta que esta sequência de crimes não deveria ser algo acidental, uma simples coincidência, e começa a pesquisar. Descobre que há uma comunidade machista tóxica na web incitando os feminicídios. 

A trama macabra acontece da seguinte forma. Jovens adolescentes masculinos que sofreram alguma frustração amorosa, ou inseguros quanto à sua masculinidade se expõem na web. Os algoritmos identificam as problemáticas que assombram estes rapazes adolescentes frágeis, suas frustrações amorosas, a insegurança identitária, o sofrimento narcísico, e os encaminham para a manosphere. Ali eles são doutrinados. Recebem o nome de incels, ou seja, de celibatários involuntários porque são rechaçados pelas mulheres. Além disso, toda uma cultura com um vocabulário e expressões com novos significados é neles inoculada. Por exemplo, awalt (todas as mulheres são assim), alpha male (macho alfa que atrai mulheres), alpha widow (mulher que namorou um macho alfa e que agora não se satisfaz mais com homens inferiores), e assim vai. O glossário deles é extenso e incompreensível para os não iniciados. 

Deste modo, estes jovens frágeis são “incluídos” numa comunidade que lhes promete força e vingança contra as mulheres e incitados a humilhá-las, agredi-las ou matá-las! Sim, matá-las como bem mostra a série Adolescência. Aliás, os atos infracionais de adolescentes de todas as classes sociais têm aumentado exponencialmente em todo o mundo, incitados por esta e por inúmeras outras comunidades tóxicas da web.

O grave de tudo isso é que chegam ao nosso conhecimento apenas os epifenômenos destes doutrinamentos, os crimes, os suicídios, as automutilações. Mas, e os doutrinamentos silenciosos que vão formando legiões de machistas e misóginos? E, pior, vão hackeando e dominando a mente de adolescentes sem nenhum freio ou controle da sociedade adulta. Como eu disse ao início, estes influencers têm nome, fotografia e endereço conhecidos e agem impunemente violentando e abusando de jovens vulneráveis. E a sociedade adulta desmente tudo isso, talvez por alguma identificação inconsciente com estes abusadores.  

Claro que esta esfera virtual de estimulação do ódio às mulheres não é um fenômeno isolado. É um reduto organizado de resistência do machismo histórico. Certamente é a expressão da reação cultural à emancipação feminina, à valorização da mulher e, consequentemente, de sua ocupação de posições mais valorizadas na sociedade. Esse movimento progressista não é tolerado por setores da sociedade mais conservadores, ancorados na cultura patriarcal que por séculos dominou o ocidente. Não será por acaso que os feminicídios não param de aumentar, certo?  

Soma-se a esta reação cultural e social à emancipação feminina, forte e determinante, um outro aspecto da mente masculina que nós, psicanalistas, não podemos ignorar. Sabemos que subjaz em todos nós uma identificação feminina primária fruto de nossa relação primitiva com as nossas mães, pautada por intensas experiências emocionais estruturantes. 

Este é o nosso primeiro objeto de amor com o qual nos identificamos. Sabemos também que a identificação com o masculino é, portanto, secundária e, por isso, mais frágil. Logo, quando o feminino emerge no homem muitas vezes provoca um intenso pavor, levando muitos tentarem sufocá-lo a todo custo. Além das questões sociais e culturais, acima mencionadas, extremamente determinantes, talvez aí também repouse o ódio e o temor ao feminino por parte dos homens. Não há de ser por nada que em inúmeras épocas, regiões, culturas e religiões o temor e o ódio ao feminino se manifeste de forma mais ou menos explícita.

Felizmente temos o OP como uma frente de resistência a essas reações retrógradas, pois nos permite dialogar, compreender, resistir e compartilhar a indignação com os feminicídios inaceitáveis que nos atravessam diariamente. Devemos reafirmar a nossa aposta ética na palavra, no pensamento e nos laços amorosos.

Palavras-chave: feminicídio, manosphere, ódio ao feminino, misoginia.

Imagem: EBC. Agência Brasil. Tânia Rego. Mulheres protestam contra o feminicídio no Rio de Janeiro.  

Categoria: Política e Sociedade

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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Tags: Feminicídio | manosphere | misoginia | ódio ao feminino
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